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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O QUE É A VERDADE?

Terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O QUE É A VERDADE?
O que é a "verdade"? Eis uma pergunta que existe desde a mais tenra aurora da Filosofia. Muitos já morreram e tantos outros já mataram em nome de uma suposta "verdade". Penso que, quando alguém diz que fulano de tal quer ser o dono da verdade, há um equívoco de interpretação conceitual. Aliás, a Filosofia deveria se preocupar em fazer uma terapia da linguagem.
Um dos maiores filósofos do século XX, o austríaco Wittgenstein, já nos alertava para tal fato. Ele dizia que muitos problemas filosóficos são pseudoproblemas que podem ser resolvidos ou dissolvidos apenas com uma boa análise da linguagem e da gramática. Concordo com ele...
Para o nosso texto aqui, vou tentar distinguir o conceito de "verdade" do conceito de "verdadeiro". A meu ver, muitos erros e equívocos da História da Filosofia poderiam ser evitados se tivéssemos prestado mais atenção na diferença entre eles. Por exemplo, quando digo que um quadrado tem quatro ângulos, posso afirmar, categoricamente, que daqui a milhões de anos (se houver seres humanos) tal verdade será reafirmada. É uma verdade necessária e universal. É uma verdade lógica, não depende de interpretação — a não ser num ceticismo radical, que costuma argumentar que um gênio maligno poderia nos enganar, nos mostrando um quadrado com quatro ângulos quando, na "verdade", ele teria cinco lados. Penso que a maioria das pessoas não defenderia uma tese tão absurda como a supracitada, não é mesmo? Em outras palavras, a lógica e a matemática nos dão uma verdade peremptória. A verdade, então, é um ente de razão — uma razão inventada pelos seres humanos, pois eu não defendo a tese de que a matemática faça parte da própria estrutura do Universo. Mas isto é uma outra discussão...
A "verdade" só pode ser lógica, matemática e, portanto, abstrata, universal e necessária. Ela é atemporal e definitiva. Eis o grande problema: o que eu vou fazer com tal "verdade"? Resolver problemas lógicos e matemáticos! Mas a vida se resume em problemas de tal natureza? Não. A vida não é congelada e estática. A vida é dinâmica, é movimento, é um processo que não pode ser enquadrado dentro de esquemas lógicos rígidos. A vida existe num espaço, num tempo; a vida é muito mais do que a invenção da lógica — a vida é ontológica.
A "verdade", então, por estar num mundo que contém o ser humano, não pode ir além daquilo que é o "verdadeiro". O conceito de algo verdadeiro é limitado; é temporal e finito. O verdadeiro, neste sentido, é humano; e o que é humano é sempre provisório. Muitas teorias científicas hoje são verdadeiras; mas, daqui a alguns anos, décadas ou séculos, continuarão a ser? Não. Mostrar-se-ão falsas. Novos modelos, paradigmas, conceitos, experimentos, mudanças culturais e históricas nos mostrarão o quão humildes e limitados são os seres humanos.
O "verdadeiro" é a única "verdade" em um mundo que vai muito além de uma lógica que confunde o "mapa com o território". O verdadeiro lida com o movimento, portanto, com a vida no sentido mais amplo da palavra. A "verdade" é a morte da vida; o verdadeiro é a essência da vida... A primeira é a inércia; a segunda é o dinamismo e a eterna transformação.
Quem sabe se os filósofos antigos tivessem prestado mais atenção ao filósofo Heráclito e menos a Parmênides e Aristóteles, não conceberíamos a vida de uma forma completamente diferente? A metafísica antiga é um amor não pela sabedoria, mas um amor pela morte. Por quê? Porque sempre valorizou o imóvel, o estático — ou seja, o imutável — como o fundamento daquilo que muda. Em outras palavras, como pode a essência (o imutável) ser a causa da aparência, do que muda? Mudemos isto: a aparência (o dinamismo) é o verdadeiro; a essência (o estático) é "verdade".
Qual é a "conclusão"? Penso que o verdadeiro é isto: a "verdade" é a morte — o verdadeiro é a vida; a "verdade" é universal — o verdadeiro é singular; a "verdade" é lógica — o verdadeiro é ontológico. A "verdade" é abstrata — o verdadeiro é um mergulho no oceano vital; a "verdade" é a essência morta — o verdadeiro é o mundo enquanto fenômeno existencial... Contraditório? Então preste atenção nisto: a mentira é "verdade". A mentira é mentira. Descubra por você mesmo(a) o que está certo ou errado nas frases acima, pois eu não vou dizer. O motor da vida é a contradição. Basta ver um ser humano agindo: grandes "verdades" e atos que envergonhariam os animais se eles tivessem consciência moral...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O FILÓSOFO!

Segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O FILÓSOFO!
Neste blog refiro-me com frequência à Filosofia e demais áreas correlatas; contudo, é necessário me voltar para o filósofo. Quem é o filósofo? Não desejo escrever sobre a etimologia da palavra Filosofia. Gostaria de refletir sobre o concept de filósofo; todavia, busco algo que vá além dos dicionários e do senso comum.
Um filósofo é quem estuda Filosofia numa faculdade? É alguém que, depois de graduado, torna-se professor nos vários níveis de educação? É aquele que faz um mestrado? Seria quem faz um doutorado com uma tese original? O que significa ser original — principalmente quando buscamos um filósofo na rica História da Filosofia e fazemos uma leitura totalmente diferente ou mesmo uma crítica considerada única e, portanto, "original"? Mas como ser original nos baseando no trabalho de outros filósofos? Pode ser alguém que nunca frequentou um curso formal de Filosofia? No passado era muito comum; afinal, os filósofos antigos não frequentavam faculdades de Filosofia e nem recebiam um diploma. Em última análise, quem está autorizado a conferir um título de filósofo a alguém?
Fico perplexo com a Filosofia; pois, até mesmo para decidir quem deve ser chamado de filósofo, não há consenso. Um psicólogo é quem faz Psicologia; um sociólogo é quem faz Sociologia; um médico é quem faz Medicina — mas por que quem estuda Filosofia numa faculdade não é chamado de filósofo também? Não há consenso nem sobre o que se entende por Filosofia...
O senso comum chama de filósofo quem pensa em coisas estranhas, abstratas e que parecem não ter conexão com a vida cotidiana, com o “mundo real”. É até compreensível; pois dificilmente alguém que não estuda Filosofia problematiza sobre o que é o "mundo real". Há muitos outros profissionais que se referem a quem é formado em Filosofia de uma forma pejorativa. Veem as pessoas da área como aqueles que ficam "filosofando" sobre o sexo dos anjos, que viajam num mundo onde a única realidade são as ideias; pensam que a Filosofia é muito teórica, outros acham-na inútil, etc. Mas, para quem pensa que inútil é tudo aquilo que não seja dinheiro e bens materiais, então para o filósofo não tem muita importância. Há filósofos complacentes com esse tipo de mentalidade tosca e infantil.
A meu ver, o filósofo é um apaixonado pelos pontos de interrogação, exclamação e as reticências. É a pessoa que faz perguntas simples, mas de uma complexidade profunda sobre a vida, o mundo, a natureza, a história, a política, a ética, a cultura, a beleza, a justiça, a ciência, a religião, o conhecimento — ou seja, sobre o conjunto de tudo o que existe, mas não sem antes perguntar sobre o que deve ser entendido por existência. A Filosofia é muito complexa — e, como há muitas doutrinas filosóficas, ela mais parece uma Torre de Babel.
O filósofo é um amante da sabedoria, da angústia e do desespero; gosta do abismo e da escuridão — e a sua arma é a luz da Razão, da inteligência e da reflexão. A angústia e o desespero vêm por causa da natureza da Filosofia. Uma pessoa que passou incólume pela Filosofia pode ser um excelente citador de filósofos, pode ser um grande erudito; mas, não mergulhou profundamente nos principais problemas humanos e, portanto, existenciais. O filósofo estuda muito e, quanto mais estuda, descobre que não desvelou quase nada. A diferença é que ele sabe que sabe muito pouco, por isso quer saber mais. O filósofo é também um desvelador das máscaras ideológicas e alienantes; mas, isso só é possível quando ele não está alienado na defesa de doutrinas filosóficas que defendem uma classe social em detrimento da Humanidade...
Um filósofo é uma dinamite de ideias: faz uma pergunta aqui, ali e acolá; ensaia algumas respostas, mas nunca fica satisfeito com elas. Por outro lado, os questionamentos filosóficos parecem abstratos; mas, não se enganem, quem já encontrou um grande filósofo no seu caminho será marcado por ele definitivamente — num plano bem concreto, pois a pessoa muda a sua maneira de pensar, sentir e agir.
O filósofo incomoda; é alvo de inveja, maledicências, perseguições e ciúmes. As pessoas o respeitam, de uma forma ou de outra; mas, não é incomum a desqualificação moral, mormente quando ele não está presente. O filósofo é considerado perigoso e semeador de discórdias; porque quem faz muitas perguntas abala as certezas dos donos do poder e das massas ignaras. Como a maioria das pessoas prefere ser guiada, visto ter uma "mentalidade de rebanho", o filósofo não é bem visto. Ele é respeitado, mas quase sempre isolado. Não é fácil conviver com um filósofo; e, mais difícil ainda é a convivência dele com a maioria das pessoas. A impressão que se tem é que são habitantes de planetas diferentes.
Uma das rejeições que o filósofo mais sofre é a acusação de ateísmo. Mas ele sempre pergunta: “A qual deus(es) você se refere”? Pronto! A confusão está armada! Para o filósofo é apenas mais uma pergunta; todavia, para os crentes, em geral, isto é um absurdo. E, normalmente, o que um filósofo compreende como ateísmo é completamente diferente do que supõem os crentes. Em outras palavras, eles não falam a mesma língua. Por quê? Porque o filósofo busca compreender a totalidade da cultura humana; e, neste sentido, os homens já acreditaram e acreditam em milhares de deuses. Quem tem razão? O filósofo quer saber também... Ele parece um habitante de um outro planeta, porque faz deste mundo um lugar estranho, desconhecido e inóspito... Ele sempre pensa que algo lhe escapa...
Por ser um questionador radical — no sentido de ir à raiz dos problemas —, o filósofo é tido como alguém metido a saber mais do que os outros quando, na verdade, ele não tem respostas prontas, e as respostas tornam-se novos problemas. Mais: ele quer saber até o que uma pessoa entende por "problema". No é de admirar, portanto, que ele seja considerado um "doido", um "aloprado" e outros adjetivos pejorativos. O que ele faz diante dessas acusações? Pergunta: “O que é ser doido”? “O que é ser aloprado”? “Ser normal é quem vive como gado”?
O filósofo se distancia do mundo — não tanto fisicamente, mas intelectualmente. É uma distância estratégica para melhor se aproximar! A meu ver, o filósofo deve ter um compromisso com a vida nas suas várias dimensões: a reflexão filosófica não pode ficar restrita à Academia. A práxis é a palavra de ordem. Ele deve ter paciência para trocar ideias e participar dos problemas da sociedade sempre que possível. Afinal, a capacidade de elucidar conceitos e contribuir com algumas sugestões fazem parte da reflexão filosófica. Bom, eu entendo assim...
O filósofo brinca com os conceitos como uma criança se diverte com os brinquedos; ele se parece com uma criança ao fazer tantas perguntas — o que os distingue é que a criança aceita a resposta de um adulto, inocentemente, como se fosse uma verdade peremptória (definitiva); o filósofo, por sua vez, faz perguntas, mas não há ingenuidade nelas. Há o desejo de se aprofundar, de ir além!
Um filósofo busca o óbvio incessantemente, porque sabe que o "óbvio" não é tão óbvio. O óbvio é evidente para os tolos. Para o filósofo, o óbvio não tem obviedade. O que é obviedade? Se alguém descobrir, estou muito interessado — mesmo que eu nunca tenha me considerado um filósofo, apesar de eu gostar muito de fazer umas “perguntinhas ingênuas”, mas que já implodiram e explodiram muitos dogmas em vários campos do conhecimento, das ideologias e das crenças supersticiosas. Eu não quero muito, desejo apenas um pouco de sabedoria...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 16 de outubro de 2011

O CAPITALISMO É "CAPETALISTA"!

Domingo, 16 de outubro de 2011
O CAPITALISMO É "CAPETALISTA"!
