Segunda-Feira, 26 de outubro de 2009
PODER POLÍTICO, IDEOLOGIA E ALIENAÇÃO!
O discurso perverso de que o pobre é, em última análise, o responsável pela sua própria desgraça e mazelas não passa de ideologia e alienação de quem não compreende de fato a realidade. No Brasil, não foi a sociedade quem fundou o Estado, mas o inverso.
Quem está com a barriguinha cheia e mora na Zona Sul pode ficar teorizando sobre as dificuldades e ignorância das massas, à vontade. Filosofar no ar-condicionado é a coisa mais fácil que tem. Que tal se preconizássemos pelo menos uma social-democracia neste país, onde o Estado tivesse uma presença mais forte e cobrasse mais impostos dos ricos?
Por que na esfera política existe o revezamento no poder e na esfera da economia — onde os bens são produzidos por todos, mas geram riquezas para poucos — os bens são transmitidos de forma hereditária? Quase sempre, quem herda uma fortuna que não ajudou a produzir são os "filhinhos de papai e mamãe", que não sabem fritar um ovo.
Em outras palavras, temos uma democracia de fachada, onde há igualdade num plano abstrato — ou seja, no papel e nas leis — e onde o homem produz a riqueza material, uma desigualdade de fato. E o que é pior: transferência hereditária, como se estivéssemos em plena monarquia absoluta. Nessa hora ninguém fala de liberalismo. Será por quê?
Evidentemente, não estou dizendo que a família que tenha uma casa e bens até o valor de R$ 2.000.000,00, por exemplo, não deveria transmitir para os filhos. Mas para quem nunca trabalhou, só ficou estudando e de papo para o ar, herdar mais de R$ 1.000.000,00 só para si é ético quando se tem tantos miseráveis? Até que ponto toda essa violência não é distribuição de renda à força?
Não preconizo a violência. Mas não podemos fingir que as elites hipócritas não são responsáveis por essa situação; e nós também, porque vemos o circo pegar fogo e aplaudimos os ricos porque queremos ser ricos, visto não percebemos a ideologia implícita no discurso deles. O problema é que absorvemos valores que não são nossos e os defendemos como se fossem. Por quê? Porque somos alienados: não temos consciência de classe e colocamos tudo nas "mãos de Deus".
Para não dizerem que sou intolerante e radical, aceito uma social-democracia tupiniquim: melhor distribuição de renda, habitação, saúde e educação de boa qualidade para todos. É pedir muito?
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO