Sexta-Feira, 23 de outubro de 2009
O SÁBIO
Todas as vezes que leio ou escrevo esta palavra (sábio), Eu me lembro do personagem do Autodidata, do livro A Náusea, de Jean-Paul Sartre: lia todos os livros da biblioteca em ordem alfabética, mas era considerado um tolo. O ideal é reunir todas as qualidades em uma pessoa só. Infelizmente, a palavra ideal nos dá um recado direto: ideal, aquilo que só existe na imaginação, que é perfeito no plano das ideias.
A erudição quase sempre está relacionada à teoria — uma espécie de "enciclopédia humana". Uma pessoa sábia, a meu ver, é aquela que nem sempre é erudita, entretanto é capaz de contemplar o real como se fosse uma floresta, de uma perspectiva ampla. Sabe fazer perguntas complexas e profundas, usando conceitos e definições simples. Não é necessariamente humilde, nem é arrogante, apesar de muitos a considerarem assim. Não necessita de aprovação nem deseja aplausos. Tem convicção e não se deixa persuadir facilmente, contudo muitos o consideram teimoso. Assume a responsabilidade pelos seus atos, tendo, portanto, autonomia. Autônomo é o sujeito que dá a si mesmo a lei; é comandado de dentro e por isso é uma pessoa livre. Enfrenta os desafios que aparecem e mata a esperança (quem espera nunca alcança) todos os dias, contudo sabe qual é o melhor momento para agir. Essa espera, entretanto, é relativa; pois, se ela não acontece, ele a faz acontecer quando tal atitude depende mais dele que dos outros.
O sábio compreende que o nascimento de um ser humano é puro acaso porque, entre no mínimo 300.000.000 de espermatozoides, chegou primeiro. Assim, percebe o quão é importante ter nascido e por isso faz a diferença onde quer que esteja. Uma pessoa sábia tem defeitos como qualquer ser humano, afinal não é um deus nem conta com ajuda sobrenatural; contenta-se com a natureza e com a finitude aparente da vida.
O sábio observa com perspicácia o cotidiano e tira lições da vida como poucos. Ele sabe que os que o julgam fazem-no a partir dos próprios valores, por isso são suspeitos; nesse sentido, não se abala com as críticas. Para ele, "o tempo é o senhor da razão". O sábio sabe que são os nossos atos que dizem o que somos, e não as nossas palavras, por mais belas que sejam. Conhece a pessoa olhando-as nos olhos; ele passa a impressão de que faz uma "radiografia da alma". Um sábio desperta a inveja dos medíocres e dos amantes do poder, porém conhece o inimigo como poucos. O sábio conhece "o pulo do gato", mas quase sempre é vítima das "serpentes".
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO