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MAPA DOS VISITANTES DESDE O DIA 29/11/2009

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO!

No cotidiano,  nos deparamos com os mais variados conceitos e palavras. Reproduzimos-os como senso comum e,  por isso,  não paramos para refletir sobre a importância de lançarmos luz naquela que possibilita ao homem ser quem ele é de direito e de fato: a linguagem. Em vários outros textos que escrevi,  no meu blog, sempre refiro-me a respeito da importância do pensamento, da palavra e do conceito como condição de percepção e compreensão da realidade nas suas várias dimensões. E, portanto,  neste texto gostaria de tentar fazer uma conexão, uma ponte entre a linguagem e o ser humano, afinal é impossível darmos sentido e significado à vida e ao mundo,  sem a mediação dos pensamentos e das palavras como representações do universo humano.


Todavia, como já dissera em outros textos, o ser humano não existe como algo abstrato e, assim, pudéssemos nos livrar,  como num passe de mágica,  da sua situação concreta, existencial  e tendo como fardo um corpo,  que não apenas ocupa um lugar no espaço como os outros objetos,  mas percebe tal espaço, convive com outros e estabelece relações sociais de produção e reprodução da sua vida material e tem consciência da sua dimensão temporal. Isto significa que o homem coexiste consigo mesmo e com os seus semelhantes de uma forma contingente no espaço-tempo. É impossível conceber um sem o outro, pois estão intricados, relacionados e, com isto, estabelecemos uma relação de causa e efeito com o mundo.


Evidentemente, que tudo o que foi supracitado,  é belo,  e faz do ser humano, apesar da sua insignificância diante do Universo, um ser único e de uma certa forma especial. Contudo, paradoxalmente, o ser humano como ser belo e especial, também é um dos maiores abortos já gerados casualmente, aleatoriamente, pela "mãe" natureza. Em outras palavras, um ser capaz de construir e destruir com a mesma eficácia, eficiência, capacidade e "competência".


O pensamento, a palavra, o conceito como representações do mundo, da realidade fazem do ser humano a única espécie que vive no tempo e, com isto, relembra o passado, tem consciência do presente e projeta o futuro,  antecipando-o pela imaginação. O ser humano "controla" e manipula o seu meio ambiente da forma que lhe convier e quiser.


Todavia, um dos piores defeito humano,  é a arte de enganar o seu semelhante; mentir ou faltar com a verdade. O filósofo alemão, Kant, já dissera algo muito profundo sobre a importância da verdade e de como o homem deveria ser tratado como um fim em si mesmo e não um meio. Evidentemente, que a mentira é uma das formas de se usar uma pessoa como meio, portanto, a serviço dos interesses pessoais, e quem é usado fica carente da sua humanidade.


E, o que mais me entristece,  é o ser humano com toda essa capacidade, fazer um mau uso da palavra, palavra esta que o coloca numa posição de destaque na natureza e na cultura, mas ao mesmo tempo é a mesma que o que o faz rastejar na lama e ser pior dos que os vermes. Os vermes não têm culpa de ser vermes, mas o homem tem culpa de ser pior do que as víboras. Não sou religioso nem sei se existiu,  de fato,  um homem na História com o nome de Jesus, contudo, o mais importante foi a frase que a tradição lhe atribui: " O HOMEM É UMA RAÇA DE VÍBORAS". E digo mais: o ser humano é pior do que as víboras, pois estas não podem escolher, o homem, se não for vítima de nenhuma doença mental grave, pode fazer belas escolhas e assim contribuir para colocar a luz da razão e da ética a serviço da humanidade, usando, sempre que possível,  a VERDADE.


TEXTO:  Marco Aurélio Machado

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Frases para REFLEXÃO!


A palavra do ser humano deveria valer mais do que a sua assinatura e o número dos documentos.


Ser livre não é apenas o poder de ir e vir, mas agir e assumir o fardo da responsabilidade.


Uma cela de cadeia pode prender o corpo físico, mas não a liberdade de quem não teme as crendices tolas e infantis, afinal, há muitos "presos" que são mais livres que aqueles que não saem dos templos...


Buscar a permanência na impermanência é não saber a distinção entre a lógica formal aristotélica e o dinamismo da realidade e o movimento dos pensamentos.


"Existir" é fácil,  perguntar radicalmente o porquê da existência neste mundo é que é difícil...


Há pessoas que são idosas em idade e ainda são crianças na reflexão.


O ser humano que não mergulhar nas trevas, jamais verá um pequeno facho de luz, mesmo estando dentro de um shopping center...


Nunca pergunte a uma criança se ela é feliz, pois a alegria contagiante é a própria essência dela!


Há pessoas que se consideram tão maduras que já ficaram podres e ainda não se deram conta...


Se alguém quiser ser proprietária de um ser humano, mesmo num sentido "amoroso", estará dando o primeiro passo para ser escrava de si mesma.


Um discurso bonito pode iludir e encantar, todavia, é a correspondência entre o que se diz e o que se faz,  a responsável pela credibilidade e o respeito entre os homens.



TEXTO:  Marco Aurélio Machado




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

REFLEXÃO SOBRE A PAIXÃO!

O ser humano é movido por vários sentimentos e emoções,  mas gostaria de destacar neste texto uma das maiores emoções que o homem lida: a paixão. Eis uma emoção, um sentimento capaz de trazer consequências agradáveis, todavia,  na maioria das vezes, resultados e efeitos nefastos...


Mas o que é a paixão? Não vamos,  neste espaço,  conceituar a paixão de um ponto de vista biológico, fisiológico e muito menos vamos fazer uma pesquisa sobre a etimologia da palavra. Neste texto vamos definir a paixão "filosoficamente". A paixão é o surto da razão; é a insanidade temporária do bom senso; é a incapacidade de julgar com lucidez uma situação; é a paralisia da tranquilidade e o avanço do instinto e do estado de natureza no ser humano.


A paixão é a ausência absoluta do distanciamento, da reflexão para mensurar, avaliar, ponderar, meditar sobre um curto-circuito de sentimentos e emoções no interior do homem. Ela é o ato descontrolado de uma alma que tornou-se escrava da situação e não a sua senhora.


A História mostra a força da paixões em muitas circunstâncias e basta aos interessados tal busca ou consulta. Neste texto, gostaria de fazer referência às paixões amorosas. Quem nunca sentiu uma paixão violenta, avassaladora e que consome as nossas noites com insônias? ( mesmo que a pessoa durma um pouco, é muito comum ela sonhar com o "objeto" do desejo intenso e irracional); quem jamais perdeu a fome ou fez algumas loucuras por causa de uma força tão grande, que invade o ser do apaixonado de tal forma, que ele perde a noção do tempo e do espaço? Quem não teve a oportunidade de ler, ouvir ou assistir aos crimes mais violentos, frutos de uma raiva ou ódio que encarna a "alma" de uma pessoa de tal maneira, que a impressão que se tem é que o indivíduo foi "vítima" de uma possessão e obsessão demoníacas?


As paixões existem nos mais variados níveis, sejam nos esportes, na política, na religião, nas diversas formas culturais, mas a paixão amorosa é a alegria e a desgraça humana. Alegria,  por sermos capazes de transmitir o brilho dos olhos, de caguejar e tremer diante do ser "amado". E desgraça,  porque as tragédias são muito mais frequentes, quando não somos correspondidos, e mesmo quando há reciprocidade, numa grande paixão não há lugar para a reflexão fria e racional, caso contrário, não seríamos mais vítimas desta avalanche de sentimentos, de devaneios imaginários e do instinto bruto habitar em nós. Dizem que os filósofos estóicos lidavam muito bem com as paixões da alma e que tinham domínio sobre elas, contudo, ao menos na época contemporânea, a capacidade de tolerar frustrações está cada vez mais frágil...


Que a luz da Filosofia possa nos ajudar a lidar com a paixão de uma forma mais equilibrada. Se não conseguirmos controlá-la definitivamente, que ao menos possamos diminuir os seus efeitos nefastos e deletérios. Se não pudermos ser os senhores deste furacão chamado "paixão", que a reflexão possa nos mostrar que no caminho há muitos precipícios e escuridão, e, que,  por incrível que possa parecer, a percepção destas dificuldades já é o primeiro passo para voltarmos a ver a luz que liberta. E esta luz tem nome: ponto de interrogação!



TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

QUEM SOU EU?

QUEM SOU EU?


Quem sou eu? Sou a lucidez e a mais profunda escuridão. Sou forte e sou fraco. As minhas palavras cortam a alma e também cicatrizam as feridas de quem merece. Sou o elogio mais sincero e a crítica mais mordaz. Sou anjo e demônio e ao mesmo tempo sou o equilíbrio entre os dois. Sou a mão que acaricia e o abraço mais sincero, mas também sou o desprezo mais cruel e o silêncio mais barulhento.
SOU apenas humano, ora!


Quem sou EU? Sou uma bomba atômica ambulante. Sou uma criatura ácida e doce; sou amargo, azedo e ao mesmo tempo afetuoso e carinhoso. Sou o mau-humor e concomitantemente o bom humor elevado ao quadrado. Sou a franqueza mais direta e sou o rancor diante das injustiças. Sou a coerência na incoerência e sou a incoerência na coerência. Sou um poço de virtudes e vícios.


SOU APENAS HUMANO, ORA!


Quem sou eu? Sou o canto dos pássaros e o estrondo da bomba atômica; sou a felicidade da vitória e a tristeza da derrota; sou o diamante bruto e o vidro lapidado; sou o sorriso da criança e o choro do adulto; sou a beleza do pôr do sol e o horror do terremoto; sou a calma do lago e a violência de um tsunami; sou a harmonia da alma e a contradição dos instintos; sou a paciência do monge e a violência do vulcão; sou a calma aparente e a pressa essencial; sou a arrogância do humilde calado e a humildade do tagarela que diz o que pensa; sou o desejo mais intenso e a apatia de um cético.


SOU APENAS HUMANO, ORA!


Quem sou eu? Sou a ignorância do sábio e a sabedoria do estúpido; sou o que busca sem saber o que busca e sou a o que encontra o que não busca; sou a dor do parto e o alívio do nascimento; sou a dor da morte e o pranto da vida; sou o olhar de uma criança e a carranca do carrasco; sou o ciúme, a inveja, o rancor e o ódio, mas também sou a compreensão, o altruísmo e o amor. Sou a contradição do movimento e a morte da estabilidade; sou o passado da culpa e a ansiedade do futuro.


SOU APENAS HUMANO, ORA!


Quem sou eu? Sou a vagareza da tartaruga e a velocidade do guepardo; sou a astúcia da raposa e a inocência do coelho; sou o desejo da vida e a vontade da morte; sou a saciedade e a fome; sou a loteria da natureza e o acaso da consciência; sou fruto do amor e da animalidade do sexo. Sou um buscador da essência da ignorância, pois a essência da ignorância é o ponto de interrogação! Eu sou o filósofo e o imbecil...



