Quarta-feira, 29 de abril de 2015
RENASCIMENTO
Quando menos esperamos, eis a dona Morte, com a sua foice, a nos tocar o ombro e a nos chamar... No meu caso, em particular, ela não tocou no coração: arrombou-o e fez um grande estrago, "matando" boa parte desta bomba que distribui sangue e oxigênio por todo o organismo. Eis um verdadeiro encontro com a morte: um infarto agudo do miocárdio grave — muito grave...
As pessoas geralmente "vivem" e dificilmente pensam sobre a morte. Refletir sobre a dita-cuja, então, nem se fala...
Vivemos a nossa rotina diária quase que como robôs programados. Até que um dia... Zás! Eis a vida escapando: um acidente, uma batida de carro, uma queda, um AVC, um infarto, entre outras possibilidades, e pode ser o fim da dádiva da natureza: a vida, a loteria pouco provável do nascimento de um ser em geral e a do ser humano em particular...
Ninguém está livre das contingências e do acaso. Quando os fatos acontecem, há opiniões, explicações e crenças para todos os gostos. É a velha tentativa dos seres humanos de dar um "sentido", um "significado" à existência. Sempre foi assim, sempre será assim...
Infelizmente, quando as situações supracitadas acontecem conosco, a ficha custa a cair. Temos a mania de pensar que as coisas ruins só acontecem com os outros.
Um filme passou pela minha mente quando saiu o diagnóstico: "você teve um infarto". Uma sentença de morte? No meu caso, felizmente para a minha família, amigos e cadelinhas, foi um susto muito grande... Para mim, ficou a certeza de que aconteceria um dia, talvez por isso eu tenha a mania de me despedir das pessoas. Vá saber o porquê de comportamento tão estranho a um cético. Foram 42 dias internado (pareceu-me uma eternidade).
Os dias que passei no hospital foram de grande aprendizado para mim. Lá, tive a companhia até de uma psicóloga. Gostava de "filosofar" com ela sobre a vida e a morte: complementos necessários à própria renovação da vida.
— Um dia ela me perguntou como eu lidaria com os meus fantasmas.
No aconchego de um hospital, do nível em que fiquei, não havia assombrações e fantasmas, pois me sentia seguro. Respondi que só saberia lidar, ou não, com os meus receios e medos depois que ganhasse alta. A alta tornou-se a minha liberdade — e a minha prisão.
Para quem carrega um pedaço da morte dentro do peito (necrose de boa parte do coração) —, vou tentar encarar os meus fantasmas de frente, mesmo sabendo que jamais serei o mesmo, nem do ponto de vista físico nem psicológico. Muitas coisas morreram dentro de mim, e pouquíssimas renasceram. Todavia, o que nunca morreu foi o imenso carinho pela família, alguns amigos, amigas e as minhas cadelinhas...
Ainda não foi desta vez, senhora Morte! Pode ficar longe de mim por mais algumas décadas...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO