Página

MAPA DOS VISITANTES DESDE O DIA 29/11/2009

Mostrando postagens com marcador O CORPO!. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O CORPO!. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O CORPO!

O corpo humano é um dos assuntos mais polêmicos e paradoxais que o homem se depara. Ele é ao mesmo tempo cultuado e negado. Cultuado, na nossa época, que padroniza uma espécie de beleza universal, onde músculos misturam-se com silicones, anabolizantes e alimentos "saudáveis", e, por outro lado, negado e rejeitado como se fosse um fardo para as correntes de pensamento de cunho religioso e idealista. O corpo, neste sentido, passa a ser o "templo" da alma, do espírito, e que como tudo aquilo que existe no espaço e no tempo,  está fadado à mudança e ao desaparecimento.

Mas, afinal, temos um corpo ou somos o próprio corpo? O corpo é o responsável pela prisão de uma suposta alma ou espírito que o habita? Em caso de a resposta ser afirmativa, como comprovar a existência de uma alma ou espírito? Constatamos milhares, milhões de corpos humanos nas mais diversas relações: social, econômica, política, cultural, mas apesar de o homem estar sempre numa determinada situação e condição no mundo, não constatamos uma alma ou espírito o habitando.

Elaboramos crenças, temos fé que o corpo não passa de um recurso para a evolução de algum ser de natureza espiritual,  e que só está no plano terreno de passagem. A mensagem é: temos um corpo,  e numa linguagem filosófica, ele é mera aparência, pois a essência, esta sim, é imortal e eterna e vem de uma outra dimensão. A verdade? Apenas o desejo de ser especial e merecer residir num outro reino, em tudo diferente deste mundo de lágrimas, dores, sofrimentos, desesperos e injustiças, contudo, com alguns lampejos de alegrias e prazeres.  A rejeição de encarar a finitude e o nascimento aleatório é uma verdade muito dura para ser confrontada. O homem precisa de ficções e ilusões para poder suportar o fardo pesado de um corpo que envelhece, adoece e morre como todos os outros seres viventes da natureza. A ideia de ter um corpo, mas ser uma alma ou espírito, "alivia" a angústia existencial da companheira e ao mesmo tempo inimiga: a morte.

Na falta de uma prova peremptória, fico com a crença de que somos um corpo, e que a matéria foi capaz de, no decorrer de milhões de anos, formar desde corpos mais simples aos mais complexos, como é o caso do ser humano. É através do corpo que o homem se relaciona, produz e reproduz a sua existência material, tem experiências sexuais e, portanto, reproduz a sua espécie, escolhe e é determinado pelas circunstâncias também, trabalha e com isso transforma a natureza,  produzindo cultura, dá sentido e significado à sua vida, comete atos e é responsável por eles, sejam pela consciência ou pela força das leis.

É pelo corpo que o ser humano está no mundo,  ocupando mais do que um lugar no espaço, mas vivendo também a sua dimensão temporal. É o corpo de um bebê nascendo que, geralmente,  é fonte de uma das maiores alegrias que o homem pode vivenciar, mas é o mesmo corpo que não tem garantia de sobreviver neste mundo, pois a existência pode ser longa,  quanto extremamente breve. E seja a existência breve ou longa, a alegria do nascimento é substituída pela dor da morte e a certeza do aniquilamento de uma pessoa ou quaisquer seres viventes.

Nunca vi uma alma desvinculada de um corpo. Existe? Não sei. Eu até gostaria que existisse, mas entre a realidade que percebo e o desejo de que o mundo fosse diferente,  e a necessidade de o homem inventar, imaginar e especular a respeito de um mundo metafísico, nada mais é que um paliativo e a esperança de uma recompensa que possa fazer justiça aos infortúnios de quem "passa" por aqui, pois até mesmo essa passagem é muito improvável. Deste ponto de vista, ser um corpo é um privilégio, dependendo da concepção de cada um. A meu ver, sou um corpo e fico feliz por estar apenas de "passagem" por aqui, pois a perspectiva da eternidade me gera um tédio maior. Jamais morrer? Isto, sim, é angustiante...


TEXTO: Marco Aurélio Machado