Texto: Marco Aurélio Machadowww.marcoaureliofilosofia.blogspot.com

domingo, 9 de setembro de 2012

DIÁLOGO POLÍTICO - O FILÓSOFO E O CANDIDATO A CIDADÃO!

CANDIDATO A CIDADÃO: _ Senhor filósofo, eu sempre quis conversar com um sábio e ouvi dizer que um filósofo poderia me ensinar como votar nestas eleições sem o risco de ser enganado. O senhor poderia me ajudar?

FILÓSOFO:_ Bem, nós poderíamos conversar um pouco sobre o assunto. Em primeiro lugar, um filósofo não é um sábio, mas é um amante da sabedoria. Ele busca a sabedoria, assim como uma pessoa que está morrendo sufocada busca o ar. Em segundo lugar, você estaria disposto a votar em quem eu lhe indicasse?


CANDIDATO A CIDADÃO:_ Acho que sim. Por que não deveria?, afinal, sendo um filósofo, com certeza, o senhor poderia me dizer o nome de dois bons candidatos: um para o Legislativo e o outro para o Executivo.

FILÓSOFO: _ Mas o que é ser um bom candidato?

CANDIDATO A CIDADÃO: _ Ora, senhor filósofo, não é possível que não saiba o que é uma coisa boa e muito menos que não tenha noção do que é ser um bom candidato...Em vez de me ajudar, o senhor só sabe fazer perguntas?! Não me leve a mal, mas acho que perdi o meu tempo.

FIlÓSOFO:_ O que é ajuda? O que é uma pergunta? O que é o tempo? Você pode me dizer?

CANDIDATO A CIDADÃO:_ Ó!! O senhor filósofo é louco, o senhor é completamente aloprado!

FILÓSOFO:_ Mas você poderia me dizer o que é a loucura?

CANDIDATO A CIDADÃO:_Eu já estou perdendo a paciência com o senhor, mas vou responder essa perguntinha imbecil e vou embora daqui, antes que eu fique doido também. Esta é fácil, ora! Loucura é o nome que se dá às pessoas que perderam a noção das coisas, que não sabem distinguir o estado de consciência, da inconsciência, é uma pessoa que não pode ser responsável pelos seus atos. Enfim, alguém que se encontra num estado mental precário e alienado. Gostou ou quer mais? O senhor está pensando que eu sou bobo? Agora, posso ir? Pra mim chega...

FILÓSOFO:_Você é livre para ir e vir...E um filósofo não vai tirar todas as suas dúvidas. Pelo contrário, ele pode até gerar mais algumas. Quer mesmo ir embora ou podemos continuar o nosso diálogo? Podemos tentar encontrar as respostas sobre este assunto juntos...

CANDIDATO A CIDADÃO:_Senhor filósofo, tenha misericórdia, eu só queria saber como escolher um candidato para o Legislativo e um para o Executivo. Mais nada. A minha cabeça já está doendo por causa das suas perguntas sem fim. Por favor, diga logo como eu devo fazer.

FILÓSOFO:_Lembra-se quando eu o perguntei sobre o tempo? Evidentemente, que fazer uma reflexão sobre o tempo é bastante difícil, mas na rica História da Filosofia alguns filósofos já se debruçaram sobre esse tema fascinante e se for do seu interesse, procure numa boa biblioteca ou na internet que, com certeza, você achará. Mas voltando ao nosso assunto: a ideia de tempo nos remete à História. No caso, a História de um partido político, em geral, e a de um indivíduo que coloca o seu nome à disposição de um partido para ser candidato, em particular. Penso que não sabemos como será o futuro, e a lógica nos assuntos sobre o comportamento humano não nos autoriza a dizer que o passado será igual ao presente e muito menos ao futuro. Todavia, no que se refere à ética e à política, talvez o passado de um partido ou de um indivíduo possa nos dar alguma pista. O que você acha?

CANDIDATO A CIDADÃO:_Mais uma pergunta! Eu quero é ter certeza, pois a dúvida é um verdadeiro pesadelo para mim. Eu acho que vou anular o meu voto. Todo político é desonesto mesmo! Talvez, quem sabe, vender o meu voto... São todos iguais! E eu ainda ganharia um dinheiro extra. O que tem o passado que ver com a política? A maioria absoluta dos políticos é corrupta. Uma vez corrupto sempre corrupto. Além do mais, não está escrito na testa de ninguém a palavra "honestidade". E mesmo que a pessoa seja honesta, quando chega "lá" tem que entrar no esquema, caso contrário, não faz nada. Eu vou é vender o meu voto mesmo e pronto.

FILÓSOFO:_Calma! Vamos analisar a situação mais de perto. De um ponto de vista lógico, não podemos dizer que o passado necessariamente repetir-se-á no futuro. Aqui caímos numa situação complexa, pois desse prisma, mesmo que um político tenha sido desonesto, não podemos concluir que ele o será no futuro. O mesmo argumento serve para o político honesto, pois o fato de ele ter sido honesto no passado, não legitima a inferência que ele o será no futuro, certo?

CANDIDATO A CIDADÃO:_Onde eu estava com a cabeça quando resolvi procurá-lo? Agora as coisas pioraram de vez. Pode explicar melhor?

FILÓSOFO:_Claro. Se logicamente é possível, tanto um político desonesto, ficar honesto e vice-versa, então o silogismo dedutivo não serve para resolver o problema, pois os fatos podem nos contradizer, ou seja, um único político desonesto, ficar honesto , ou um único político honesto, ficar desonesto. Basta isso, para que o nosso silogismo seja falso.

CANDIDATO A CIDADÃO:_Que confusão! Mas estou começando a gostar disso. Continue, por favor!

FILÓSOFO:_Não temos garantias em nada que é humano. Ser humano é estar aberto para as escolhas. Nós escolhemos dentro dos limites humanos. O ser humano não é como o animal, que já nasce "sabendo" das coisas, instintivamente. Ele é um ser social e cultural. Ele tem que se autoconstruir o tempo todo. Fica claro que a política é uma dimensão muito importante da vida em sociedade. Se todos nós fôssemos programados pela leis naturais apenas, não precisaríamos da política. E se todos fôssemos éticos, não precisaríamos de leis, logo, o Estado não seria necessário. Concorda?

CANDIDATO A CIDADÃO:_Estou tentando acompanhar o seu raciocínio, mas confesso que ainda está muito teórico e eu estou começando a acreditar que os que dizem ser a Filosofia muita abstrata não deixam de ter razão. Para que tanto lenga-lenga para responder uma simples pergunta? Tudo me parece tão óbvio...

FILÓSOFO:_O óbvio só é óbvio para os tolos. Se as pessoas tivessem o hábito de fazer reflexões sobre a vida, o mundo, a natureza e a cultura, talvez o mundo humano fosse bem mais rico e feliz. E a política, volto a dizer, é uma dimensão essencial para que possamos viver em sociedade. Ao menos nos próximos séculos, isto é, se os homens não abrirem mão da política e partir para a selvageria de uma guerra atômica...

CANDIDATO A CIDADÃO:_Deus nos livre e guarda, senhor filósofo! Vire essa boca para lá! Credo! O senhor ainda vai demorar muito, hein?!

FILÓSOFO:_Deus? Bom, se ele existe, parece que não interfere no mundo, por outro lado, se não existe, nunca saberemos. Então, até que se prove o contrário, só podemos contar com a capacidade humana de resolver os seus problemas. É por isso que a política é laica, leiga e os seres sobrenaturais devem ser assunto para as religiões, mas na esfera da vida privada. A política é da ordem do público, profano, mundano...

CANDIDATO A CIDADÃO:_O senhor não deveria blasfemar! O senhor não teme a palavra de Deus? Deus castiga, viu?

FILÓSOFO:_Por quê? Porque estamos buscando a verdade? Se Deus castiga, ele terá muito trabalho para condenar tantos religiosos e políticos que ganham dinheiro explorando pessoas humildes com falsas promessas. Sem contar as guerras santas feitas em nome do amor divino, certo? Não se preocupe com isso agora. Precisamos saber algumas regras para escolher os nossos representantes.

CANDIDATO A CIDADÃO:_Tudo bem...Termina hoje ainda? Queria assistir à novela das 9h.


FILÓSOFO:_Sim, não vamos demorar. Não há como prever o comportamento humano. Como vimos, o passado não determina necessariamente os nossos atos no futuro, e quando se trata do poder político, então, a situação é imprevisível. Todavia, não temos muitas escolhas. Numa "democracia" temos direitos e deveres. Se, como você disse antes, não está escrito na testa de uma pessoa ou político, a palavra "honestidade", logo só podemos contar com os atos do passado do político. Não há outra alternativa. É importante saber a vida pregressa do candidato (a). Ter um passado "limpo", tanto do ponto de vista ético, quanto do ponto de vista jurídico. Como tal candidato(a) aborda o cidadão para pedir votos. A meu ver, um "bom candidato diz exatamente quais são as funções do cargo que ele deseja ser eleito. Por exemplo, o candidato a vereador (Legislativo) não é candidato ao Executivo. Como pode , então, fazer promessas que são da alçada do prefeito? Um vereador não faz obras e nem tem a obrigação de fazer "serviço social". Um vereador deve legislar ( fazer leis); fiscalizar os atos do prefeito ( Executivo); denunciar possíveis irregularidades na administração pública; fazer emendas ao orçamento municipal, ou seja, pode tentar negociar uma verba para fazer obras em uma determinada região, por exemplo; e pode ainda fazer parte da oposição ou participar da base de apoio do prefeito, e ser um canal de comunicação entre o prefeito e o povo. É pouco? Pelo contrário, é muita coisa.

CANDIDATO A CIDADÃO:_O que o senhor disse é muito importante, sem dúvida, mas ainda não disse como identificar um bom candidato...

FILÓSOFO:_Eu já disse sobre o passado do candidato. É muito importante procurar se informar a esse respeito. Contudo, há informações que não podem faltar. Por exemplo: o candidato solicita o seu título de eleitor para anotar? Se faz isso, então é bom desconfiar. Isto é ilegal e também uma tentativa de controlar o voto do eleitor. Um "bom" candidato não faz promessas absurdas e levianas, não doa cestas básicas, dentaduras, cimento, tijolos, e outros favores. Não promete empregos. Isto não é da alçada de um candidato. E torna a eleição profundamente desigual, pois o poder econômico é para os ricos. Evidentemente que para cada comprador de votos há um vendedor. E quem é o vendedor de votos? O próprio eleitor. Neste sentido, onde está a diferença entre comprador e vendedor de votos? A meu ver, não há distinção entre os dois: ambos são desonestos. Existe uma relação de cliente: comercial ou de favor. O político é o retrato da sociedade, afinal ele também faz parte dela, não é mesmo? E tal relação custa muito caro para o eleitor, porque esse dinheiro sairá de algum lugar. Que lugar? Fica aí uma sugestão para uma posterior reflexão. Pensar "dói" um pouco, mas liberta...

CANDIDATO A CIDADÃO:_É...Realmente, eleição para escolher os nossos representantes é uma coisa muita séria. Eu nunca tinha pensado em todas essas coisas...

