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domingo, 30 de maio de 2021

DÚVIDAS SOBRE A LIBERDADE ABSOLUTA E ANGÚSTIA EM SARTRE

 DÚVIDAS SOBRE A LIBERDADE ABSOLUTA E ANGÚSTIA EM SARTRE

Tenho uma certa simpatia pelo filósofo francês do século XX, nascido em 1905 e falecido em 1980, Jean Paul Sartre, na opinião de muitos, o maior filósofo francês de todos os tempos. Talvez seja verdade, mas que foi o mais famoso não tenho dúvida. Para variar, só para alertar, não faço consultas para escrever os textos deste blog. Cismo que vou escrever e escrevo. O meu objetivo não é o de fazer um trabalho acadêmico, mas provocar polêmicas e estimular o pensamento crítico entre quem gosta de Filosofia, em geral, e do Existencialismo, em particular. Nunca, jamais tenho a intenção de esgotar o assunto que vou abordar de forma superficial, mas desde as minhas primeiras leituras de Sartre, algumas entrevistas de especialistas, entre outras, que me faço algumas perguntas sobre alguns conceitos do grande filósofo francês. Diga-se de passagem que Sartre não foi apenas um filósofo, mas também romancista, teatrólogo, entre outros predicados. Além de não ser um filósofo que apenas teorizava, pois o engajamento político sempre fez parte das suas lutas pela liberdade dos povos. Era uma enciclopédia ambulante...
Esclarecido, espero, o parágrafo supracitado, farei um recorte a respeito de dois conceitos caros ao filósofo francês: liberdade absoluta e angústia. Não quero um ponto final, desejo interrogações. É uma tradição na Filosofia a pergunta se o homem é livre ou determinado. Inclusive, se algum leitor pesquisar este blog, encontrará tal tema entre os meus textos. Sartre, ao contrário de muitos filósofos — quiçá a maioria —, preconiza uma liberdade absoluta. Será?
Se compreendermos por liberdade absoluta ações em que o homem pode fazer tudo, sem freios, regras, leis, normas, obstáculos e interditos, penso ser impossível tal liberdade. Todavia, Sartre defende uma liberdade absoluta, no entanto, com a responsabilidade do indivíduo que comete a ação. Há um fardo, consequências que a pessoa tem que assumir. Tendo a concordar com isso, entretanto, vamos tentar nos aprofundar mais um pouco...
Sartre pensa assim porque ele é ateu, ou seja, não há, para ele, um ser superior que tenha a mais ínfima responsabilidade conosco; já nascemos no mundo e não escolhemos uma determinada família, país, sociedade, classe social, etc. No entanto, todas as outras situações são um problema de cada indivíduo, afinal, ele tem a liberdade absoluta para fazer as suas escolhas e ações e se responsabilizar por elas. Uma das frases mais famosas de Sartre é esta: "Estamos condenados a ser livres"! Condenado e livre? Como conciliar tal contradição? Para ele, condenados porque não pedimos para nascer, e livres porque não há desculpas: temos a liberdade para agir e não há consolo divino. Somos os responsáveis por tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. (Ele cita frases interessantes sobre isso, mas foge ao objetivo deste texto.)
Eu poderia escrever a respeito de vários outros conceitos de Sartre, entre muitos, os de SER-PARA-SI e SER-EM-SI; fenomenologia e intencionalidade, essência e existência, mas já há um texto enorme sobre esses temas que escrevi há alguns anos.
Vou dar alguns exemplos para ficar mais claro à questão da liberdade em Sartre e, a partir daí, fazer um contraponto com o conceito de angústia. Sartre inverteu a ideia de essência e existência. Na Filosofia tradicional e até hoje, referimo-nos muito à chamada essência, uma espécie de potencialidade que, em tese, nasce, é fundamental ao homem. Quem nunca ouviu estas frases: "ele tem muito potencial"; "é preciso desenvolver todas as potencialidades dos nossos discentes". Ora, Sartre pensa diferente. Para ele não há essência nenhuma no homem, ou seja, "a existência precede a essência"; primeiro existimos no mundo, escolhemos, agimos, fazemos, e assim a essência não está em potencial no homem, ele a constrói pela ação, pela liberdade. Sartre dizia: "O homem é aquilo que ele faz".
Uma outra coisa importante é que a consciência não é uma substância, não existe um conjunto de emoções, traumas, uma caixa com todos os problemas humanos dentro do cérebro ou da consciência do homem. A consciência é intencional, ela vai sempre em direção ao mundo e, a partir disso, dá significado ao mundo e às ações humanas. Em outras palavras, ela é um NADA. Se é nada, logo, tem uma liberdade absoluta. Lembre-se: LIBERDADE para escolher, de tentar mudar algo, de se responsabilizar pelos próprios atos, mas não é livre para escapar dos efeitos e das consequências.
Escrevi tudo isso para questionar como Sartre pode conciliar esta tal liberdade absoluta com a angústia. Sim, porque quem realmente escolhe é considerado alguém que tem uma vida autêntica, livre e responsável; quem finge escolher vive no que ele chama de má-fé. O problema maior, a meu ver, é este: como conciliar a liberdade absoluta com a angústia? Se a angústia é ontológica, ou seja, faz parte do homem, ela não seria uma espécie de essência? Mas ele nega isso!! De onde vem a angústia se ela não é biológica? Afinal, se a consciência é NADA, SER-PARA-SI, por que ela não pode escapar da angústia? A angústia não seria uma escolha também? Se não o é, podemos falar em liberdade absoluta? Se faz parte do ser que não pode escolher tê-la, como defender a liberdade? Não haveria um fundamento ontológico, um determinismo? Sartre caiu em contradição? Não tenho certeza, mas se for para levar Sartre a sério, ele teria que preconizar que a própria angústia é uma escolha... Por que escolher a angústia se a liberdade é absoluta? E ela é absoluta porque a consciência não é uma substância, ela vai em direção ao mundo, ao SER-EM-SI, ou seja, ela está fora. Como articular consciência e o corpo físico se, em tese, ela não está no cérebro? De que forma uma consciência pode ter angústia sem que o corpo físico não a sinta?
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

REFLEXÃO SOBRE MUDANÇAS!

Segunda-feira, 16 de novembro de 2020
REFLEXÃO SOBRE MUDANÇAS!
Eu gostaria de mudar de mim e viver, temporariamente, na mente de outras pessoas e vice-versa. Desejaria que outras pessoas vivessem na minha mente; ou seja, eu não seria eu, seria a mente de alguém; uma outra pessoa não seria ela, mas eu — apenas, é claro, de um ponto de vista psicológico...
Talvez essa fosse a verdadeira empatia... ser, essencialmente, a história de vida de alguém, do ponto de vista mais amplo possível: experiências, traumas, memórias, prazeres, dores, pensamentos, preconceitos, emoções, loucuras, crises existenciais, enfim, tudo...
Quantos de nós pensaram sobre tal assunto? Se existisse essa possibilidade, será que muitos se candidatariam? Sim, porque afirmar que deveríamos ter a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro é fácil, não é mesmo? Todavia — ser o outro, ontologicamente, não mais com a sua existência mental, mas encarnar a mente de uma outra pessoa, como se você nunca tivesse existido —, a situação muda de figura.
Em outras palavras, você seria você, apenas na aparência física, mas sentiria tudo o que o outro ou a outra sentiu e sente. Como diz o ditado popular: literalmente, "estar na pele do outro". Mais uma vez: é até compreensível, dados os nossos limites, referirmo-nos a sentimentos nobres, como empatia, solidariedade, entre outros; entretanto, é impossível (pelo menos por enquanto) encarnarmos uma outra pessoa...
Enquanto seres humanos, somos um caos de contradições. Muitos nos chamam de narcisistas, arrogantes, imaturos — ou nos fazem elogios que massageiam os nossos egos, não é mesmo? No entanto, quem pode ser a referência para ser o juiz ou juíza do comportamento dos outros?
Por outro lado, há comportamentos que jogam por terra tudo o que foi supracitado, como, por exemplo, o genocídio, o nazismo, o fascismo, entre muitas outras violências. Seria muito interessante que as pessoas que defendem tais maldades sofressem uma metamorfose e se tornassem verdadeiramente as vítimas da violência em todas as situações possíveis... Será que aprenderiam?
O assunto é polêmico e, com certeza, dá uma boa discussão filosófica; todavia, a minha intenção é provocar. Quem é o dono da verdade? E o que é a dita-cuja?!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O HOMEM EM RELAÇÃO AO UNIVERSO E O VÍRUS EM RELAÇÃO AO HOMEM!

O HOMEM EM RELAÇÃO AO UNIVERSO E O VÍRUS EM RELAÇÃO AO HOMEM!
Neste período de profunda crise mundial causada por um vírus mortal que afeta as relações pessoais, familiares, sociais, políticas, econômicas, entre outras, mas principalmente e acima de tudo a saúde dos mais de oito bilhões de habitantes do planeta, levando milhares de seres humanos ao óbito neste dia em que escrevo este texto. Todavia, ainda é muito cedo para afirmarmos que não teremos milhões de pessoas mortas, afinal, a doença parece estar longe de ser controlada no planeta e ainda não sabemos quase nada a respeito do novo Coronavírus, denominado pela ciência de COVID-19.
Neste texto, proponho uma reflexão sobre a importância do homem diante do Universo, e a de um vírus, um simples micro-organismo, diante do ser humano. O interessante é que o ser humano não deixa de ser "uma espécie de Universo" em que os vírus "habitam", resta saber a relação que ambos têm com os seus "respectivos Universos"... (Aqui não coloco a possibilidade de multiuniversos estudados pelas diversas áreas da Física — refiro-me ao nosso Universo "conhecido". Apenas faço uma analogia entre o ser humano em relação ao Universo e o vírus diante do ser humano.)
Entendido o que foi supracitado, o que é o homem em relação ao Universo? NADA! O que é um vírus patogênico (causador de doenças), mais especificamente, o COVID-19 em relação ao ser humano, o "Universo do vírus"? TUDO!! O homem, que se acha tudo perante o Universo, não é nada; o COVID-19, que não pode pensar, portanto não pode se achar tudo ou nada, na verdade, mesmo sem o saber, tem um poder de destruição tremendo, tão grande que faz inveja aos grandes "gênios" que, em nome da vaidade e do progresso, inventaram as armas mais temíveis e terríveis para a destruição dos seus semelhantes.
O homem pode destruir o Universo? Penso que não. Pode, no máximo, aniquilar quase todos os seres vivos do nosso minúsculo e insignificante planeta Terra. Mesmo assim é provável que a Terra se recupere com o decorrer do tempo... O COVID-19 que habita o "Universo humano", pode destruir o homem? Pode e tem destruído, mesmo não sendo consciente, inteligente e ético; e o que é pior: os vírus habitam o planeta Terra há alguns bilhões de anos: sofrem mutações e continuam sobrevivendo nos diversos "alojamentos" dos seres vivos em geral. O ser humano está por aqui no máximo há algumas centenas de milhares de anos.
E eu não poderia terminar este texto sem a seguinte e terrível lembrança: se pelo menos trabalhássemos para eliminar muitos micro-organismos, adversários inconscientes na luta pela sobrevivência, ainda estaria muito bom. Entretanto, por causa do poder político e econômico e a vontade de ser superior aos seus semelhantes, sendo que não o é nem contra micro-organismos patogênicos, o homem já é capaz de fabricar vírus em laboratório. Não basta a natureza, o todo-poderoso ser humano quer ter armas "biológicas" que talvez fizessem do COVID-19 apenas um brinquedinho de dizimar pessoas inocentes, pois os cientistas, em tese, são capazes de produzir micro-organismos várias vezes mais potentes.
O homem não passa de natureza que produziu um "relâmpago" de consciência e inteligência em si mesma (a natureza), e enquanto ele não se sentir como parte do Universo, a tendência é que essa luz se apague para sempre. Não é o vírus que é maldito, maldito é quem é consciente para destruir...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 16 de novembro de 2019

O MITO SOBRE A ESCOLA SEM PARTIDO!