Eu sempre fui um crítico do sistema capitalista, e em todos os anos que estive (e ainda estou numa sala de aula), os alunos riam muito quando eu chamava o sistema capitalista de "capetalista" — sim, é o próprio diabo, de carne e osso, que destrói tudo: transforma objetos e pessoas em simples mercadorias descartáveis, pois os objetos não têm valor de uso, mas de troca. Ainda hoje alguns ex-alunos, ao me encontrarem, brincam a respeito do que eu dizia.
Gostaria de escrever um pouco sobre este assunto; pois sempre disse também que não se deve enfrentar o inimigo quando ele está mais forte, porque a derrota é quase certa... A meu ver, o inimigo, de tanto ganhar, já não tem tanta força. E a internet — grande ironia, instrumento para o avanço do capital globalizado —, desta feita, também serve de ponte para a voz do povo. Ela é a voz de um mundo sem fronteiras. Pois é...
Estamos vendo os jornais e demais mídias, perplexos, noticiarem as manifestações que varrem o planeta contra o sistema capitalista. O interessante é que tais protestos começaram justamente nos países mais beneficiados pela riqueza capitalista. Há protestos em vários países do Oriente Médio e da África também; entretanto, a meu ver, por motivos diferentes. Os primeiros querem a "saída" do capitalismo (tomara); os segundos desejam a entrada na "liberdade democrática" e nas promessas do Reino dos Céus na Terra feitas pela propaganda capitalista. Estão um pouco atrasados, não? Parece-me já ter ficado claro que o sistema capitalista atual é o "Reino do Inferno" para quase todas as pessoas no mundo. Ele é muito bom para uma minoria — a tal minoria que distribui desgraças pelo mundo em busca de dinheiro, onde o infinito é o limite, e ainda quer que o povo pague a conta. Tudo muito engraçado, não?!! O que está em jogo não é só o sistema capitalista, mas a sobrevivência do nosso ex-lindo planeta azul. A nossa casa — até mesmo a casa dos defensores do capital!! Se eles não têm responsabilidade...
Quando os grandes conglomerados financeiros e industriais se tornam maiores que os Estados, os acontecimentos que ora presenciamos não poderiam ser diferentes. Os profetas da propaganda capitalista, defensores de que o deus mercado regula tudo, por que agora querem que os Estados paguem a conta com o dinheiro do povo? De novo? Todas as outras crises não foram suficientes para que as marionetes do capital (os politiqueiros de plantão) aprendessem a lição? O povo produz tudo, consome menos do que deveria (muitos não têm um prato de comida), tem serviços públicos geralmente muito ruins; mas que, entretanto, se não fizer nada, pode ficar numa situação muito pior.
Nos momentos de crise o capital avança e faz o Estado mostrar a sua verdadeira face: a de que sempre foi uma extensão dos interesses capitalistas. A maioria dos políticos foi e ainda serão agentes vestidos com as máscaras do interesse público; mas, na verdade, estão a serviço do capital. Vou dizer mais uma vez: não existe capital sem o suporte ontológico do Estado. As pessoas pensam que a esfera da produção (economia) é separada da esfera pública (política), mas isto é pura ilusão. São unha e carne. São a mesma coisa. Até mesmo no chamado "socialismo científico".
Vou dizer pela milésima vez: não há salvação deste planeta no atual modo de produção, pois estas crises vieram para ficar. Elas são estruturais. Os trabalhadores do mundo inteiro correm o risco de perder os parcos direitos trabalhistas que ainda têm. Não podemos e nem devemos pagar esta conta. Os jogadores deste imenso cassino global que paguem a fatura, ora. O povo ainda vai descobrir que só ele tem a força. E não me refiro à violência — de um modo pacífico, ficando em casa sem produzir durante 15 dias... Talvez, assim, as elites reacionárias vão aprender a nos respeitar.
A tecnologia tem que estar a serviço do povo e não pode ser instrumento da exploração e do desemprego das massas. Os pobres já estão acostumados à miséria e à esperança no Paraíso; todavia, parece que aqueles que estavam acostumados à riqueza no mundo material começaram a sentir na pele o que o "Terceiro Mundo" já sente há muito.
A saída? O ideal seria o bom senso, mas nunca vi o capital abrir mão do lucro! O dilema? O capital sem fronteiras e Estados nacionais. Em última análise, será que o capital está buscando uma forma de implantar um Estado único? Afinal, quem segura o capital? Que a voz do povo seja a voz não de deus, mas do próprio povo. Infelizmente, a maioria daqueles que falam em nome de Deus são instrumentos do capital também!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 2 de outubro de 2011

FILOSOFIA DA MENTE: O MATERIALISMO ELIMINATIVO

Domingo, 2 de outubro de 2011
FILOSOFIA DA MENTE: O MATERIALISMO ELIMINATIVO
Eu sou um neófito em Filosofia, apesar de estudá-la há uns trinta anos. Gosto de vários temas filosóficos, e um deles é a Filosofia da Mente. Vou tentar desenvolver brevemente uma das muitas teorias da mente — afinal, sou apenas um "curioso no tema". Eu pretendo estudar mais sobre o assunto e, de vez em quando, colocar algum texto neste blog. Hoje vou escrever um texto bem básico sobre o “materialismo eliminativo”. Esta teoria ganhou força a partir da década de 80 com o casal Paul e Patrícia Churchland. Não conheço quase nada sobre eles.
O materialismo eliminativo dá ênfase à neurociência. Os defensores desta teoria preconizam que, à medida que a neurociência progredir, a psicologia tenderá a desaparecer do cenário de explicação dos fenômenos mentais. Por exemplo, os sonhos — tão caros às várias correntes psicológicas — serão "explicados" apenas como processos puramente bioquímicos no cérebro.
Desejos íntimos dos sonhos? Fenômenos bioquímicos; portanto, de natureza física, material, nada mais. Evidentemente que outros processos subjetivos mentais também entrarão numa era primitiva, segundo o "materialismo eliminativo". Consequência: o próprio conceito de mente sumirá como num passe de mágica.