FILÓSOFO:_Vamos fazer uma pequena digressão agora? Eu me lembro de cada palavra sua quando fiz uma pergunta sobre a loucura. Todavia, vou dizer o mínimo. É o filósofo realmente um louco como você disse? Quem parece não ter consciência, de não ser o responsável pelos próprios atos; de estar num estado de insconsciência, e que confunde o sonho com a realidade é, por acaso, o filósofo? A maioria das pessoas vive num estado de entorpecimento, de alienação, que chega a dar pena. E são essas criaturas que normalmente chamam o filósofo de louco. Quem é o verdadeiro louco? Podemos concluir, que é aquele que vegeta no mundo, que não apenas desrespeita o seu voto, mas que vende o maior tesouro que um ser pode ter: A SUA CONSCIÊNCIA! O que eu disse sobre o Legislativo, serve também para o Executivo. Isto não é uma conclusão, ao contrário, é o ponto de partida para um debate, uma discussão para todos os candidatos a cidadão. BOM VOTO nas próximas eleições!


TEXTO: Marco Aurélio Machado

sábado, 4 de agosto de 2012

O PODER POLÍTICO!

O poder é um verdadeiro maná dos deuses para o homem. Ele está nas palavras, na hierarquia das classes sociais, na economia, na cultura, na ideologia, nos meios de comunicação, na religião, na ciência, na técnica, na tecnologia, mas, principalmente, na política. O poder político é o fundamento de todos os outros poderes, porque ele tem a "legitimidade", o monopólio da força, e as suas consequências mais nefastas e desastrosas. O poder é onipresente: está em toda parte. Onde houver duas pessoas conversando, haverá, sem dúvida, relação de poder. O homem deseja o poder como o "demônio"deseja almas para um "passeio" no inferno."

Pouquíssimos homens ( e mulheres ) desejam o poder como um meio. O poder como meio é para promover o bem comum dos cidadãos e cidadãs. Existe o poder como um fim em si mesmo para a promoção do bem comum? A meu ver, não. Por quê? Porque o poder como meio é um instrumento de ideais nobres e altruístas. O poder mesquinho, egoísta, bajulador, ambicioso e perverso não é um meio, mas é um fim em si mesmo. O poder pelo poder é, em última análise, o poder como um fim. E, infelizmente, são os homens e mulheres mais despreparados que normalmente gostam do poder como um fim. O poder pelo poder significa privilégios para uma minoria e a desgraça da maioria. Geralmente, com o consentimento da própria maioria...

Se o cidadão comum soubesse a importância do poder político, não daria o seu voto sem conhecer profundamente o candidato ao poder. O homem que ainda não conseguiu domar os seus instintos mais primitivos não deveria desejar o poder. Todavia, ele o deseja justamente porque há uma ambição desmedida e o ódio pela reflexão racional. Aliás, Platão já preconizava mais ou menos isto. Para ele, o governante que ainda não dominou a ganância, o egoísmo, a ambição, numa palavra, o homem que não tem autodomínio e sabedoria não poderia nunca ser governante. Para governar os outros, antes é preciso governar a si próprio.

E quem disse que alguém chega ao autodomínio e à sabedoria sem sacrifícios? E quem deseja o poder pelo poder, ou seja, o poder como um fim em si mesmo, quer atalhos para prazeres e privilégios pessoais. O poder político como meio exige, ao contrário, desprendimento, espírito de sacrifício, generosidade. Ele tem o dever de estar a serviço do povo.

O poder político é tão importante, que alguns governantes do mundo tem o poder de acabar com a fome e a miséria no mundo, assim como têm o poder de fazer uma guerra atômica e mandar este planeta pelos ares. O poder político pode resolver os conflitos por meio da diplomacia ou da força militar. Quando a razão se despede, a força bruta das armas faz a alegria dos poderosos de plantão. Eis o poder político despido das belas palavras...

Texto: Marco Aurélio Machado

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O MISTÉRIO!

A palavra mistério é, sem dúvida, uma das mais pronunciadas no mundo. Há vários exemplos na vida cotidiana sobre o conceito de mistério, mas gostaria de me deter no seu sentido metafísico, e a contradição entre a dúvida ou a certeza daquilo que existe e o suposto inexistente...

Desde a primeira vez que ouvi tal palavra, ela sempre ocupou ao menos um pouco a minha mente. Ao me interessar cada vez mais pela Filosofia em geral e pela metafísica em particular, evidentemente que a capacidade de pensar e repensar o conceito de mistério também foi crescendo. Numa palavra, ao refletir sobre um assunto supostamente tão espinhoso, agora tenho sérias dúvidas sobre a possibilidade de alguém tentar sair pela tangente quando é questionado até as últimas consequências sobre assuntos metafísicos relacionados ao "mistério". E penso ser este um problema de paradoxo da linguagem, de contradição lógica, como tantos outros que poderíamos citar, mas que não vou colocar aqui.

É muito comum a discussão e o debate entre as pessoas de fé e aquelas mais ligadas à Filosofia e à Ciência. E não é segredo para ninguém que muitas pessoas religiosas também gostam de Ciência e tentam, na medida do possível, fazer uma conexão, uma ponte entre essas "adversárias". Afinal, contar com o apoio da Ciência seria muito bom. Entretanto, será possível alguém se referir ao mistério sem cair numa grande contradição?

Mas afinal de contas, o que é o mistério? Algo que ninguém pode saber, que é incognoscível para sempre à percepção e ao conhecimento humano, dirão uns; algo totalmente desconhecido e que só Deus sabe, dirão outros. E, provavelmente, muitas outras formas de definição devem existir, mas fiquemos, para o que nos interessa aqui, apenas com os dois conceitos supracitados.

O problema é o seguinte: se o mistério é misterioso, como pode alguém se referir a ele? Em outras palavras, se não sei o que é o mistério, como posso me referir a algo que não sei o que é? Se sei o que é o mistério, como posso continuar a dizer que é um mistério, ou seja, algo desconhecido e misterioso? Se conheço o mistério, ele ainda é misterioso e desconhecido? Se sei o que é o mistério, ele não é mais o mistério, porque pode ser conhecido, se não sei o que é o mistério, não posso falar sobre ele. Logo, o conceito de mistério não pode ser afirmado e nem negado. É apenas mais uma gaiola metafísica... Mais um paradoxo da linguagem humana!

Para terminar, eis mais um paradoxo para quem adora dizer que tem a palavra divina. Como pode Deus ser misterioso e ao mesmo tempo a sua palavra estar na Bíblia ou em outros livros sagrados? Se Deus é um mistério, então, é desconhecido e nada pode se falar a respeito dele; se a palavra de Deus está nos livros sagrados, então não existe mistério algum e tudo o que se precisa saber sobre já está escrito e a humanidade não pode mais se referir à palavra mistério. Fiquem à vontade para escolher...

Penso que o maior "mistério" é saber quem diz a verdade, pois os religiosos não se entendem...O interessante é que poderíamos, diante da tal contradição, dizer que somos todos agnósticos. Penso, sinceramente, que haveria mais tolerância e humildade diante da nossa imensa ignorância do desconhecido...Alguém dizer que a palavra de Deus está contida nos livros sagrados e, diante de questionamentos insolúveis, afirmar que é um mistério, é o mesmo que dizer que um triângulo é um quadrado. Haja pirueta mística!!! Pois é...


Texto: Marco Aurélio Machado

sexta-feira, 1 de junho de 2012

EUTANÁSIA

Eis um assunto polêmico: a eutanásia. Mas o que é a eutanásia? Não vou consultar dicionários e nem "especialistas" sobre a etimologia do termo. Vou no popular: eutanásia é o direito de morrer com dignidade e com o menor sofrimento possível.

A meu ver, todo ser humano tem esse direito, mas quase tudo o que é humano tem divergências, e com a eutanásia não poderia ser diferente. A eutanásia é um tema controverso, porque envolve juízos de valores éticos, religiosos, sociais e culturais. Todavia, penso que a vida de um indivíduo é da sua responsabilidade e cabe somente a ele julgar se ela vale a pena ser vivida. Isto com a pessoa gozando de saúde perfeita, imagine, doente e com dores alucinantes?! Sou a favor da eutanásia e talvez continuarei a ser até o "fim"...

Mas por que ser a favor da eutanásia? Respondo com outra pergunta: por que ser a favor do sofrimento? Por que ser a favor das dores insuportáveis, de um câncer, por exemplo, que consome o indivíduo? Por motivos religiosos? Não tenho crenças. Por razões éticas? Alguém já descobriu uma verdade ética objetiva e que fosse referência para toda a humanidade? Penso que não. Por questões culturais? As culturas são relativas e o que é certo para um povo pode não o ser para outras concepções culturais. Enfim, a vida do indivíduo moribundo lhe pertence e só ele pode escolher. Mas e quando a pessoa estiver em coma e não puder optar?

De minha parte, se algum dia ficar em tal situação, quero o seguinte: MORRER. Penso que lei humana nenhuma pode estar acima do direito de uma pessoa de querer a morte em circunstâncias tão cruéis. Afinal, por exemplo, se uma pessoa não puder decidir, quem, em tese, poderia? Aquele que não é o proprietário da vida? Se a pessoa tiver deixado a sua opção, de uma forma clara, é mais fácil. Caso contrário, como proceder? Quais são as razões que tal pessoa teria? Ela teria preocupação com a minha "partida," ou com o desejo egoísta de não sofrer com a minha morte? Ela estaria pensando na ausência do meu sofrimento, ou no bem-estar dela? E se eu tivesse deixado uma fortuna como herança, qual seria a atitude dela? Haveria algum conflito de consciência por desejar um ato e preconizar outro? Quem sabe?

A finitude é para todos, prolongá-la com saúde é uma coisa, com dores insuportáveis, ou num estado de coma, é outra muito diferente. Em que situação somos mais dignos? Deixar a natureza fazer a sua parte e desligar os aparelhos, ou prolongar o sofrimento de todos os envolvidos? Mesmo que a priori fosse por uma boa causa? Pergunto: o que é uma boa causa? A causa de qual interessado? E a causa dos religiosos? A aposta de Pascal, mesmo que não saibam o que ela significa? Os religiosos não deveriam ficar preocupados com a morte do corpo físico, afinal, acreditam que o corpo é deste mundo finito e efêmero, e a alma é uma substância de um "outro reino", logo, ela é imortal e eterna...Meras apostas, nada mais, infelizmente...

Fica claro que a situação supracitada é apenas uma em centenas de outras possíveis. Numa circunstância limite como o é a eutanásia, quase sempre outros interesses ditam as regras...


PS: Hoje, dia 01/06/2012, é um dia muito especial para mim. Quis falar um pouco sobre a morte, para poder celebrar a vida! Parabéns, filha! Nós te amamos!


Texto: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 1 de maio de 2012

O TRABALHO!