Sábado, 16 de novembro de 2019
O MITO SOBRE A ESCOLA SEM PARTIDO!
Estamos diante de mais uma aberração dos poderes políticos e econômicos para tentar nos impor uma ideologia supostamente boa e imparcial mas que, na verdade, oculta um plano diabólico de dominação em todas as áreas das diversas ocupações e relacionamentos humanos. Nenhuma novidade, afinal os seres humanos sempre estiveram perdidos e dependeram, dependem e, provavelmente, dependerão de soluções por parte dos poderosos nas várias dimensões da realidade.
Para que tal reflexão seja possível, precisamos da ajuda de uma chave — não da solução de todos os problemas, mas a condição fundamental, essencial, para problematizarmos e trazer à tona os interesses escusos e maquiavélicos daqueles que querem tornar mais fácil a dominação: o ponto de interrogação (?). Ledo engano de quem pensa que tal ideologia, rasa e superficial, não parece, à primeira vista, algo de muito positivo. Em outras palavras, um método que, em tese, seria imparcial, justo, sem influência de pessoas ou de grupos!! Alguém acredita que seja possível uma escola sem partido? Seria possível essa verdadeira revolução nas sociedades humanas? Façamos algumas perguntas...
Propor uma escola sem partido já não é tomar partido? Esqueçamos, por enquanto, a escola formal, pois esta apareceu muito tempo depois da existência das primeiras comunidades primitivas. "A educação" está disseminada desde os primórdios. O que são, por exemplo, os rituais, os ritos de passagens, as crenças, os valores, enfim, a cultura de um povo? É a educação, evidentemente, baseada na tradição, ou seja, era passada por meio da via oral, não havia escrita à época.
Nos dias de hoje, a educação existe nas escolas formais, mas também acontece em todas as instituições sociais: na família, na igreja, no trabalho, na comunidade, na arte e em todos os demais relacionamentos humanos. O ser humano não nasce educado instintivamente, ele não é como os animais. Estes são regidos pelos instintos, já sabem o que fazer; aqueles têm que aprender, ou seja, precisam interagir com a natureza e os diversos grupos sociais para se tornar humano. Para relembrar o grande filósofo grego, Aristóteles, quando ele se refere aos conceitos de "potência e ato." Não vou entrar em detalhes, porque o Existencialismo, corrente filosófica de meados do século XX, principalmente com Sartre, inverte tais conceitos aristotélicos: para Sartre, "a existência precede a essência". Há controvérsias; aliás, como tudo em Filosofia...
A pergunta que joga por terra toda essa argumentação fajuta de escola sem partido — que, todavia, toma partido para impor a mordaça e cercear o pensamento crítico aos cidadãos, mas que preconiza a imparcialidade no ambiente escolar formal — é uma falácia: se a educação não é privilégio da educação formal, pelo contrário, acontece em todas as demais instituições, e talvez a mais importante seja a família, como pregar uma educação sem partido? Ou não há partidos (opiniões), formas de ver o mundo, valores morais, éticos, religiosos, econômicos e políticos que começam na família?
Que cidadão, em qualquer parte do mundo, foi respeitado sem ter sido moldado e "enquadrado" em alguma forma de "educação"? Há a mesma educação religiosa nas várias igrejas existentes no mundo? Falamos a mesma língua em todos os lugares? Os economistas defendem apenas uma teoria econômica válida para todos? Os valores capitalistas não são partidários, ou seja, não têm interesses? Eles são ou não impostos, inclusive dentro das escolas formais? Se nem as ciências naturais são imparciais, porque há divergências entre os métodos, critérios, técnicas, como defender uma escola sem partido? Só de algumas pessoas defenderem isso, por acaso, já estão tomando partido: "O partido da escola sem partido". Isto é possível? As forças armadas não têm partido? Partidos, não como agremiação política, mas influenciada por eles, pelas doutrinas econômicas, pelos valores e práticas consideradas corretas? A interpretação de textos políticos, econômicos, filosóficos, sociológicos, históricos e jornalísticos não são partidários, ou seja, não há um pré-conceito e um preconceito entre outras possibilidades e alternativas?
A quem interessa, por exemplo, que disciplinas como Filosofia e Sociologia sejam desvalorizadas por governos de Direita e de Extrema-Direita? Odeiam o pensamento crítico, porque o questionamento é o fundamento do respeito e das mudanças. Temos que acabar com essa ideologia furada de que há imparcialidade total em termos de questões humanas, porque isso é mais um mito, no sentido de mentira.
Se nem as ciências naturais conseguem ser imparciais, porque elas não conseguem ser um reflexo objetivo da realidade; caso contrário, não teríamos teorias diferentes para explicar os mesmos fatos. Em última análise, quem tem a última palavra nas chamadas teorias científicas? Não há partido, poder político e econômico nas conclusões finais das ciências?
A proposta de escola sem partido é ridícula. É mais uma ideologia dos partidários do Neoliberalismo e daqueles que querem nos impor crenças sociais como se fossem um carimbo divino ou natural. Aqueles que querem nos impor tal ideologia são os que mais se aproveitam do partido da escola sem partido. Tenho dito!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A ÉTICA DE EPICURO E A ÉTICA ESTATAL CUBANA

Quarta-feira, 3 de abril de 2019
A ÉTICA DE EPICURO E A ÉTICA ESTATAL CUBANA
Epicuro de Samos é da época helenística: nasceu, como o nome já diz, em Samos, na Grécia, em 341 a.C. e faleceu em 270 a.C., em Atenas, na Grécia. Como não faço consultas, vou me ater apenas à ética epicurista, mesmo assim de forma bem sucinta. Por outro lado, tentarei fazer uma "comparação" anacrônica; pois, quando refiro-me à ética de Cuba, o contexto histórico são os séculos XX e XXI.
A meu ver, há uma relação de semelhança entre os ensinamentos éticos de Epicuro, também conhecido como "o filósofo do Jardim", e a ética "capitalista de Estado cubano", que muitos confundem com o socialismo. Farei um recorte dessa ética, afinal existe uma diferença cultural e temporal de mais de dois milênios.
Todavia, como ver relação de semelhança entre a doutrina ética de Epicuro e o Estado cubano? Vejamos uma doutrina ética do epicurismo muito simples, mas de profunda sabedoria. Epicuro preconizava que há: 1) "coisas naturais e necessárias"; 2) "coisas naturais, mas não necessárias", e a última, talvez a mais importante nos tempos atuais: 3) aquelas que não são "nem naturais nem necessárias". O que há de comum entre a doutrina ética epicurista e a cubana?
Basta refletir um pouco. Tanto Epicuro quanto o Estado cubano são adeptos do primeiro comportamento ético, lembrando, como se pode perceber acima, que ele citou três formas: uma que é essencial, fundamental para uma vida digna, e as outras duas podem ser descartadas — principalmente a última, esta que é atual no "sistema capitalista de mercado globalizado". Por quê?
Para uma melhor compreensão, darei alguns exemplos, não necessariamente iguais aos de Epicuro, pois pretendo fazer uma "atualização" para a nossa época. A primeira diz respeito às "coisas naturais e necessárias": dormir, comer, beber, ter um teto, saúde, amigos(as), prazeres moderados; em outras palavras, ser feliz com uma vida simples, mas digna. A segunda refere-se às mesmas coisas da primeira — são necessidades naturais, mas, ao contrário da primeira, não necessárias — dormir é algo vital, natural, mas não é necessário que seja numa cama luxuosa; beber e comer são naturais, mas não há necessidade que sejam bebidas caras e refinadas, o mesmo serve para a comida. Nada de luxo e banquetes com alimentos que serviriam para os "deuses". Ter um teto é natural, mas não precisa ser um palacete de mármore. Amigos, sim; contudo, não é prudente querer ter apenas amigos ricos e poderosos. Quanto aos prazeres, a mesma coisa: nada em excesso. A última está relacionada àquilo que não é nem natural nem necessário: o poder, todos os poderes, a fama a qualquer custo, a riqueza sem limite, a glória, a busca de prazeres — ou seja, o hedonismo, onde o céu é o limite. E onde o Estado cubano entra nisso?
O Estado cubano está fundamentado no primeiro ensinamento da ética de Epicuro: "o que é natural e necessário". Com todos os problemas enfrentados por Cuba, todos comem, bebem, têm um teto, amigos(as) que procuram cooperar entre si, educação e saúde simples, mas da melhor qualidade, e todos estudam; não há crianças fora da escola. Muitos podem dizer que a situação de Cuba é assim porque o socialismo não deu certo, que eles sonham com muito mais. Será? Cuba está, desde 1959, sob fortes sanções econômicas e políticas. E Cuba não pode transformar-se num país socialista, pois este depende de solidariedade, cooperação e ajuda recíproca de outros Estados socialistas. Ou seja, só é possível um socialismo, de fato, se existisse o mesmo regime de produção em todo ou em quase todo o planeta. O capitalismo está presente em nível global; mas entregou as promessas de felicidade e prosperidade a todas as pessoas, ou ao menos uma certa dignidade? Não, muito antes pelo contrário.
Cuba não é o paraíso, mas está longe de ser o inferno. Melhor: ela cumpre a ética epicurista de coisas naturais e necessárias. Imagine se todo ser humano vivesse uma vida simples, mas que tivesse o mínimo para ser chamado de ser humano, no sentido mais nobre da palavra?
Evidentemente, a minha reflexão teve como objetivo fazer uma comparação apenas "ética". Não levei em consideração questões políticas nem econômicas. Epicuro procurava sossego, felicidade e ataraxia, fugia da situação política da época, num contexto "local"; a ética cubana é uma política de Estado, possível e pautada em outros valores que devem ser comparados ao capitalismo Neoliberal contemporâneo e planetário. Este busca muito dinheiro, riquezas, fama, poderes, luxos descartáveis, o hedonismo exacerbado, ideologia, alienação e exploração.
Um sistema, uma sociedade globalizada que destrói o próprio habitat por causa da busca ambiciosa, gananciosa e egoísta de coisas que não são nem naturais nem necessárias não terá sossego, tranquilidade, serenidade, segurança. Ter um teto (o planeta Terra) é algo natural e necessário. Quando alguém "destrói" a sua moradia (casa) para fazer uma reforma, a intenção é melhorá-la. Quando destruímos o planeta, existe a possibilidade de ser para melhor? Resultado: ansiedade, depressão, insegurança, vazio existencial, ignorância, entre outras situações degradantes. Mesmo sabendo disso, quantos abrem mão do atual modo de vida? Jamais poderíamos condenar um suicida; afinal, estamos fazendo a mesma coisa, só que num nível global e sem volta. Infelizmente...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 11 de novembro de 2018