Diante de algumas leituras e de reflexões bem preliminares sobre o assunto, eu não poderia deixar de mencionar algumas considerações que chegam a ser bem caricaturais. O que será da profissão de psicólogo? Pior: o que será dos padres e dos pastores que adoram exorcizar demônios que supostamente tomam os corpos das vítimas? Sumirão todos os capetas? Em vez de palavras de ordem aos demônios em nome de Jesus, bastarão alguns comprimidos receitados por psiquiatras?
Sinceramente, não sei se o materialismo eliminativo conseguirá descobrir, através do mapeamento e do conhecimento do cérebro, a solução de todas as disfunções biológicas cerebrais; penso que é um reducionismo muito grande; entretanto, alguns sofrimentos mentais não podem esperar anos e mais anos pelas diversas correntes psicoterápicas. Neste sentido, os medicamentos são muito bem-vindos. Aliás, grande parte das doenças mentais já são bastante amenizadas com os medicamentos disponíveis atualmente. Doenças como o Toc, por exemplo, que trazem enormes sofrimentos aos seus portadores, são tratadas com sucesso pelos psiquiatras. Mas não sei até que ponto seremos simples zumbis... Alguém está feliz? Por quê? Porque encheu a pança de comprimidos que, por sua vez, deram uma retificada no cérebro... Penso que, se assim for, sentiremos saudades daquelas angústias e crises existenciais!
Algumas perguntas que não querem se calar: por que entra a história de vida do indivíduo em tal teoria? E as relações sociais, econômicas, culturais e políticas, não contam? Apenas terapias genéticas resolverão todos os problemas "psicológicos" de um ser humano? São os pensamentos desarmônicos que causam as disfunções biológicas ou são as disfunções biológicas que causam os pensamentos desarmônicos?
A meu ver, o ser humano tem um longo caminho pela frente. De minha parte, quero ser feliz neste mundo; mas, não quero ser um robô feliz sem saber o porquê sou feliz... Por outro lado, como explicar os filósofos estoicos e o total domínio das emoções que eles desenvolviam, pois naquela época não havia antidepressivos? E os iogues indianos, por acaso, tomam fluoxetina? Pois é... A quem interessa a ideia de que não temos escolhas?
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O FENÔMENO RELIGIOSO E A ALIENAÇÃO DO MUNDO!

Sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O FENÔMENO RELIGIOSO E A ALIENAÇÃO DO MUNDO!
Estou refletindo há muito sobre o problema do fenômeno religioso e a alienação como um dilema que está relacionado ao modo de produção (economia), político (legitimidade do poder e do uso da força), cultural (saber e ideologia) e social (relações que os homens estabelecem entre si para a produção e reprodução da sua subsistência material). Vejo tantas pessoas tentando me convencer a ser uma pessoa espiritualista, como se elas tivessem recebido um download metafísico direto do Mundo das Ideias platônico. Sinceramente, a violência contra a Lógica deveria ser punida com rigor! A punição? A leitura de Karl Marx, Sartre, Nietzsche, David Hume, Feuerbach, Krishnamurti, Michel Onfray, Marcel Conche, Epicuro, Sexto Empírico, Jean Meslier, entre outros grandes filósofos lúcidos!
Além de apelarem para o plano espiritual e de inverterem a ordem do mundo, essas pessoas pensam que tais problemas são questões morais que dependem de uma mudança de mentalidade espiritual, etc. Eu não creio que as coisas mudarão dessa forma. A meu ver, o modo de produção não é apenas uma questão de economia — é uma questão ontológica. Por que ontológica? Porque é o fundamento, a base, a essência que faz o ser humano ser um ser humano, e não qualquer outra coisa. Eis o nosso dilema...
Somos o que fazemos e como fazemos. Se o homem se encontra alienado naquilo que é fundamental (o modo de produção), o que podemos esperar? Uma intervenção divina? A ajuda de espíritos ou almas evoluídas? Isto é a tal inversão do mundo que eu sempre critiquei. É uma ideologia perigosa porque transfere a felicidade para um outro plano; ou seja, o além. Eu não sei se existe o além-túmulo. O único mundo que conheço é este: o mundo material. O problema é que essa ideologia é uma maravilha para quem explora a mão de obra alheia. Por quê? Porque Jesus disse: "O meu reino não é deste mundo". Se o reino dele não era deste mundo, e o Cristianismo é uma religião que domina o Ocidente, o que podemos esperar? Felicidade para os poderosos neste mundo e promessas vazias para os pobres num outro plano, "bem longe"...
Quem vence na vida foi abençoado por Deus; quem não vence pode esperar a felicidade no Reino dos Céus!! Quem vence na vida mereceu; quem não vence pode esperar que o seu dia chegará, mesmo que o país esteja mergulhado numa profunda recessão econômica! E o que é um problema que pertence apenas e tão somente a este mundo passa para um mundo que supostamente é transcendente. Eu quero ser feliz aqui e agora. E, se houver um outro mundo, quero ser feliz lá também.
O Brasil é um país com uma profunda tradição cristã; mas, compartilhar o pão fica só no discurso. Migalhas, nada mais! Até se veem carros com adesivos: "Foi Deus quem me deu". Já não é a economia "humana, demasiada humana" (obrigado, Nietzsche) quem gera empregos e renda — mas é uma bênção divina a quem supostamente merece mais do que os outros "filhos de Deus". Fico pensando o porquê essas bênçãos não chegam à África, onde a maioria das pessoas nem está pensando em carros, mas apenas num prato de comida... Pois é!
Eu queria ter a capacidade de analisar o discurso das pessoas e acreditar. Mas eu não analiso apenas palavras — observo comportamentos. É claro que o Brasil está bem melhor hoje do que há 20 anos; mas, daí a acreditar que estamos no paraíso? Este país é um paraíso para uma minoria. Estes, sim, não têm o que reclamar. O que estou me referindo sobre o Brasil serve para a maioria da população mundial.
Gostaria de pegar um economista liberal pelas mãos e levá-lo a algum lugar no Brasil, talvez muito parecido com a Etiópia. Eles enxergam muitos números, veem seres humanos como "despesas". Mas não preciso de números para ver que este país ainda está engatinhando rumo à democracia formal e abstrata — imagine a estrada para uma democracia substancial, concreta... A miséria está por todos os lados; mas, para quem não quer enxergar, a miséria é tão invisível quanto um gari por quem passamos ao lado e não damos bom-dia. Eles são invisíveis, mesmo tendo um "corpo físico". Engraçado, acabei de me lembrar do Boris Casoy! Isto é incrível!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 7 de agosto de 2011

O QUE É A LIBERDADE?