Um dos maiores filósofos de todos os tempos, ou seja, Karl Marx, deveria estar vivo para presenciar o dia 1º de maio, as 24h reservadas à "comemoração do dia do trabalhador". Será que Marx participaria das festas promovidas pelas centrais sindicais? Tenho minhas dúvidas...O trabalho é a condição ontológica do ser humano.

O homem é o único ser na natureza que trabalha, já que os animais produzem e reproduzem as suas respectivas espécies instintivamente, mecanicamente, em outras palavras, são programados pela mãe natureza. O homem é um ser dual, não por que é corpo e alma, mas por ser parte natureza pelas necessidadades naturais que tem de alimento, descanso, reprodução sexual da espécie, sono e a finitude, e parte cultura, pois transcende o determinismo ao transformar o mundo natural pelo trabalho. O trabalho é condição "sine qua non" para que possamos passar da condição de "bichos naturais" à ascensão "humana". Evidentemente que as palavras bonitas supracitadas referem-se à visão filosófica do trabalho. Enfim, deveria ser assim, mas o é de fato? Não, não é. Somos, no máximo, animais com lampejos de consciência e "tingidos"com um verniz desbotado, de cultura.

Karl Marx, certamente, não ficaria satisfeito com o nível de ideologia e alienação a que chegou a humanidade. O homem foi capaz de realizações incríveis, chegando ao ponto de criar clones de animais, superar fronteiras no espaço e no tempo através do conhecimento científico aplicado, mas se por um lado foi competente em descobrir leis e mecanismos para a transformação da natureza, infelizmente, não foi o senhor dos seus desejos, egoísmos e ganâncias. O resultado? Em pleno século XXI ainda não passa de uma besta em termos políticos, sociais e econômicos. Incapaz de se colocar no lugar do outro, inventa máquinas, equipamentos e tecnologias de ponta para explorá-lo e não para promover a cooperação e a solidariedade entre os homens.

As cavernas é que moram em nós, apesar de estarmos no limiar do domínio de casas "inteligentes". As trevas residem em nós, apesar de arrotarmos racionalidade; as máquinas nos dominam, apesar de as colocarmos no "automático"; o homem, de tanto querer escravizar, foi escravizado. Logo, logo seremos ciborgues. E quem não quiser ser ciborgue vai desaparecer enquanto ente biológico. Em vez de bebermos água, talvez beberemos óleo de máquina, ou quem sabe uma carga de eletricidade?!!

Karl Marx, se estivesse por aqui, não poderia estar feliz, afinal, o seu sonho de emancipação humana virou um pesadelo. A História deve acabar, com a vitória capitalista. A vitória, da derrota, pois a extinção da Humanidade será a prova da incontestável presença da bestialidade em nós. A tecnologia deveria servir para a libertação humana, para que as máquinas estivessem a serviço do homem e não o contrário. O homem teria direito ao trabalho, trabalhando menos, para que o trabalho não faltasse para ninguém. O homem teria tempo para se dedicar à cultura, à familia e ao lazer. Faria da reflexão filosófica um prazer e também uma guardiã contra a ideologia e a alienação.

Enfim, o homem descobriria que ele e o trabalho são UM. Com a atual produção capitalista esquizofrênica, o homem está perdendo até o direito de "trabalhar", mesmo que seja explorado. E o que é o homem sem o trabalho? Nada, pois o ser humano torna-se humano pelas relações sociais de produção. Eis a ontologia humana nua e crua: sem relações sociais e o trabalho o homem se desumaniza. Aliás, não é à toa que alguns já estão vendendo órgãos humanos, se prostituindo, porque precisam vender o corpo por alguns minutos. No atual sistema, tudo é mercadoria e não vai demorar o tempo em que os empresários vão vender um "selo" de ética capitalista, para tatuar na testa do consumidor, e não faltará alienado para comprar e pagar em até 48 vezes com juros. A tal da "etiqueta" muitos já compraram "no mercado dos bons modos"! Tentativa sofisticada de sair das cavernas? Eis a verdadeira riqueza da pobreza de espírito!

Nada a comemorar no dia do trabalho. Para sabermos a importância do trabalho para o ser humano, bastaria que ficássemos um mês sem trabalhar. Seria cômico, se não fosse trágico, vermos os proprietários dos meios de produção, banqueiros, grandes comerciantes e fazendeiros disputando trabalhadores no tapa. Só tenho compaixão das massas alienadas, que adoram o pão e o circo e a esperança de uma intervenção divina...Elas não sabem a força que têm...


Texto: Marco Aurélio Machado

terça-feira, 3 de abril de 2012

A IMORTALIDADE!

O homem, algumas vezes na vida, pensa na morte. A certeza da morte do corpo físico já é um tormento para a maioria dos seres humanos, imagine a dúvida de um possível desaparecimento da "alma", do espírito, de alguma forma de consciência?

Queremos sobreviver à morte, desejamos a eternidade, a imortalidade, um lugar especial, numa outra dimensão, onde, supostamente, seríamos felizes de uma forma perene. A maioria sonha em ser alguém especial, e para tal recorre às crenças, aos "mestres espirituais", aos "iluminados", que hipoteticamente teriam vencido os sofrimentos, as dores, as amarguras, as "tentações", enfim, derrotaram a vida na matéria densa, ou seja, aqueles privilegiados que se transfiguraram num corpo de luz. Sem dúvida, uma esperança digna de ser desejada...

Mas o que é a imortalidade? Eu não sei. E ainda não encontrei alguém neste mundo que tenha conseguido me convencer sobre tais especulações metafísicas. Ouço essas crenças e confesso que quase não tenho muita paciência sobre este assunto. Por quê? Porque as experiências místicas dos outros não servem para mim. Elas, se existem, são pessoais e intransferíveis. O que, possivelmente, Jesus, Buda, Osho, Gandhi, e muitos outros disseram a respeito da imortalidade, da reencarnação, de uma "morada" espiritual paradisíaca, são experiências deles, não minhas. E apesar de eu saber muito pouco, sei que a mente humana é complexa demais e já enganou muitos buscadores sinceros. Aliás, o pequeno em estatura e um gigante do pensamento, o filósofo alemão, Kant, já dissera que "o homem é um animal metafísico por excelência". Em outras palavras, sempre queremos ir além da experiência do mundo fenomenal.

Este assunto é angustiante e costuma gerar crises existenciais, todavia, é muito importante para que o deixemos apenas aos "especialistas"do além-túmulo. Será que se refletíssimos profundamente sobre a imortalidade e tivéssemos o "livre-arbítrio", a liberdade, de escolher a morte ou a imortalidade neste mundo material, o que escolheríamos? De minha parte, optaria pela morte, pois a ideia de ser imortal é, para mim, um verdadeiro pesadelo...Imagine, não morrer nunca! Deste ponto de vista, a morte seria muito bem-vinda!

Por outro lado, o que seria uma vida espiritual, e, portanto, imortal? O que seria uma vida sem um corpo físico? O que seria um corpo de luz? Eu não sei. E não acredito nos que dizem saber. Não busco, visto saber que os meus desejos sobre tais experiências podem me induzir ao delírio, a vontade de ser superior espiritualmente, a ser um tipo moralista que vive com pena de quem não possui os mesmos valores e crenças. Insisto. A experiência só pode ser minha. E duvido que se a tivesse, pudesse traduzi-la por palavras...Afinal, os gurus se entendem? Penso que não. Cada um tem a sua versão do mundo espiritual. Quem está dizendo a verdade? Ninguém pode ter experiência por nós. E mesmo as nossas, podem ser apenas frutos dos nossos desejos íntimos de darmos sentido ao vazio existencial, que abre um buraco no nosso ser. Como distinguir uma experiência espiritual verdadeira de uma ilusão? Para fazer uma analogia, como explicar para alguém que está morrendo de sede no deserto, que o oásis à sua frente não passa de uma miragem? Sem contar os picaretas, vendedores de ilusões, muitos perdidos nelas também...

Se algum dia ficarei sabendo de outras dimensões espirituais é uma outra história. Por enquanto, gosto mais das teses do filósofo grego antigo, Epicuro, afinal desejo a "aponia" e a "ataraxia". A primeira é a ausência de dor no corpo físico, a segunda, a imperturbabilidade da "alma". O interessante é que para Epicuro, a "alma" era composta de átomos materiais sutis, nada mais. É uma verdade? Quem sabe? Penso apenas ser mais interessante. Aliás, o hedonismo moderado de Epicuro é muito atraente, e na medida do possível costumo colocá-lo em prática. Se eu conseguir algum domínio nesta vida material já está bom demais! Gosto desta vida mortal e adoro esta frase de Nietzsche: "Tudo aquilo que se tornou inteiramente maduro quer morrer". Bom, deixemos a morte chegar naturalmente, enquanto isso, sejamos proprietários das nossas ideias e do nosso caminhar neste mundo de prazeres e de dores...



Texto: Marco Aurélio Machado

sábado, 3 de março de 2012

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O CLAMOR DA ÉTICA!

O grande filósofo grego, Aristóteles de Estagira, (384 a.C a 322 a.C), dizia à sua época que o homem, por natureza, tem uma curiosidade pelo conhecimento. Aristóteles não afirmou tal frase apenas para impressionar os seus interlocutores, mas demonstrou com profundas reflexões filosóficas a episteme do seu tempo, inclusive, na área da Biologia, onde fez várias classificações de plantas e animais. Felizmente, ainda hoje bebemos na fonte do conhecimento aristotélico nas seguintes áreas: Filosofia, Política, Lógica, Ética, Metafísica, Artes, Teoria do Conhecimento, etc. A meu ver, Aristóteles não era apenas um homem, mas uma verdadeira enciclopédia.

No tempo de Aristóteles não havia uma ênfase na pesquisa como hoje a conhecemos. Por vários motivos, entre os quais podemos destacar o modo de produção grego, baseado na escravidão, a dissociação entre o esforço intelectual, bastante valorizado, e o trabalho braçal, desprezado e considerado inferior, etc.

O modo de conhecer e produzir dos gregos são bem diferentes do que veio a ser a ciência moderna. Esta, com as primeiras reflexões de filósofos e cientistas do “quilate” de um Francis Bacon, René Descartes, Galileu Galilei, Copérnico, Isaac Newton, John Locke, David Hume, entre outros, pôde mudar completamente a forma de conhecer, produzir e transformar a natureza. O método científico foi aos poucos se aperfeiçoando e felizmente ou infelizmente, dependo do ponto de vista de cada um, o homem inventou de máquinas a vapor aos modernos computadores sem fio. O conhecimento era um fim em si mesmo, e com o advento da época Moderna, o conhecimento científico aos poucos passa a ser um meio para um fim. A ciência aplicada, ou seja, tecnológica, passa a ser o único fim...Parece-me que o homem quis ser o senhor da natureza e por ironia do destino não consegue ser o senhor nem de si mesmo!

Evidentemente, (a substituição da razão teórica grega, predominantemente metafísica, pois buscava a essência das coisas na própria realidade, e a visão teocrática da Filosofia (teologia cristã), onde o Deus cristão era o centro, daí a predominância do teocentrismo), foi deslocada para o sujeito. O homem passou a ser o “senhor” da natureza e do seu destino. Ele é o centro, daí o advento do antropocentrismo.