REFLEXÃO SOBRE RELAÇÕES HUMANAS NA ERA DA INTERNET

Domingo, 11 de novembro de 2018
REFLEXÃO SOBRE RELAÇÕES HUMANAS NA ERA DA INTERNET
Não sou profeta, apenas uma pessoa que reflete bastante os acontecimentos e problemas do seu tempo. As pessoas que nasceram até o final da década de 70, início da de 80, provavelmente, estão sentindo um certo mal-estar. Como o mundo mudou... A família como a conhecíamos vai desaparecer. O "amor" só existirá nas palavras, a monogamia desaparecerá...
Os relacionamentos já mudaram faz tempo. Por exemplo, antes não existia o termo "ficar". As novas gerações estão num outro contexto. Havia o namoro, mesmo que ele durasse pouco. O "ficar" pode ser dez minutos, uma hora ou uma noite; talvez de vez em quando. Quase sempre não há um clima, uma paquera, mas simplesmente a ação. Às vezes as pessoas não sabem nem o nome do "par".
Querer compromisso sério nesta época é motivo de piada, mas ao mesmo tempo lemos e ouvimos a palavra “mozão”. O atual comportamento humano (transcende o local), principalmente por causa do advento da internet, está melhor ou pior do que antes? Eu não sei; apenas tento compreender um movimento impermanente tão rápido que não é possível fechar, concluir...
Concomitantemente percebemos que muitas pessoas querem um relacionamento estável; porém, casam-se e o casamento não costuma durar nem dois anos. E por parte dos homens (que, num primeiro momento, perderam o seu chão), agora parece que estão curtindo muito a nova época. A maioria só quer "ficar", afinal se há tantas opções, para que escolher uma só? O mesmo serve para as mulheres. Ser solteiro(a) virou sinônimo de fazer o que quiser com o próprio corpo (eu penso que estão certos) — mas deveriam levar em consideração que não somos só natureza, somos cultura também. Seres humanos não ficam no cio, não são apenas instintos...
A principal consequência de tudo isso é o imenso vazio existencial. Um buraco enorme na "alma". A distração constante pode atenuar o vazio, mas uma hora ele chega para ficar e morar... Os anos vão passando e a lei da gravidade é para todos. Ninguém fica belo a vida toda, mesmo que tal "beleza" conte com uma imensa ajuda: todos os recursos disponíveis no mercado: de photoshop e maquiagens à cirurgia plástica...
Boa sorte para nós e, se possível, muita reflexão. Fico com pena das gerações futuras...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO






quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

REFLEXÃO SOBRE AS REDES SOCIAIS

Quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
REFLEXÃO SOBRE AS REDES SOCIAIS
As redes sociais merecem uma profunda reflexão. Tenho feito algumas observações há algum tempo, principalmente com pessoas que não conheço pessoalmente. Confesso que estou tendo uma certa dificuldade para compreender a atualidade. Não há, nestes tempos, uma ética que chegue para ficar valendo por um intervalo temporal "razoável" — nada se cristaliza; nada perdura.
O novo nasce e já está velho na semana seguinte. Nunca se sabe se a pessoa que você vê nas fotografias existe de fato, se é um fake com uma foto que foi "furtada" de uma pessoa maravilhosa (fisicamente), ou mesmo se a pessoa considerada "maravilhosa", na verdade, não passa de um efeito "mágico" dos recursos mais modernos de uma máquina fotográfica capaz de gerar uma outra criatura.
Eu fico sempre na dúvida — o que não é novidade para quem me conhece —; o que muitas vezes me faz desconfiar de tantos deuses e deusas (por terem uma beleza que parece não existir neste mundo, mas só no Olimpo grego) é perceber como a maioria escreve mal. A mesma beleza estonteante torna-se frustrante diante da incapacidade da pessoa conseguir escrever uma frase sem alguns erros horrorosos. (Cometo erros também, mas escrever o básico corretamente é essencial.)
Por outro lado, aparentemente, não existe tristeza nas redes sociais. As pessoas parecem estar sempre felizes. As fotos mostram um mundo que para mim seria o paraíso terrestre; no entanto, há uma grande dicotomia: os alegres, de uma hora para outra, manifestam a mais profunda tristeza. Uma outra situação que me chama bastante atenção são os afetos. Em um dia a gente olha e a pessoa está num relacionamento sério e a "fábrica" de corações vermelhinhos não "descansa". E a frase que mais se lê é: “Eu amo você!!” Todavia, em pouco tempo já não há mais amor, mas a ruptura de um "amor" que parecia tão profundo... Como pode isso?
Existem muitos outros fatos, mas para resumir, por enquanto, pois o assunto merece ser estudado em maior extensão e profundidade, vou citar apenas mais um exemplo.
Entre essas pessoas que não sabem escrever direito, algumas ainda têm a coragem de chamá-lo de lerdo, simplesmente por não ter paciência de esperá-lo digitar. É como se não houvesse o tempo — tudo tem que ser instantâneo, imediato... Como pode uma pessoa que escreve tão mal rotular alguém de lerdo? Não sei o que se passa com muitos amigos e colegas, mas eu estou me sentindo numa espécie de mundo virtual, contudo, na última esfera (dimensão). Quando vejo pessoas normais, de carne e osso perto de mim, tenho me questionado se o mundo sensível, concreto, denso, maciço é real, verdadeiro. E parece que a situação ainda está só no começo. O “homem”-máquina vem por aí. O conceito de ser biológico, em pouco tempo, deixará de existir, e só saberemos, pelos livros de História, que um dia houve espécies biológicas. Tenho medo disso...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 24 de outubro de 2017

CETICISMO POLÍTICO E OUTROS...

Terça-feira, 24 de outubro de 2017
CETICISMO POLÍTICO E OUTROS...
Felizmente ou infelizmente, ao contrário de outras épocas, tenho tido bastante tempo. A "alienação" que o trabalho provoca e que não nos permite refletir muito, talvez seja necessária — “distraímo-nos”, além de ser uma forma de não mergulhamos nas questões que deveriam nos interessar...
Tenho vivido, ultimamente, como se estivesse no Helenismo, quando o apogeu da cultura grega deu lugar à invasão macedônica e toda aquela atmosfera cultural anterior entrou em profunda crise. Logo, surgiram escolas filosóficas gregas que se isolaram e passaram a ter preocupações, principalmente, éticas; visto que, com a balbúrdia política da época de dominação por outros povos — era preciso arrumar um meio de buscar a serenidade, a tranquilidade, a felicidade e uma vida simples. E a política, com certeza, não é o lugar "ideal" para se encontrar a tranquilidade, muito antes pelo contrário...
Algumas escolas filosóficas, tais como o Cinismo, o Estoicismo e o Epicurismo foram as mais importantes. Vou me ater ao Epicurismo, mas sem a intenção de aprofundar o assunto. Cito-o mais para fazer uma analogia, mesmo que anacrônica, com a situação que me encontro atualmente...
Diante do dilema que a Humanidade, em geral, e o Brasil, em particular, vivem, o meu "retiro" não é o "Jardim Epicurista", local onde Epicuro vivia em paz com os seus amigos e amigas, filosofando sobre a melhor maneira de obtenção da ataraxia (tranquilidade da "alma"). O meu "jardim" é de puro concreto e numa zona urbana...
Ao contrário de Epicuro, com a sua Filosofia dogmática, o que tem acontecido comigo é um ceticismo generalizado; mormente na questão política, social e econômica, tanto no que tange à situação caótica do mundo quanto à total desesperança no Brasil, nos seus políticos, empresários, trabalhadores e o povo. Tenho procurado suspender o juízo, como faziam os céticos antigos; todavia, com todas as limitações do nosso tempo histórico.
Já não creio em mais nada; nada faz mais sentido para mim. Vivo mergulhado em leituras, reflexões — não para que aconteça alguma transformação na minha vontade, mas, sobretudo, para que eu continue chegando à conclusão de que a causa humana já está perdida. As mentiras, as ilusões estão em toda parte; só me resta a epoché (suspender o juízo dentro do possível) e esvaziar a minha mente de tanto lixo acumulado durante décadas, e que um dia acreditei que pudesse contribuir com alguma mudança... Mera ilusão. A única pessoa que posso mudar sou eu mesmo. E ela consiste no vazio absoluto. A paz está no vazio...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 29 de abril de 2017

LIBERDADE E DETERMINISMO!

Sábado, 29 de abril de 2017
LIBERDADE E DETERMINISMO!
O animal "irracional" é determinado. Nasce com instintos, já é "programado", aleatoriamente, pela natureza para fazer o que nasce sabendo. O animal não tem moral, ética ou amoralidade. Afirmar, como muitos por aí, que o animal é malvado é, no mínimo, ignorância. A "natureza" do animal é ser o que é e não outra coisa. Ele não faz escolhas...
O homem, que se julga superior aos animais, na verdade foi "amaldiçoado" pela mãe natureza; pois não é apenas natureza e também não é só um ser cultural — ele é e não é cultura e natureza. É um ser determinado e livre; racional e irracional; bondoso e maldoso; ético e antiético; generoso e mesquinho; capaz de amar e de odiar. Competente para construir e destruir coisas belas...
O homem é o único ser que nasce como uma "tábula rasa", como dizia o filósofo inglês empirista John Locke. Uma vez nascido neste mundo, necessita de cuidados por parte de outros humanos: não sabe andar, falar, pedir; nasce sem crenças, portanto, é ateu (ausência de crenças); não conhece o bem e o mal, logo não tem moral ou ética. Numa palavra: é um animal irracional inferior aos outros animais, afinal é totalmente dependente. O homem, quando bebê, compartilha de alguns instintos naturais com outros mamíferos: ninguém ensina um bebê a mamar. Há outros — o choro, talvez, seja o mais importante...
Desconfio que o maior problema humano na atualidade (começou bem antes) seja a arrogância de pensar que não é um animal inferior e o distanciamento da natureza. Exceto pequenas comunidades tribais isoladas, que têm uma relação de respeito com o mundo natural porque não foram "contaminadas" pela maneira "civilizada" de pensar, sentir e agir da nossa sociedade "sofisticada". Há um grande dilema da "espécie humana". Esta quis transcender uma parte da essência que lhe é imanente. Como fugir do próprio corpo? O corpo é natureza, ora!! Como viver só como corpo? O homem não é só corpo, ora!! — ele é também cultura; é capaz de fazer escolhas... Como viver só como corpo? Impossível; pois, como viver em sociedade, agindo apenas com os instintos naturais?
O equilíbrio se perdeu e penso que é muito tarde... As religiões preconizam uma vida como se o homem não tivesse um corpo e, por consequência, desejos naturais. O capitalismo, consumista por essência, preocupa-se só com o lucro, a glória, a fama e o hedonismo sem limites. A palavra de ordem é: prazer! Nada de moderação, porque a produção e o consumo não podem parar.
Alguns homens estão descobrindo o seguinte: éramos natureza e cultura; agora não somos nem uma coisa nem outra. Estamos em estado de derrelição, desamparados pela nossa própria estupidez...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 6 de novembro de 2016

"CAMINHOS PARA COMBATER A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NO BRASIL" *


Domingo, 6 de novembro de 2016
"CAMINHOS PARA COMBATER A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NO BRASIL" 
As pessoas de bom senso, lúcidas e inteligentes não aceitam quaisquer tipos de intolerância: esportiva, econômica, cultural, social, política, entre outras. Todavia, a intolerância religiosa é inaceitável, por vários motivos.
Primeiro, que a CF/88 preconiza que o Estado é laico, ou seja, não tem uma religião oficial. Segundo, que para ser possível a vida na sociedade é extremamente necessária a tolerância e o respeito recíproco entre os cidadãos. E, por último, a educação é fundamental para se ampliar a visão de mundo na mais tenra idade — dever-se-ia estudar a História das Religiões, assim, não prevaleceria apenas a visão cristã do mundo. Diga-se de passagem que até entre a religião cristã há divergências...
O ser humano é um eterno buscador da verdade. Por ser carente e não ter a maioria das respostas sobre a sua condição no mundo, muitos religiosos querem impor a sua verdade; contudo, não levam em conta que fazem parte de um planeta composto de várias culturas. E cada uma delas acredita que os seus valores são únicos, e a religião tem um peso muito grande nessas circunstâncias, pois trata-se de crença na salvação das almas e, portanto, da vida eterna.
Não é fácil acabar com preconceitos arraigados há anos; porém, o diálogo, o respeito — inclusive àqueles que não professam nenhuma fé — é essencial para que possamos ter no Brasil concepções de mundo diferentes, desde que possamos nos colocar no lugar daqueles que pensam e agem de outras formas. O fortalecimento da democracia é muito importante para o combate à intolerância, ao fanatismo e ao sectarismo religioso.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO
* TEMA DA REDAÇÃO DO ENEM DE 2016