Domingo, 7 de agosto de 2011
O QUE É A LIBERDADE?
A palavra liberdade é de uma beleza singular. Sempre que eu penso nela, lembro-me dos pássaros voando num belo céu azul; das crianças brincando na areia e fazendo algazarras com a inocência e pureza que lhes são peculiares; dos cachorros e dos animais em geral "reproduzindo" as respectivas espécies sem culpa e vergonha; enfim, lembro-me da natureza com todas as suas belezas e horrores!!
Todavia, no parágrafo acima, a maior parte dos exemplos foi tirada da observação humana a respeito da natureza. As crianças não são apenas parte da natureza — elas aprendem regras, valores e normas; por isso, são também seres culturais. Se fosse possível deixar as crianças à vontade, provavelmente cresceriam e se desenvolveriam sem culpas, remorsos e arrependimentos. Elas seriam "livres". Será? Eis o dilema humano. Encontramos no ser humano uma cisão, uma ruptura, um distanciamento da natureza. Ao criarmos uma moral, uma ética e as leis, somos "forçados" a agir de acordo com os costumes e o aparato jurídico da sociedade em que estamos inseridos. Como, então, o homem pode se referir à liberdade? O que é a liberdade?
Há tantos conceitos de liberdade quanto o número de pessoas capazes de inventá-los e reinventá-los. Não tenho a pretensão de ter a última palavra sobre o assunto; mas, vou tentar definir um conceito que me "agrada". A liberdade é a capacidade de o homem ser o senhor das situações dentro das suas possibilidades e limites. E, quando me refiro à liberdade, estou me reportando a escolhas. O conceito de liberdade, uma teoria sobre a liberdade é tão fácil... O difícil é colocá-lo em prática; pois não existe liberdade apenas num plano intelectual, porque são as atitudes, os comportamentos e as ações humanas que vão conferir significado ao conceito, e não o contrário.
Muitos filósofos se debruçaram sobre o assunto; entre eles, cito Kant e Sartre. O primeiro preconizava que pôr um limite às paixões e aos desejos humanos através da razão é ser livre, pois o homem não é apenas natureza, mas também cultura. O homem livre, portanto, é aquele capaz de se impor limites, transcender os imperativos naturais; pois a razão é patrimônio universal; logo, devemos tratar o homem sempre como um fim em si mesmo, e não como um meio. Kant dizia que devemos dizer a verdade em quaisquer situações, etc. Evidentemente Kant escreveu muito mais a respeito da liberdade no seu livro Crítica da Razão Prática. Mas não é minha intenção aprofundar neste assunto. Não vou escrever sobre o imperativo categórico kantiano. Fica o registro, neste texto, para futuras pesquisas dos interessados.
Sartre é o filósofo da liberdade por excelência. Não só por ter escrito muito sobre o assunto, mas por ter agido, segundo relatos que li, de acordo com a liberdade que preconizava. Aliás, Sartre fazia apologia de uma liberdade absoluta. Ficou famosa a sua frase: "A existência precede a essência". Para Sartre, o homem não tem a essência da liberdade! Sartre inverte os conceitos de essência e existência porque ele fica "livre" da ideia de Deus. Para o filósofo existencialista francês, primeiro o homem existe no mundo, depois se define conforme as suas ações. Sartre não separa a teoria da prática. Ao escolher (agir), o homem realiza a sua liberdade e os seus projetos. O homem não é mais do que aquilo que ele faz. Sartre foi um dos ícones do Existencialismo, corrente filosófica contemporânea de meados do século XX.
A meu ver, não é fácil ser livre. A liberdade humana carrega um "fardo de aço" de responsabilidade. Ser livre, teoricamente, é muito fácil. O difícil é realizar a liberdade em ato. Ser livre não é só a ausência de um obstáculo físico — ficar preso numa cadeia, por exemplo. Penso que a maioria das pessoas está presa, mesmo em uma suposta liberdade de "ir e vir".
Como ficar livre dos desejos mesquinhos, das crenças e superstições infundadas, do medo da morte, da culpa, do remorso e do arrependimento? Como ser livre numa época em que queremos ter o último carro do ano (não tenho carro e ando de ônibus, não sei dirigir e nem sei se vou aprender um dia), dos celulares, televisores, computadores, roupas de grife, relógios caros? Como ser livre do desejo de posse do companheiro(a)? Como ser livre dos meus próprios fantasmas psicológicos e emocionais? Como ser livre dos deuses que criamos — e esquecemos que fomos nós quem os inventamos? Como ser livre da propaganda consumista que nos escraviza a todos? Bom, eu poderia citar vários outros exemplos, inclusive os relacionados à depressão. Entretanto, este texto precisa ter um fim! Pois é...
Penso que, antes de qualquer coisa, devemos ser livres ao menos para ter a paciência de refletir sobre a liberdade; pois as pessoas procuram tantas distrações que morrem de medo de mergulhar na própria "alma". De minha parte, preciso refletir muito sobre a tal liberdade. Se eu conseguir ficar livre de muitos preconceitos, já me sentirei um vitorioso. Dentro do possível, sou livre da maioria das crenças, desejos e superstições que atemorizam a maioria dos seres humanos. Se a razão e a força de vontade não podem tudo, eu, felizmente, só posso contar com elas... Não me sinto livre para fazer tudo o que desejo, mas sou livre para não fazer tudo o que desejo! Paradoxal? O homem é um ser paradoxal por excelência, ora!!! Não temos desculpas; mas sempre as inventamos para não termos que escolher — afinal, dói tanto a angústia da liberdade, não é? Imagine a situação de Sócrates...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 2 de julho de 2011

METAFÍSICA DO INFERNO!

METAFÍSICA DO INFERNO!