Esta pequena introdução histórica servirá para explicitar o nosso objetivo, ou seja, a importância da pesquisa científica, para que possamos não ser os “senhores” da natureza, porque isto pode acabar muito mal, mas para termos uma relação dialética com ela: transformá-la, adaptando-a às nossas necessidades, e sermos modificados por ela, desenvolvendo a nossa capacidade de pensar, sentir e agir, de uma forma ética e responsável. Em outras palavras, já passou da hora de termos uma relação de respeito mútuo entre todos os humanos e a natureza, pois ela não precisa de nós...Somos efêmeros neste mundo...

O conhecimento científico pode ser um mundo maravilhoso para os dispostos ou aptos a fazerem perguntas sobre as causas, as relações, os efeitos e as conseqüências dos nossos atos. O projeto humano não está pronto, porque cada ser humano é um arquiteto e um pedreiro da sua própria vida. E as ciências, nas suas diferentes esferas, podem ser as luzes ou as trevas. A primeira é consciente, ética, responsável e deseja preservar o planeta para as futuras gerações; a segunda, se preocupa apenas em destruir, em nome da riqueza, onde o infinito é o limite. Não precisa nem dizer aonde tal forma de pensar, sentir e agir nos levará, não é mesmo? Às trevas e ao desespero... A escolha é de quem? Nossa! Que uma futura oportunidade possa fazer do iniciante na pesquisa científica, um candidato a farol da humanidade, pois o mundo jamais será o mesmo após a contribuição de cada um, de forma consciente, crítica e responsável.

Quero deixar muito claro o seguinte: não qualquer contribuição, mas a que quer ver o ser humano como parte integrante da natureza. Somos os senhores? Sim, somos os senhores das trevas! Já é alguma coisa, desde que alguém acenda uma vela...

Texto: Marco Aurélio Machado.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

FRASES "REALISTAS"

Os místicos são os maiores mestres da criação de mitos...


A vaidade de um crente não tem limite, pois acreditar que um deus o elegeu para receber uma graça é o cúmulo da arrogância...


O nada, nada é, sem o ser que pergunta por ele...


Deuses "existem" porque são invisíveis e criados pela imaginação...


No paraíso pode se fazer tudo que não se pode fazer aqui no plano terreno. Eis o poder da imaginação...


A maioria dos seres humanos já está no inferno, pois está na prisão de "fogo" da sua imaginação, criadora de crendices, mas acredita que será "salva"...


Se um ser humano é capaz de amar o que está além do próprio umbigo, então ainda tenho esperança de encontrar a minha fada madrinha...


O demônio, comparado à humanidade, é um belo anjo...Ainda bem que não acredito em ambos!


Multiplicai-vos baratas e escorpiões, pois o mundo será de vocês!


Buscar o que se desconhece é a entrada do labirinto...


Quem percebe a própria arrogância está a caminho da humildade...


A humanidade é o demônio em carne e osso...


O louco pensa que a sua loucura é a própria realidade, assim como o crente fanático não percebe que a sua loucura não é a realidade...


O neoliberal acredita tanto na liberdade do mercado que já ficou escravo do deus mercado!


Muitos acreditam em DEUS, todavia, por segurança, não abrem mão da psiquiatria e as suas receitas farmacológicas!


TEXTO: Marco Aurélio Machado

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O QUE É A JUSTIÇA?

O que é a Justiça? Alguém sabe o que é ela? Duvido! Há tantas respostas quanto os interesses em jogo para uns; para outros, a Justiça é relativa, ou seja, depende do contexto histórico, cultural, econômico, social e politico de um povo, de uma civilização, etc. Para outros tantos, a Justiça existe e é objetiva, portanto, existe como algo essencial na própria estrutura do Universo; alguns, como, Platão, por exemplo, pensam que a Justiça existe num mundo à parte, como uma espécie de paradigma ou modelo para este mundo das sombras e aparências, ou seja, o nosso mundo...

A meu ver, a Justiça não existe neste mundo...A começar pelos símbolos da justiça, tão belos como imagens e conceitos e muito feios na prática. Quais são os símbolos? Uma mulher com uma venda nos olhos ( em tese, representa a imparcialidade e a neutralidade) e um outro símbolo é representado por uma balança em equilíbrio, (em teoria, representa a igualdade dos homens perante as LEIS). De fato, o primeiro símbolo representa aqueles que não querem ver as "injustiças", o segundo, um desequilíbrio da Justiça, pois na realidade os pratos da balança deveriam estar em desnível! São bonitos, muito bonitos, mas são só ideais, nada mais...Mormente na maioria dos países onde a Justiça é esta: "MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO"! "Sabe com quem você está falando"? Pois é!

A "Justiça" é a lei do mais forte, seja na natureza, seja na "sociedade dos homens racionais". No primeiro caso não é necessário entrar em detalhes, no segundo, é a força das armas e da tecnologia militar com o seu poder de destruição. Sem contar a velhacaria da mídia, quase sempre a favor da "justiça" de belas palavras e a manipulação descarada a favor de uma democracia de fachada.

Procurar Justiça neste mundo é tão ingênuo quanto acreditar no "bom velhinho", o senhor Papai Noel. E acreditar que ela possa existir num outro mundo é viver de esperança, a anestesia dos pobres e dos crentes no além-túmulo.

No Brasil, por exemplo, a senhora com a venda nos olhos simbolizando a Justiça - com raras exceções - representa a cegueira de quem não quer ver as constantes injustiças cometidas contra os mais necessitados e humildes; por outro lado, demonstra que a Justiça é quase sempre feita a favor dos ricos, que pagam excelentes advogados, enquanto os pobres desconhecem os seus direitos e quase sempre dependem de um defensor público; quando conseguem encontrar um, ainda ficam agradecendo como se fosse um favor pessoal e não um "direito". Eu poderia dilatar este assunto para todas as demais esferas humanas, da política à economia, mas não há necessidade. A balança? Pesa sempre do lado do "direito" da "direita".

O que fazer? Viver de esperança e continuar lutando para que o homem seja bípede e racional. Quem sabe um dia...Até agora, apenas trocamos as clavas das cavernas pelas bombas, que fazem a Justiça não com o bom senso, mas com ameaças e a força bruta do poderio militar. Os símbolos da "Justiça" neste mundo deveriam ser: o dinheiro, os tanques, os canhões e as bombas atômicas! Amém!

Pobre planetinha Terra e os seus ingênuos habitantes, a maioria ainda acredita em comédias...Eu? Estou na arquibancada...


TEXTO: Marco Aurélio Machado




terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O QUE É A VERDADE?

O que é a "verdade"? Eis uma pergunta que existe desde a mais tenra aurora da Filosofia. Muitos já morreram e tantos outros já mataram em nome de uma suposta "verdade". Penso que quando alguém diz que fulano de tal quer ser o dono da verdade, há um equívoco de interpretação conceitual. Aliás, a Filosofia deveria se preocupar em fazer uma terapia da linguagem.

Um dos maiores filósofos do século XX, o austríaco Wittgenstein, já nos alertava para tal fato. Ele dizia que muitos problemas filosóficos são pseudoproblemas que podem ser resolvidos ou dissolvidos apenas com uma boa análise da linguagem e da gramática. Concordo com ele...

Para o nosso texto aqui, vou tentar distinguir o conceito de "verdade" do conceito de "verdadeiro". A meu ver, muitos erros e equívocos da História da Filosofia poderiam ser evitados se tivéssemos prestado mais atenção na diferença entre eles. Por exemplo, quando digo que um quadrado tem quatro ângulos, posso afirmar, categoricamente, que daqui a milhões de anos ( se houver seres humanos ) tal verdade será reafirmada. É uma verdade necessária e universal. É uma verdade lógica, não depende de interpretação. A não ser num ceticismo radical, que costuma argumentar que um gênio maligno poderia nos enganar, nos mostrando um quadrado com quatro ângulos, quando na "verdade" ele teria cinco lados. Penso que a maioria das pessoas não defenderia uma tese tão absurda como a supracitada, não é mesmo? Em outras palavras, a lógica e a matemática nos dão uma verdade peremptória. A verdade, então, é um ente de razão. Uma razão inventada pelos seres humanos, pois eu não defendo a tese de que a matemática faça parte da própria estrutura do Universo. Mas isto é uma outra discussão...

A "verdade" só pode ser lógica, matemática e, portanto, abstrata, universal e necessária. Ela é atemporal e definitiva. Eis o grande problema: o que eu vou fazer com tal "verdade"? Resolver problemas lógicos e matemáticos! Mas a vida se resume em problemas de tais" natureza? Não. A vida não é congelada e estática. A vida é dinâmica, é movimento, é um processo que não pode ser enquadrado dentro de esquemas lógicos rígidos. A vida existe num espaço, num tempo, a vida é muito mais do que a invenção da lógica, a vida é ontológica.

A "verdade", então, por estar num mundo que contém o ser humano, não pode ir além daquilo que é o "verdadeiro". O conceito de algo verdadeiro é limitado; é temporal e finito. O verdadeiro neste sentido é humano, e o que é humano é sempre provisório. Muitas teorias científicas, hoje, são verdadeiras, mas daqui a alguns anos, décadas ou séculos continuarão a ser? Não. Mostrar-se-ão falsas. Novos modelos, paradigmas, conceitos, experimentos, mudanças culturais e históricas nos mostrarão o quão humildes e limitados são os seres humanos.

O "verdadeiro" é a única "verdade" em um mundo que vai muito além de uma lógica que confunde o "mapa com o território". O verdadeiro lida com o movimento, portanto, com a vida no sentido mais amplo da palavra. A "verdade" é a morte da vida, o verdadeiro é a essência da vida...A primeira é a inércia, a segunda é o dinamismo e a eterna transformação.

Quem sabe se os filósofos antigos tivessem prestado mais atenção ao filósofo Heráclito e menos a Parmênides e Aristóteles, não conceberíamos a vida de uma forma completamente diferente? A metafísica antiga é um amor não pela sabedoria, mas um amor pela morte. Por quê? Porque sempre valorizou o imóvel, o estático, ou seja, o imutável, como o fundamento daquilo que muda. Em outras palavras, como pode a essência ( o imutável ) ser a causa da aparência, do que muda? Mudemos isto: a aparência ( o dinamismo ) é o verdadeiro, a essência ( o estático ) é "verdade".

Qual é a "conclusão"? Penso que o verdadeiro é isto: A "verdade" é a morte; o verdadeiro é a vida. A "verdade" é universal; o verdadeiro é singular; a "verdade" é lógica; o verdadeiro é ontológico. A "verdade" é abstrata; o verdadeiro é um mergulho no oceano vital; a "verdade" é a essência morta; o verdadeiro é o mundo enquanto fenômeno existencial...Contraditório? Então preste atenção nisto: A mentira é "verdade". A mentira é mentira. Descubra por você mesmo (a) o que está certo ou errado nas frases acima, pois eu não vou dizer. O motor da vida é a contradição. Basta ver um ser humano agindo: grandes "verdades" e atos que envergonhariam os animais se eles tivessem consciência moral...

TEXTO: Marco Aurélio Machado

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O FILÓSOFO!

Neste blog refiro-me com frequência à Filosofia e demais áreas correlatas, contudo, é necessário me voltar para o filósofo. Quem é o filósofo? Não desejo escrever sobre a etimologia da palavra Filosofia. Gostaria de refletir sobre o conceito de filósofo, todavia, busco algo que vá além dos dicionários e do senso comum.

Um filósofo é quem estuda Filosofia numa faculdade? É alguém, que depois de graduado, torna-se professor nos vários níveis de educação? É aquele que faz um mestrado? Seria quem faz um doutorado com uma tese original? O que significa ser original, principalmente, quando buscamos um filósofo na rica História da Filosofia e fazemos uma leitura totalmente diferente ou mesmo uma crítica considerada única e, portanto, "original"? Mas como ser original nos baseando no trabalho de outros filósofos? Pode ser alguém que nunca frequentou um curso formal de Filosofia? No passado era muito comum, afinal, os filósofos antigos não frequentavam faculdades de Filosofia e nem recebiam um diploma. Em última análise, quem está autorizado a conferir um título de filósofo a alguém?

Fico perplexo com a Filosofia, pois até mesmo para decidir quem deve ser chamado de filósofo não há consenso. Um psicólogo é quem faz Psicologia; um sociólogo é quem faz Sociologia; um médico é quem faz Medicina, mas por que quem estuda Filosofia numa faculdade não é chamado de filósofo também? Não há consenso nem sobre o que se entende por Filosofia...

O senso comum chama de filósofo quem pensa em coisas estranhas, abstratas e que parece não ter conexão com a vida cotidiana, com o "mundo real". É até compreensível, pois dificilmente alguém que não estuda Filosofia, problematiza sobre o que é o "mundo real". Há muitos outros profissionais que se referem a quem é formado em Filosofia de uma forma pejorativa. Veem as pessoas da área como aqueles que ficam "filosofando" sobre o sexo dos anjos, que viajam num mundo onde a única realidade são as ideias, pensam que a Filosofia é muito teórica, outros acham-na inútil, etc. Mas para quem pensa que inútil é tudo aquilo que não seja dinheiro e bens materiais, então, para o filósofo não tem muita importância. Há filósofos complacentes com esse tipo de mentalidade tosca e infantil.

A meu ver, o filósofo é um apaixonado pelos pontos de interrogação, exclamação e as reticências. É a pessoa que faz perguntas simples, mas de uma complexidade profunda sobre a vida, o mundo, a natureza, a história, a política, a ética, a cultura, a beleza, a justiça, a ciência, a religião, o conhecimento, ou seja, sobre o conjunto de tudo o que existe, mas não sem antes perguntar sobre o que deve ser entendido por existência. A Filosofia é muito complexa e como há muitas doutrinas filosóficas, ela mais parece uma Torre de Babel.

O filósofo é um amante da sabedoria, da angústia e do desespero; gosta do abismo e da escuridão e a sua arma é a luz da razão, da inteligência e da reflexão. A angústia e o desespero vêm por causa da natureza da Filosofia. Uma pessoa que passou incólume pela Filosofia, pode ser um excelente citador de filósofos, pode ser um grande erudito, mas não mergulhou profundamente nos principais problemas humanos e, portanto, existenciais. O filósofo estuda muito e quanto mais estuda, descobre que não desvelou quase nada. A diferença é que ele sabe, que sabe muito pouco, por isso quer saber mais. O filósofo é também um desvelador das máscaras ideológicas e alienantes, mas isso só é possível quando ele não está alienado, na defesa de doutrinas filosóficas que defendem uma classe social em detrimento da humanidade...

Um filósofo é uma dinamite de ideias; faz uma pergunta aqui, ali e acolá; ensaia algumas respostas, mas nunca fica satisfeito com elas. Por outro lado, os questionamentos filosóficos parecem abstratos, mas não se enganem, quem já encontrou um grande filósofo no seu caminho, será marcado por ele definitivamente: num plano bem concreto, pois a pessoa muda a sua maneira de pensar, sentir e agir.

O filósofo incomoda; é alvo de inveja, maledicências, perseguições e ciúmes. As pessoas o respeitam, de uma forma ou de outra, mas não é incomum a desqualificação moral, mormente, quando ele não está presente. O filósofo é considerado perigoso e semeador de discórdias, porque quem faz muitas perguntas abala as certezas dos donos do poder e das massas ignaras. Como a maioria das pessoas prefere ser guiadas, visto ter uma "mentalidade de rebanho, "o filósofo não é bem visto. Ele é respeitado, mas quase sempre isolado. Não é fácil conviver com um filósofo, e mais difícil ainda é convivência dele com a maioria das pessoas. A impressão que se tem é que são habitantes de planetas diferentes.

Uma das rejeições que o filósofo mais sofre é a acusação de ateísmo. Mas ele sempre pergunta: "A qual deus(es) você se refere"? Pronto! A confusão está armada! Para o filósofo é apenas mais uma pergunta, todavia, para os crentes, em geral, isto é um absurdo. E normalmente o que um filósofo compreende como ateísmo é completamente diferente do que supõem os crentes. Em outras palavras, eles não falam a mesma língua. Por quê? Porque o filósofo busca compreender a totalidade da cultura humana, e, neste sentido, os homens já acreditaram e acreditam em milhares de deuses. Quem tem razão? O filósofo quer saber também...Ele parece um habitante de um outro planeta, porque faz deste mundo um lugar estranho, desconhecido e inóspito...Ele sempre pensa que algo lhe escapa...

Por ser um questionador radical, no sentido de ir à raiz dos problemas, o filósofo é tido como alguém metido a saber mais do que os outros, quando, na verdade, ele não tem respostas prontas, e as respostas tornam-se novos problemas. Mais: ele quer saber até o que uma pessoa entende por "problema". Não é de admirar, portanto, que ele seja considerado um "doido", um "aloprado" e outros adjetivos pejorativos. O que ele faz diante dessas acusações? Pergunta: "O que é ser doido"? "O que é ser aloprado"? "Ser normal é quem vive como gado"?

O filósofo se distancia do mundo, não tanto fisicamente, mas intelectualmente. É uma distância estratégica, para melhor se aproximar! A meu ver, o filósofo deve ter um compromisso com a vida nas suas várias dimensões: a reflexão filosófica não pode ficar restrita à Academia. A práxis é a palavra de ordem. Ele deve ter paciência para trocar ideias e participar dos problemas da sociedade sempre que possível. Afinal, a capacidade de elucidar conceitos e contribuir com algumas sugestões fazem parte da reflexão filosófica. Bom, eu entendo assim...

O filósofo brinca com os conceitos, como uma criança se diverte com os brinquedos; ele se parece com uma criança ao fazer tantas perguntas; o que os distingue é que a criança aceita a resposta de um adulto, inocentemente, como se fosse uma verdade peremptória (definitiva), o filósofo, por sua vez, faz perguntas, mas não há ingenuidade nelas. Há o desejo de se aprofundar, de ir além!

Um filósofo busca o óbvio incessantemente, porque sabe que o "óbvio" não é tão óbvio. O óbvio é evidente para os tolos. Para o filósofo, o óbvio não tem obviedade. O que é obviedade? Se alguém descobrir, estou muito interessado, mesmo que eu nunca tenha me considerado um filósofo, apesar de eu gostar muito de fazer umas "perguntinhas" ingênuas", mas que já implodiram e explodiram muitos dogmas, em vários campos do conhecimento, das ideologias e das crenças supersticiosas. Eu não quero muito, desejo apenas um pouco de sabedoria...



Texto: Marco Aurélio Machado

domingo, 16 de outubro de 2011

O CAPITALISMO É "CAPETALISTA"!

Eu sempre fui um crítico do sistema capitalista, e em todos os anos que estive (e ainda estou numa sala de aula), os alunos riam muito quando eu chamava o sistema capitalista de (CAPETALISTA). (Sim, é o próprio diabo, de carne e osso, que destrói tudo: transforma objetos e pessoas em simples mercadorias descartáveis, pois os objetos não têm valor de uso, mas de troca.) Ainda hoje alguns ex-alunos ao me encontrarem, brincam a respeito do que eu dizia.

Gostaria de escrever um pouco sobre este assunto, pois sempre disse também que não se deve enfrentar o inimigo quando ele está mais forte, porque a derrota é quase certa... A meu ver, o inimigo, de tanto ganhar, já não tem tanta força. E a INTERNET, grande ironia, instrumento para o avanço do capital globalizado, desta feita também serve de ponte para a voz do povo. Ela é a voz de um mundo sem fronteiras. Pois é...

Estamos vendo os jornais e demais mídias, perplexos, noticiarem as manifestações que varrem o planeta contra o sistema capitalista. O interessante é que tais protestos começaram justamente nos países mais beneficiados pela riqueza capitalista. Há protestos em vários países do Oriente Médio e da África também, entretanto, a meu ver, por motivos diferentes. Os primeiros querem a"saída" do capitalismo (tomara), os segundos desejam a entrada na "liberdade democrática," e nas promessas do Reino dos Céus, na Terra, feitas pela propaganda capitalista. Estão um pouco atrasados, não? Parece-me já ter ficado claro que o sistema capitalista atual é o "Reino do Inferno" para quase todas as pessoas no mundo. Ele é muito bom para uma minoria. A tal minoria que distribui desgraças pelo mundo, em busca de dinheiro, onde o INFINITO É O LIMITE, e ainda quer que o povo pague a conta. Tudo muito engraçado, não?!! O que está em jogo não é só o sistema capitalista, mas a sobrevivência do nosso ex-lindo planeta azul. A nossa casa. Até mesmo a casa dos defensores do capital!! Se eles não têm responsabilidade...

Quando os grandes conglomerados financeiros e industriais se tornam maiores que os Estados, os acontecimentos que ora presenciamos não poderiam ser diferentes. Os profetas da propaganda capitalista, defensores de que o DEUS mercado regula tudo, por que agora querem que os Estados paguem a conta com o dinheiro do povo? De novo? Todas as outras crises não foram suficientes para que as marionetes do capital (os politiqueiros de plantão) aprendessem a lição? O povo produz tudo, consome menos do que deveria (muitos não têm um prato de comida), têm serviços públicos geralmente muito ruins, mas, que, entretanto, se não fizer nada, pode ficar numa situação muito pior.

Nos momentos de crise o capital avança e faz o Estado mostrar a sua verdadeira face: a de que sempre foi uma extensão dos interesses capitalistas. A maioria dos políticos foi e ainda será agentes vestidos com as máscaras do interesse público, mas, na verdade, está a serviço do capital. VOU DIZER MAIS UMA VEZ: NÃO EXISTE CAPITAL SEM O SUPORTE ONTOLÓGICO DO ESTADO. As pessoas pensam que a esfera da produção (economia) é separada da esfera pública (política), mas isto é pura ilusão. São unha e carne. São a mesma coisa. Até mesmo no chamado "socialismo científico".

Vou dizer pela milésima vez: NÃO HÁ SALVAÇÃO DESTE PLANETA NO ATUAL MODO DE PRODUÇÃO, POIS ESTAS CRISES VIERAM PARA FICAR. Elas são estruturais. Os trabalhadores do mundo inteiro correm o risco de perder os parcos direitos trabalhistas que ainda têm. Não podemos e nem devemos pagar esta conta. Os jogadores, deste imenso cassino global, que paguem a fatura, ora. O povo ainda vai descobrir que só ele tem a força. E não me refiro à violência. De um modo pacífico, ficando em casa sem produzir durante 15 dias...Talvez, assim, as elites reacionárias vão aprender a nos respeitar.

A tecnologia tem que estar a serviço do povo e não pode ser instrumento da exploração e do desemprego das massas. Os pobres já estão acostumados à miséria e à esperança no Paraíso, todavia, parece que aqueles que estavam acostumados à riqueza no mundo material, começaram a sentir na pele o que o "Terceiro Mundo" já sente há muito.

A saída? O ideal seria o bom senso, mas nunca vi o capital abrir mão do lucro! O dilema? O capital sem fronteiras e Estados nacionais. Em última análise, será que o capital está buscando uma forma de implantar um Estado único? Afinal, quem segura o capital? Que a voz do povo seja a voz não de DEUS, mas do próprio povo. Infelizmente, a maioria daqueles que falam em nome de Deus, (é) são instrumentos do CAPITAL TAMBÉM!!!


TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 2 de outubro de 2011

FILOSOFIA DA MENTE: O MATERIALISMO ELIMINATIVO

Eu sou um neófito em Filosofia, apesar de estudá-la há uns trinta anos. Gosto de vários temas filosóficos, e um deles é a Filosofia da Mente. Vou tentar desenvolver brevemente uma das muitas teorias da mente, afinal sou apenas um "curioso no tema". Eu pretendo estudar mais sobre o assunto e de vez em quando colocar algum texto neste blog. Hoje vou escrever um texto bem básico sobre o "MATERIALISMO ELIMINATIVO". Esta teoria ganhou força a partir da década de 80 com o casal Paul e Patrícia Churchland. Não conheço quase nada sobre eles.

O materialismo eliminativo dá ênfase à neurociência. Os defensores desta teoria preconizam que a medida em que a neurociência progredir, a psicologia tenderá a desaparecer do cenário de explicação dos fenômenos mentais. Por exemplo, os sonhos, tão caros às várias correntes psicológicas serão "explicados" apenas como processos puramente bioquímicos no cérebro.

Desejos íntimos dos sonhos? Fenômenos bioquímicos, portanto, de natureza física, material, nada mais. Evidentemente, que outros processos subjetivos mentais também entrarão numa era primitiva, segundo o "materialismo eliminativo". Consequência: o próprio conceito de mente sumirá como num passe de mágica.

Diante de algumas leituras e de reflexões bem preliminares sobre o assunto, eu não poderia deixar de mencionar algumas considerações que chegam a ser bem caricaturais. O que será da profissão de psicólogo? PIOR: o que serão dos padres e dos pastores, que adoram exorcizar demônios que supostamente tomam os corpos das vítimas? Sumirão todos os capetas? Em vez de palavras de ordem aos demônios, em nome de Jesus, bastarão alguns comprimidos receitados por psiquiatras?

Sinceramente, não sei se o materialismo eliminativo conseguirá descobrir, através do mapeamento e do conhecimento do cérebro, a solução de todas as disfunções biológicas cerebrais; penso que é um reducionismo muito grande, entretanto, alguns sofrimentos mentais não podem esperar anos e mais anos pelas diversas correntes psicoterápicas. Neste sentido, os medicamentos são muito bem-vindos. Aliás, grande parte das doenças mentais já são bastante amenizadas com os medicamentos disponíveis atualmente. Doenças como o TOC, por exemplo, que trazem enormes sofrimentos aos seus portadores, são tratadas com sucesso pelos psiquiatras. Mas não sei até que ponto seremos simples zumbis...Alguém está feliz? Por quê? Porque encheu a pança de comprimidos, que por sua vez deram uma retificada no cérebro...Penso que se assim for, sentiremos saudades daquelas angústias e crises existenciais!

Algumas perguntas que não querem se calar: ONDE entra a história de vida do indivíduo em tal teoria? E as relações sociais, econômicas, culturais e políticas, não contam? Apenas terapias genéticas resolverão todos os problemas "psicológicos" de um ser humano? São os pensamentos desarmônicos que causam as disfunções biológicas ou são as disfunções biológicas que causam os pensamentos desarmônicos?

A meu ver, o ser humano tem um longo caminho pela frente. De minha parte, quero ser feliz neste mundo, mas não quero ser um robô feliz sem saber o porquê sou feliz...Por outro lado, como explicar os filósofos estóicos e o total domínio das emoções que eles desenvolviam, pois naquela época não havia antidepressivos? E os iogues indianos, por acaso, tomam fluoxetina? Pois é... A quem interessa a ideia de que não temos escolhas?

Texto: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O FENÔMENO RELIGIOSO E A ALIENAÇÃO DO MUNDO!

Estou refletindo há muito sobre o problema do fenômeno religioso e a alienação, como um dilema que está relacionado ao modo de produção (economia), político ( legitimidade do poder e do uso da força), cultural (saber e ideologia) e social ( relações que os homens estabelecem entre si para a produção e reprodução da sua subsistência material). Vejo tantas pessoas tentando me convencer a ser uma pessoa espiritualista, como se elas tivessem recebido um download metafísico direto do MUNDO DAS IDEIAS PLATÔNICO. Sinceramente, a violência contra a lógica deveria ser punida com rigor! A punição? A leitura de Karl Marx, Sartre, Nietzsche, David Hume, Feuerbach, Krishnamurti, Michel Onfray, Marcel Conche, Epicuro, Sexto Empírico, Jean Meslier, entre outros grandes filósofos lúcidos!

Além de apelarem para o plano espiritual e de inverterem a ordem do mundo, essas pessoas pensam que tais problemas são questões morais que dependem de uma mudança de mentalidade espiritual, etc. Eu não creio que as coisas mudarão dessa forma. A meu ver, o modo de produção não é apenas uma questão de economia, é uma questão ontológica. Por que ontológica? Porque é o fundamento, a base, a essência que faz o ser humano ser um ser humano, e não qualquer outra coisa. Eis o nosso dilema...

Somos o que fazemos e como fazemos. Se o homem se encontra alienado naquilo que é fundamental ( o modo de produção) o que podemos esperar? Uma intervenção divina? A ajuda de espíritos ou almas evoluídas? Isto é a tal inversão do mundo que eu sempre critiquei. É uma ideologia perigosa, porque transfere a felicidade para um outro plano, ou seja, o ALÉM. Eu não sei se existe o além-túmulo. O único mundo que conheço é este: o mundo material. O problema é que essa ideologia é uma maravilha para quem explora a mão de obra alheia. Por quê? Porque Jesus disse: "O meu reino não é deste mundo". Se o reino dele não era deste mundo, e o Cristianismo é uma religião que domina o Ocidente, o que podemos esperar? Felicidade para os poderosos neste mundo e promessas vazias para os pobres num outro plano, "bem longe"...

Quem vence na vida, foi abençoado por Deus, quem não vence, pode esperar a felicidade no Reino dos Céus!! Quem vence na vida mereceu, quem não vence, pode esperar que o seu dia chegará, mesmo que o país esteja mergulhado numa profunda recessão econômica! E o que é um problema que pertence apenas e tão somente a este mundo, passa para um mundo que supostamente é transcendente. Eu quero ser feliz aqui e agora. E se houver um outro mundo, quero ser feliz lá também.

O Brasil é um país com uma profunda tradição cristã. Mas compartilhar o pão fica só no discurso. Migalhas, nada mais! Até se vê carros com adesivos: "FOI DEUS QUEM ME DEU". Já não é a economia "humana, demasiada humana", (obrigado, Nietzsche) quem gera empregos e renda, mas é uma bênção divina a quem supostamente merece mais do que os outros "filhos de Deus". Fico pensando o porquê essas bênçãos não chegam à África, onde a maioria das pessoas nem está pensando em carros, mas apenas num prato de comida... Pois é!

Eu queria ter a capacidade de analisar o discurso das pessoas e acreditar. Mas eu não analiso apenas palavras, observo comportamentos. É claro que o Brasil está bem melhor hoje do que há 20 anos, mas daí a acreditar que estamos no paraíso? Este país é um paraíso para uma minoria. Estes, sim, não têm o que reclamar. O que estou me referindo sobre o Brasil, serve para a maioria da população mundial.

Gostaria de pegar um economista liberal pelas mãos e levá-lo em algum lugar no Brasil, talvez muito parecido com a Etiópia. Eles enxergam muitos números, veem seres humanos como "despesas". Mas não preciso de números para ver que este país ainda está engatinhando rumo à democracia formal e abstrata, imagine a estrada para uma democracia substancial, concreta... A miséria está por todos os lados, mas para quem não quer enxergar, a miséria é tão invisível quanto um gari que passamos ao lado e não damos BOM DIA. Eles são invisíveis, mesmo tendo um "corpo físico". Engraçado, acabei de me lembrar do Boris Casoy! Isto é incrível!



Texto: Marco Aurélio Machado

domingo, 7 de agosto de 2011

O QUE É A LIBERDADE?

A palavra liberdade é de uma beleza singular. Sempre que eu penso nela, lembro-me dos pássaros voando num belo céu azul; das crianças brincando na areia e fazendo algazarras com a inocência e pureza que lhes são peculiares; dos cachorros e dos animais, em geral, "reproduzindo" as respectivas espécies sem culpa e vergonha; enfim, lembro-me da natureza com todas as suas belezas e horrores!!

Todavia, no parágrafo acima, a maior parte dos exemplos foi tirada da observação humana a respeito da natureza. As crianças não são apenas parte da natureza, elas aprendem regras, valores e normas, por isso, são também seres culturais. Se fosse possível deixar as crianças à vontade, provavelmente, cresceriam e se desenvolveriam sem culpas, remorsos e arrependimentos. Elas seriam "livres". Será? Eis o dilema humano. Encontramos no ser humano uma cisão, uma ruptura, um distanciamento da natureza. Ao criarmos uma moral, uma ética e as leis somos "forçados" a agir de acordo com os costumes e o aparato jurídico da sociedade em que estamos inseridos. Como, então, o homem pode se referir à liberdade? O que é a liberdade?

Há tantos conceitos de liberdade quanto o número de pessoas capazes de inventá-los e reinventá-los. Não tenho a pretensão de ter a última palavra sobre o assunto, mas vou tentar definir um conceito que me "agrada". A liberdade é a capacidade de o homem ser o senhor das situações dentro das suas possibilidades e limites. E quando me refiro à liberdade, estou me reportando a escolhas. O conceito de liberdade, uma teoria sobre a liberdade é tão fácil...O difícil é colocá-lo em prática, pois não existe liberdade apenas num plano intelectual, porque são as atitudes, os comportamentos e as ações humanas que vão conferir significado ao conceito e não o contrário.

Muitos filósofos se debruçaram sobre o assunto, entre eles, cito Kant e Sartre. O primeiro, preconizava que pôr um limite às paixões e aos desejos humanos, através da razão, é ser livre, pois o homem não é apenas natureza, mas também cultura. O homem livre, portanto, é aquele capaz de se impor limites, transcender os imperativos naturais, pois a razão é patrimônio universal, logo, devemos tratar o homem sempre como um fim em si mesmo e não como um meio. Kant dizia que devemos dizer a verdade em quaisquer situações, etc. Evidentemente, Kant escreveu muito mais a respeito da liberdade, no seu livro, "Crítica da razão prática". Mas não é minha intenção aprofundar neste assunto. Não vou escrever sobre o imperativo categórico kantiano. Fica o registro, neste texto, para futuras pesquisas dos interessados.

Sartre é o filósofo da liberdade por excelência. Não só por ter escrito muito sobre o assunto, mas por ter agido, segundo relatos que li, de acordo com a liberdade que preconizava. Aliás, Sartre fazia apologia de uma liberdade absoluta. Ficou famosa a sua frase: " A existência precede a essência". Para Sartre, o homem não tem a essência da liberdade! Sartre inverte os conceitos de essência e existência, porque ele fica "livre" da ideia de Deus. Para o filósofo existencialista francês, primeiro o homem existe no mundo, depois se define conforme às suas ações. Sartre não separa a teoria da prática. Ao escolher (agir) o homem realiza a sua liberdade e os seus projetos. O homem não é mais do que aquilo que ele faz. Sartre foi um dos ícones do existencialismo, corrente filosófica contemporânea de meados do século XX.

A meu ver, não é fácil ser livre. A liberdade humana carrega um "fardo de aço" de responsabilidade. Ser livre, teoricamente, é muito fácil. O difícil é realizar a liberdade em ato. Ser livre não é só a ausência de um obstáculo físico, ficar preso numa cadeia, por exemplo. Penso que a maioria das pessoas está presa, mesmo em uma suposta liberdade de "ir e vir".

Como ficar livre dos desejos mesquinhos, das crenças e superstições infundadas, do medo da morte, da culpa, do remorso e do arrependimento? Como ser livre, numa época em que queremos ter o último carro do ano (não tenho carro e ando de ônibus, não sei dirigir e nem sei se vou aprender um dia), dos celulares, televisores, computadores, roupas de grife, relógios caros ? Como ser livre do desejo de posse do companheiro(a)? Como ser livre dos meus próprios fantasmas psicológicos e emocionais? Como ser livre dos deuses que criamos e esquecemos que fomos nós quem os inventamos? Como ser livre da propaganda consumista que nos escraviza a todos? Bom, eu poderia citar vários outros exemplos, inclusive, os relacionados à depressão. Entretanto, este texto precisa ter um fim! Pois é...

Penso que antes de qualquer coisa, devemos ser livres, ao menos, para ter a paciência de refletir sobre a liberdade, pois as pessoas procuram tantas distrações, que morrem de medo de mergulhar na própria "alma". De minha parte, preciso refletir muito sobre a tal liberdade. Se eu conseguir ficar livre de muitos preconceitos, já me sentirei um vitorioso. Dentro do possível, sou livre da maioria das crenças, desejos e superstições, que atemorizam a maioria dos seres humanos. Se a razão e a força de vontade não podem tudo, eu, felizmente, só posso contar com elas...Não me sinto livre para fazer tudo o que desejo, mas sou livre para não fazer tudo o que desejo! Paradoxal? O homem é um ser paradoxal por excelência, ora!!! Não temos desculpas, mas sempre as inventamos para não termos que escolher, afinal, dói tanto a angústia da liberdade, não é? Imagine a situação de Sócrates...

Texto: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 2 de julho de 2011

METAFÍSICA DO INFERNO!

A metafísica é a parte da Filosofia mais abstrata, pois procura estudar as causas fundamentais, essenciais de tudo o que existe, de um ponto de vista estritamente racional. Exemplos de problemas metafísicos são a existência, a natureza e os atributos de Deus, da alma e do mundo que nos cerca. A metafísica quer ir além das aparências e, portanto, busca a essência do SER, sem recorrer às suas especificidades e particularidades. Daí a proposta metafísica ser um estudo totalmente abstrato. Mas o que tal assunto tem a ver com o INFERNO? NADA! Mas a "metafísica cristã" (teologia cristã) sempre deu um jeitinho de postular um ambiente bem quente, eterno e onde haveria um sofrimento indescritível: O INFERNO! A meu ver, uma "metafísica"irracional: violenta a lógica e o bom senso mais elementar, e aprisiona as pessoas inocentes e ingênuas, pois elas já estão no inferno em vida, porque vivem na esperança da salvação ou no pavor de um mergulho nas labaredas de fogo. Tudo isso por DEUS ser amor! Eis a "lógica"cristã deitando e algemando as pessoas na cama de ferro de Procusto! Uma "lógica" que faz um quadrado virar círculo. Discordar é heresia grave...

Vamos tentar demonstrar que a crença no inferno não resiste a uma teoria do conhecimento muito simples: o empirismo. Qual é a principal tese do empirismo? Aristóteles já dizia que "nada existe na mente que não tenha passado antes pelos sentidos". John Locke e David Hume, entre outros filósofos modernos, partem da experiência sensorial para explicar o processo de aquisição do conhecimento. John Locke, inclusive, vai dizer que ao nascermos somos como uma folha em branco, uma tábula rasa. Portanto, não acreditava em ideias inatas, teoria dos filósofos racionalistas, e da possibilidade de termos conhecimentos apenas através de deduções lógicas.


Essas digressões têm uma razão de ser. Por quê? Porque partiremos da tese empirista para refutarmos a suposta existência do inferno, que aprisiona a alma de bilhões de pessoas no mundo inteiro. Uma simples reflexão pode jogar por terra essa superstição infantil, porque se ela for verdadeira, espero encontrar muitos líderes religiosos cozinhando no fogo infernal, afinal, é isso o que eles têm feito às pessoas desde tempos imemoriais. Muitos por ignorância, inocência e estupidez, outros, por esperteza e desejo de poder material. Acreditam menos do que eu...

Para refutarmos o medo do inferno, vamos imaginar a seguinte situação: temos cinco sentidos físicos. Façamos de conta que acabamos de perder a visão; agora, perdemos o tato; logo em seguida, já não temos o olfato. Como desgraça pouca é bobagem, perdemos a audição e também o paladar. O que sobrou? O que eu sou? Um vegetal? Estamos agora na situação de uma pessoa que faleceu. Onde está a realidade? O empirismo preconiza que o conhecimento humano começa com as impressões sensoriais que temos com o mundo externo. Associamos as diversas impressões e formamos representações e conceitos das coisas e do nosso mundo interior ou psicológico.

Uma SEREIA, por exemplo, é a junção da impressão visual de uma "bela" mulher e o rabo de um peixe. Formamos a ideia de inferno, porque já tivemos as impressões visuais do fogo, do homem, dos chifres, do rabo, do ranger de dentes, das lágrimas e do sangue. Já sofremos a queimadura do fogo e já tivemos sofrimentos neste mundo. Associamos tudo e temos a representação do capeta e do inferno. Portanto, se fôssemos cegos e não tivéssemos a sensação do tato, não saberíamos o que é o fogo e nem o que é a queimadura, logo, não poderíamos formar a ideia do inferno. A partir de ideias simples formamos as ideias complexas. O que é um anjo? Um homem ou uma criança "branco(a)", olhos azuis, cabelos claros, asas...Mas por que não um anjo negro? Anjo negro é associado com o quê? Precisa dizer? O anjo tem que ser europeu? Por quê? Porque quem dominou e ainda domina? Pois é!! A imaginação faz o resto...

Para vermos o objeto, precisamos da visão; para sentirmos o cheiro, precisamos do olfato; para ouvirmos o som, precisamos da audição; para sentirmos o sabor do alimento, precisamos do paladar; para sentirmos a textura e outras propriedades de um objeto, precisamos do tato. Este último é tão importante, que para sentirmos dores, uma queimadura ou um corte de faca, por exemplo, precisamos do sentido do tato. Se eu der um beliscão em uma pessoa com um "alicate", provavelmente, ouviremos os gritos de longe, não é mesmo?

Prossigamos...Ficou evidente, espero, que para termos experiência do mundo, precisamos dos nossos sentidos físicos. Conseguimos sobreviver sem um ou outro sentido, mas sem os cincos sentidos físicos?!! Não conheço ninguém que tenha tido essa "experiência"! Suponhamos que exista uma alma dentro do nosso corpo e com a morte deste, ela vá para o céu, o purgatório ou para o inferno. A pergunta é: COMO PODE UMA ALMA SENTIR DOR SEM UM CORPO FÍSICO? Se o cérebro não funciona mais numa eventual morte ou na perda de todos os sentidos físicos, como pode experimentar o fogo do inferno? Na verdade, não temos experiência sem um corpo físico. O que seria uma "experiência" de uma alma? Sim, porque o "inferno" nada mais é que as diversas associações de impressões sensoriais do corpo físico e material. Experiências subjetivas e opiniões pessoais de "mestres e gurus" nunca me persuadiram...A mente humana é muito complexa e não é qualquer "explicação" subjetiva que me convencerá. Não se deve fazer apostas com o sobrenatural, quando estamos engatinhando ainda nas explicações do mundo natural. O remédio? Reflexão racional e moderação na imaginação. Simples! A meu ver, só através de muitas piruetas imaginárias alguém poderia ter medo do INFERNO.

Alguém poderia alegar que o INFERNO é uma alegoria, que não é um lugar físico, mas é a consciência divina purificando a alma das pessoas. A meu ver, tal explicação é mais inteligente e até mais bonita, mas também não resiste aos fatos. Podemos perguntar: ONDE ESTÁ O FOGO DA CONSCIÊNCIA DIVINA QUEIMANDO A ALMA DE UM PSICOPATA? Desde quando os psicopatas têm consciência moral? Que eu saiba eles não sentem culpa, remorso ou arrependimento por nada que fazem de cruel.

As religiões inventaram o inferno para manter as pessoas numa infantilidade tola. Fica bem mais fácil manipular as pessoas e mantê-las na ignorância com essas historinhas da carochinha. É lamentável, mas em pleno século XXI e com todos os avanços das ciências há, ainda, bilhões de pessoas presas aos dogmas religiosos mais infantis.

De minha parte, não tenho medo dessas fábulas. São invenções das religiões organizadas. Nada mais. Troque as crenças infantis por uma boa reflexão filosófica e você ficará livre para sempre!



TEXTO: Marco Aurélio Machado