Quando menos esperamos eis a "dona morte" com a sua "foice" a nos tocar o ombro e a nos chamar...No meu caso, em particular, ela não tocou no coração: arrombou-o e fez um grande estrago, "matando" boa parte desta bomba que distribui sangue e oxigênio por todo o organismo. Eis um verdadeiro encontro com a morte: um infarto agudo do miocárdio grave, muito grave...
As pessoas geralmente "vivem"e dificilmente pensam sobre a morte. Refletir sobre a dita cuja, então, nem se fala...
Vivemos a nossa rotina diária quase que como robôs programados. Até que um dia...Zás! Eis a "vida" escapando: um acidente, uma batida de carro, uma queda, um AVC, um infarto, entre outras possibilidades, e pode ser o fim da dádiva da natureza: a vida, a loteria pouco provável do nascimento de um ser em geral e a do ser humano em particular...
Ninguém está "livre" das contingências e do acaso. Quando os fatos acontecem há opiniões, explicações e crenças para todos os gostos. É a velha tentativa dos seres humanos de dar um "sentido, um "significado" à existência. Sempre foi assim, sempre será assim...
Infelizmente, quando as situações supracitadas acontecem conosco, a "ficha" custa a cair. Temos a mania de pensar que as coisas ruins só acontecem com os outros.
Um filme passou pela minha mente quando saiu o diagnóstico: "você teve um infarto". Uma sentença de morte? No meu caso, felizmente para a minha família, amigos e cadelinhas, foi um susto muito grande...Para mim, ficou a "certeza"de que aconteceria um dia, talvez por isso eu tenha a mania de me despedir das pessoas. Vá saber o porquê de comportamento tão estranho a um "cético. Foram 42 dias internado (pareceu-me uma eternidade).Os dias que passei no hospital foram de grande aprendizado para mim. Lá, tive a companhia até de uma psicóloga. Gostava de "filosofar" com ela sobre a vida e a morte: complementos necessários à própria renovação da vida. "Um dia ela me perguntou como eu lidaria com os meus fantasmas." No aconchego de um hospital, do nível em que fiquei, não havia assombrações e fantasmas, pois me sentia seguro. Respondi que só saberia lidar, ou não, com os meus receios e medos depois que ganhasse alta. A alta tornou-se a minha "liberdade" e a minha "prisão".
Para quem carrega um pedaço da morte dentro do peito ( necrose de boa parte do coração), vou tentar encarar os meus fantasmas de frente, mesmo sabendo que jamais serei o mesmo, nem do ponto de vista físico nem psicológico. Muitas coisas morreram dentro de mim, e pouquíssimas renasceram. Todavia, o que nunca morreu foi o imenso carinho pela família, alguns amigos, amigas e as minhas cadelinhas...
Ainda não foi desta vez, senhora Morte!! Pode ficar longe de mim por mais algumas décadas...
TEXTO: Marco Aurélio Machado