A metafísica é a parte da filosofia mais abstrata, pois procura estudar as causas fundamentais, essenciais de tudo o que existe, de um ponto de vista estritamente racional. Exemplos de problemas metafísicos são a existência, a natureza e os atributos de Deus, da alma e do mundo que nos cerca. A metafísica quer ir além das aparências e, portanto, busca a essência do ser, sem recorrer às suas especificidades e particularidades. Daí a proposta metafísica ser um estudo totalmente abstrato. Mas o que tal assunto tem a ver com o inferno? Nada! Mas a "metafísica cristã" (teologia cristã) sempre deu um jeitinho de postular um ambiente bem quente, eterno e onde haveria um sofrimento indescritível: o inferno! A meu ver, uma “metafísica” irracional — violenta a lógica e o bom senso mais elementar, e aprisiona as pessoas inocentes e ingênuas, pois elas já estão no inferno em vida, porque vivem na esperança da salvação ou no pavor de um mergulho nas labaredas de fogo. Tudo isso por Deus ser amor! Eis a "lógica" cristã deitando e algemando as pessoas na cama de ferro de Procusto! Uma "lógica" que faz um quadrado virar círculo. Discordar é heresia grave...
Vamos tentar demonstrar que a crença no inferno não resiste a uma teoria do conhecimento muito simples: o empirismo. Qual é a principal tese do empirismo? Aristóteles já dizia que "nada existe na mente que não tenha passado antes pelos sentidos". John Locke e David Hume, entre outros filósofos modernos, partem da experiência sensorial para explicar o processo de aquisição do conhecimento. John Locke, inclusive, vai dizer que ao nascermos somos como uma folha em branco, uma tábula rasa. Portanto, não acreditava em ideias inatas — teoria dos filósofos racionalistas — e da possibilidade de termos conhecimentos apenas através de deduções lógicas.
Essas digressões têm uma razão de ser. Por quê? Porque partiremos da tese empirista para refutarmos a suposta existência do inferno, que aprisiona a alma de bilhões de pessoas no mundo inteiro. Uma simples reflexão pode jogar por terra essa superstição infantil; porque, se ela for verdadeira, espero encontrar muitos líderes religiosos cozinhando no fogo infernal, afinal, é isso o que eles têm feito às pessoas desde tempos imemoriais. Muitos por ignorância, inocência e estupidez; outros, por esperteza e desejo de poder material. Acreditam menos do que eu...
Para refutarmos o medo do inferno, vamos imaginar a seguinte situação: temos cinco sentidos físicos. Façamos de conta que acabamos de perder a visão; agora, perdemos o tato; logo em seguida, já não temos o olfato. Como desgraça pouca é bobagem, perdemos a audição e também o paladar. O que sobrou? O que eu sou? Um vegetal? Estamos agora na situação de uma pessoa que faleceu. Onde está a realidade? O empirismo preconiza que o conhecimento humano começa com as impressões sensoriais que temos com o mundo externo. Associamos as diversas impressões e formamos representações e conceitos das coisas e do nosso mundo interior ou psicológico.
Uma sereia, por exemplo, é a junção da impressão visual de uma "bela" mulher e o rabo de um peixe. Formamos a ideia de inferno porque já tivemos as impressões visuais do fogo, do homem, dos chifres, do rabo, do ranger de dentes, das lágrimas e do sangue. Já sofremos a queimadura do fogo e já tivemos sofrimentos neste mundo. Associamos tudo e temos a representação do capeta e do inferno. Portanto, se fôssemos cegos e não tivéssemos a sensação do tato, não saberíamos o que é o fogo e nem o que é a queimadura, logo, não poderíamos formar a ideia do inferno. A partir de ideias simples formamos as ideias complexas. O que é um anjo? Um homem ou uma criança "branco(a)", olhos azuis, cabelos claros, asas... Mas por que não um anjo negro? Anjo negro é associado com o quê? Precisa dizer? O anjo tem que ser europeu? Por quê? Porque quem dominou e ainda domina? Pois é!! A imaginação faz o resto...
Para vermos o objeto, precisamos da visão; para sentirmos o cheiro, precisamos do olfato; para ouvirmos o som, precisamos da audição; para sentirmos o sabor do alimento, precisamos do paladar; para sentirmos a textura e outras propriedades de um objeto, precisamos do tato. Este último é tão importante que, para sentirmos dores, uma queimadura ou um corte de faca, por exemplo, precisamos do sentido do tato. Se eu der um beliscão em uma pessoa com um "alicate", provavelmente, ouviremos os gritos de longe, não é mesmo?
Prossigamos... Ficou evidente, espero, que para termos experiência do mundo, precisamos dos nossos sentidos físicos. Conseguimos sobreviver sem um ou outro sentido, mas sem os cinco sentidos físicos?!! Não conheço ninguém que tenha tido essa "experiência"! Suponhamos que exista uma alma dentro do nosso corpo e, com a morte deste, ela vá para o céu, o purgatório ou para o inferno. A pergunta é: como pode uma alma sentir dor sem um corpo físico? Se o cérebro não funciona mais numa eventual morte ou na perda de todos os sentidos físicos, como pode experimentar o fogo do inferno? Na verdade, não temos experiência sem um corpo físico. O que seria uma "experiência" de uma alma? Sim, porque o "inferno" nada mais é que as diversas associações de impressões sensoriais do corpo físico e material. Experiências subjetivas e opiniões pessoais de "mestres e gurus" nunca me persuadiram... A mente humana é muito complexa e não é qualquer "explicação" subjetiva que me convencerá. Não se deve fazer apostas com o sobrenatural quando estamos engatinhando ainda nas explicações do mundo natural. O remédio? Reflexão racional e moderação na imaginação. Simples! A meu ver, só através de muitas piruetas imaginárias alguém poderia ter medo do inferno.
Alguém poderia alegar que o inferno é uma alegoria, que não é um lugar físico, mas é a consciência divina purificando a alma das pessoas. A meu ver, tal explicação é mais inteligente e até mais bonita, mas também não resiste aos fatos. Podemos perguntar: onde está o fogo da consciência divina queimando a alma de um psicopata? Desde quando os psicopatas têm consciência moral? Que eu saiba eles não sentem culpa, remorso ou arrependimento por nada que fazem de cruel.
As religiões inventaram o inferno para manter as pessoas numa infantilidade tola. Fica bem mais fácil manipular as pessoas e mantê-las na ignorância com essas historinhas da carochinha. É lamentável, mas em pleno século XXI e com todos os avanços das ciências há, ainda, bilhões de pessoas presas aos dogmas religiosos mais infantis.
De minha parte, não tenho medo dessas fábulas. São invenções das religiões organizadas. Nada mais. Troque as crenças infantis por uma boa reflexão filosófica e você ficará livre para sempre!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A CLONAGEM HUMANA!

Sexta-feira, 3 de junho de 2011
A CLONAGEM HUMANA!
Numa aula de Filosofia há muitos anos, um aluno ficou furioso comigo porque coloquei em dúvida a existência da alma. Ele esperneou, tentou argumentar; mas, fiz uma pergunta que jogou de vez o edifício ao chão. Perguntei: “E se fizessem um clone meu?” Se eu tenho uma alma, de onde sairia a alma do clone? Meia alma para cada um? E se fossem, por exemplo, uma centena de clones? A cabeça dele deve estar martelando até agora... A aula continuou e o debate acabou entrando na seara das especulações "espirituais". Excluindo a brincadeira, o tema é interessante e mexe com as "crenças inabaláveis" de muitas pessoas. Sem dúvida, tal assunto merece uma reflexão, mesmo que superficial...
Como provar a existência de uma alma humana? As provas são hipotéticas: baseadas em conceitos abstratos. A meu ver, as coisas continuam problemáticas — saímos da areia movediça e caímos no abismo. A alma é divisível como o é a matéria? O clone teria consciência das mesmas experiências vividas? Ou seria uma folha em branco, tal qual a teoria do conhecimento empirista do filósofo inglês John Locke? A aparência física poderia ser idêntica; mas, e o intelecto e a inteligência? Um raciocínio lógico é suficiente para provar tal tese? Mesmo que a provássemos logicamente, em última análise, quem determina se a teoria é verdadeira são os fatos. Sempre que a Lógica se confronta com os fatos, ela sai perdendo. Afinal, alguns fatos científicos já derrubaram mais de um castelo lógico...
A alma existe? Se existe, poderá ser dividida? Se puder e houver um mundo espiritual oposto ao material, então será a mesma pessoa com as mesmas lembranças e memórias — em outras palavras, a mesma história? Neste caso, se houver reencarnação e karma, o clone entrará de gaiato. Se não existir uma alma e se houver a clonagem das pessoas tais quais elas são e estão no momento da clonagem, então seriam dois em um: uma separação física e duas personalidades iguais. Como saber? Se é que saberemos um dia...
Se houver reencarnação e, portanto, a lei do karma, o que o clone tem a ver com as presepadas do original? Seria prejudicado inocentemente? Supostamente, as decisões espirituais sobre a reencarnação vêm do "além". Por outro lado, a decisão de fazer a clonagem é humana. Não seria uma grande injustiça? Um problema ético de proporção enorme, para dizer o mínimo... Eis o dilema! Eis o fardo pesado do ser humano: ele precisa fazer escolhas...
O problema é que, se admitirmos que a alma também é divisível, então o coitado do clone vai se dar mal também; porque, na alma estariam todos os registros do passado e as consequências, a priori, da lei da ação e da reação do karma. Eu não creio em nada disso. Penso que o clone seria uma folha em branco. Não teria a mesma história de vida do original — assim como gêmeos idênticos têm personalidades diferentes —, pois não vivem as mesmas situações e, quando vivem, podem interpretá-las de uma forma diferente.
Não parto do princípio de que exista uma alma, porque, para mim, isso não é um fato. Vou esperar os avanços das ciências que estudam a mente-cérebro. Enquanto isso, tenho perguntas e a consequente suspensão do juízo — afinal, sou um cético. Será que vou continuar a ser? Qualquer coisa, me internem; pois, se eu passar a defender piruetas místicas, alguma coisa estará errada comigo! Dizem que vou para o inferno. A alma sente o calor do fogo infernal sem um corpo físico? Duvido! Está aí uma coisa de que dificilmente alguém me convencerá...
Segundo alguns filósofos da mente, as pesquisas na área estão bem adiantadas e surpresas, de um ponto de vista material, poderão ser confirmadas. Segundo eles, em última análise, a mente é biológica. Mente e cérebro seriam a mesma coisa. Não haveria dualidade; ou seja, um dualismo psicofísico do tipo cartesiano. Vamos esperar as pesquisas avançarem. Eles não se baseiam apenas em especulações filosóficas, mas em estudos dos neurocientistas e outros profissionais do ramo. Todavia, seja qual for a verdade, os filósofos colocarão novos problemas. Que bom! De minha parte, desejo somente a verdade — nada mais.
Os filósofos ajudam muito, sem dúvida. Abrem novas clareiras com as suas perguntas. Muita água vai rolar debaixo da ponte. Esperemos. Quem sabe não acontecerá o contrário: provar-se que a mente é espiritual e sobrevive à morte do corpo físico? Acho difícil, mas...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 1 de maio de 2011

FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO!

Domingo, 1 de maio de 2011
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO!
O assunto sobre educação é interessante e fascinante, mas quase sempre partimos do pressuposto de que já sabemos o que é a educação. O que é a educação? Por que e para que precisamos de educação? Qual educação? A que liberta ou a que aprisiona? A educação existe só no espaço escolar ou ela é bem mais ampla? A minha intenção neste texto é fazer perguntas, pois há muitas coisas para serem explicitadas. Espero que alguns "especialistas" respondam algumas perguntas; pois, não é novidade que a maioria tem muitas respostas e são amantes de um belo gabinete. Sabem tudo sobre conceitos abstratos de educação... Sabem tudo sobre a educação dos filhos dos outros, mas não educam os próprios filhos. Há exceções! Ainda bem, não é?!
A meu ver, o problema é complexo e envolve o tempo, a qualificação, o dinheiro, a vocação, a persistência e muitas outras dificuldades. Por exemplo: por que os professores das décadas de 50, 60, 70 não ficavam doentes como ficam os de hoje? Conheço vários profissionais que estão deprimidos, ansiosos, angustiados, medrosos e apáticos. Por que muitos professores faltam ao serviço e arrumam tantos atestados médicos? Por que tantos professores tomam remédios controlados — tarjas pretas — para poderem trabalhar? Por que vários professores têm receio de chamar a atenção de um aluno? Por que inúmeros professores já foram agredidos física e moralmente? Por que vários alunos não respeitam os professores? Por que tantos alunos vão para as escolas drogados? Por que muitos vão para as escolas alcoolizados? Por que muitos alunos querem ouvir MP3 dentro das salas de aula? Por que inúmeros alunos querem atender e fazer ligações em celulares dentro das salas? Por que os alunos, em vez de estudarem, começam a namorar e transar tão cedo? Por que tantos jovens estão morrendo antes de completarem os 25 anos? Por que os jovens das escolas particulares estudam o conteúdo das disciplinas e as escolas públicas dão ênfase em outros métodos, que supostamente são melhores — mas quem passa nos vestibulares das melhores universidades federais são justamente os conteudistas? Por que não comparar todos os recursos das escolas particulares com o sucateamento das escolas públicas? Por que a educação básica — valores morais e éticos — não começa na família? Por que os pais não colocam limites nos filhos? Por que os pais não têm tempo para ajudar na educação dos filhos? Por que os pais jogaram a responsabilidade para os professores? Por que os governos jogam a culpa do fracasso escolar nos professores? Por que um profissional que forma todos os outros profissionais ganha tão mal e os nossos políticos, a maioria parasitas, ganham tão bem? Por que os nossos sindicatos nunca propuseram uma greve em dezembro, mas preferem cometer os mesmos erros durante todos os anos? Por que a imprensa não diz quem são os verdadeiros culpados; ou seja, o sistema capitalista vigente que divide as pessoas em pobres e ricos, mas quem produz de fato não tem acesso à riqueza? Por que os filhos dos ricos recebem uma educação para mandar e os filhos dos pobres para obedecer?
As perguntas acima precisam de respostas. Os "especialistas em educação" se habilitam? Educação pública, principalmente; porque as escolas particulares de ensino fundamental e médio estão relativamente bem. Pagam caro, não é? A coisa pública no Brasil não é de todos. É de alguns. E as migalhas que sobram para os mais pobres, infelizmente, eles não as reconhecem como bem comum. Passa a ser de ninguém; pois o que é público, na visão deles, não precisa ser preservado e nem melhorado. Contentam-se com o pior e ainda agradecem! É da vontade de Deus! Se não é de ninguém, como ter compromisso? Cidadania aqui é palavrão. Alguns municípios fecham até escolas!! Isto é incrível!!
Por que os Estados têm dinheiro para salvar bancos e usam sempre o pretexto que não há dinheiro para políticas públicas? Por que a educação estimula a concorrência e a disputa, em vez de estimular a cooperação e a solidariedade? Por que as escolas continuam reproduzindo os valores capitalistas? Por que uma educação acrítica, sem compromisso com a reflexão e o questionamento? Por que a alienação tomou conta, inclusive, da maioria dos professores? Por que tantos professores olham com desdém para a área de Humanas? São robôs também? Por que tantos levam a igreja para dentro das escolas? O "além" vai resolver os problemas humanos?
Perguntinhas chatas e incômodas, não é? Que coisa mais triste... Como todas essas questões que coloquei não têm nada a ver com a economia, com a política e o social? Evidentemente que têm. Não podemos formar alunos para continuar produzir mercadorias na escala que ora vemos.
O planeta não suportará este modo de produção por muito tempo. É a própria espécie humana que será extinta. Não posso deixar de ver isso como um problema econômico, político e social se a educação está contida no sistema. Como não perceber que os jovens de hoje em dia não sejam capazes de cristalizar alguns valores; pois, quando pensam em alguns valores, os mesmos já mudaram, porque o ritmo da produção capitalista faz com que tudo se torne obsoleto da noite para o dia? Como não ser mais um objeto neste sistema? Tudo vira mercadoria, inclusive o ser humano, ora! São desejos infinitos de felicidade e prazer; contudo, acaba-se de comprar um objeto de desejo e aparecem outros, numa escala sem fim. Tudo vira bosta, como disse a cantora Rita Lee. O sistema contém a educação; muito sofrimento ainda vai acontecer.
Como perguntar não ofende, então vou fazer mais umas perguntinhas básicas! Não será essa uma das razões do envolvimento com as drogas, tão cedo, por parte dos jovens? A realidade fica tão dura que é preciso inventar um outro mundo cor-de-rosa — infelizmente, é isso o que acontece com muitos. Mais: que professor consegue competir com os valores do nossos meios de comunicação, as propagandas, a imprensa e as novelas? Duro demais, não?! É a alienação total!
Para concluir, quero deixar uma sugestão aos nossos jovens. Vocês são vítimas desta situação. São preparados para a guerra, para morrerem ou sobreviverem neste sistema cão. Apesar de discordar — porque ao ver a floresta pegar fogo, penso que é necessário ajudar a apagá-lo com água, e não com querosene ou álcool —, é preciso prosseguir na luta por um mundo melhor; ser o mais humano e ético possível. Quem sabe? Pois é...
Aqui vão algumas ponderações para os que "querem vencer na vida". Quem disse que estudar é prazeroso? Estudar é algo árduo. Envolve sacrifícios. É preciso escolher entre "namorar" os livros e cadernos ou encontrar os amigos e ir ao cinema, talvez um barzinho, etc. É preciso ler, escrever e perder noites de sono. É necessário abrir mão dos prazeres imediatos para crescer em todas as dimensões humanas. Quem não deseja isso pode ser chamado de estudante? Quem não é capaz de tolerar frustrações em prol de um objetivo nobre pode ser chamado de aluno? Quem só quer se divertir e, por isso, foge de um livro como o “capeta foge da cruz” passará nas melhores universidades? Será que não serão analfabetos com diplomas, pois passarão nos vestibulares de faculdades que são verdadeiros tamboretes?
Jovem, coloque na cabeça que um mundo sem reflexão é muito pior. Ninguém é melhor do que os outros por usar roupas de grife, ter bens materiais e ser famoso. Somos melhores pelo nosso caráter e dignidade e pelo exemplo das nossas atitudes. De que adianta ter uma embalagem bonita e ser oco por dentro? Ter um corpo "malhado" e o cérebro atrofiado? Ganhar muito dinheiro e ser um "cidadão" alienado? Resolver os seus problemas e ser vítima dos menos favorecidos? Pense nisso! A escolha é sua! Boa sorte!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO