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sábado, 3 de março de 2012

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O CLAMOR DA ÉTICA!

Sábado, 3 de março de 2012
O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E O CLAMOR DA ÉTICA!
O grande filósofo grego Aristóteles de Estagira (384 a.C. a 322 a.C.) dizia à sua época que o homem, por natureza, tem uma curiosidade pelo conhecimento. Aristóteles não afirmou tal frase apenas para impressionar os seus interlocutores, mas demonstrou com profundas reflexões filosóficas a episteme do seu tempo — inclusive na área da Biologia, onde fez várias classificações de plantas e animais. Felizmente, ainda hoje bebemos na fonte do conhecimento aristotélico nas seguintes áreas: Filosofia, Política, Lógica, Ética, Metafísica, Artes, Teoria do Conhecimento, etc. A meu ver, Aristóteles não era apenas um homem, mas uma verdadeira enciclopédia.
No tempo de Aristóteles não havia uma ênfase na pesquisa como hoje a conhecemos. Por vários motivos, entre os quais podemos destacar o modo de produção grego, baseado na escravidão; a dissociação entre o esforço intelectual, bastante valorizado, e o trabalho braçal, desprezado e considerado inferior, etc.
O modo de conhecer e produzir dos gregos são bem diferentes do que veio a ser a ciência moderna. Esta, com as primeiras reflexões de filósofos e cientistas do “quilate” de um Francis Bacon, René Descartes, Galileu Galilei, Copérnico, Isaac Newton, John Locke, David Hume, entre outros, pôde mudar completamente a forma de conhecer, produzir e transformar a natureza. O método científico foi aos poucos se aperfeiçoando; e, felizmente ou infelizmente — dependendo do ponto de vista de cada um —, o homem inventou de máquinas a vapor aos modernos computadores sem fio. O conhecimento era um fim em si mesmo; e, com o advento da época Moderna, o conhecimento científico aos poucos passa a ser um meio para um fim. A ciência aplicada — ou seja, tecnológica — passa a ser o único fim... Parece-me que o homem quis ser o senhor da natureza e, por ironia do destino, não consegue ser o senhor nem de si mesmo!
Evidentemente que a substituição da razão teórica grega (predominantemente metafísica, pois buscava a essência das coisas na própria realidade) e a visão teocrática da Filosofia (teologia cristã, onde o Deus cristão era o centro, daí a predominância do teocentrismo) foi deslocada para o sujeito. O homem passou a ser o “senhor” da natureza e do seu destino. Ele é o centro, daí o advento do antropocentrismo.
Esta pequena introdução histórica servirá para explicitar o nosso objetivo; ou seja, a importância da pesquisa científica para que possamos não ser os “senhores” da natureza — porque isto pode acabar muito mal —, mas para termos uma relação dialética com ela: transformá-la, adaptando-a às nossas necessidades, e sermos modificados por ela, desenvolvendo a nossa capacidade de pensar, sentir e agir de uma forma ética e responsável. Em outras palavras, já passou da hora de termos uma relação de respeito mútuo entre todos os humanos e a natureza, pois ela não precisa de nós... Somos efêmeros neste mundo...
O conhecimento científico pode ser um mundo maravilhoso para os dispostos ou aptos a fazerem perguntas sobre as causas, as relações, os efeitos e as consequências dos nossos atos. O projeto humano não está pronto, porque cada ser humano é um arquiteto e um pedreiro da sua própria vida. E as ciências, nas suas diferentes esferas, podem ser as luzes ou as trevas. A primeira é consciente, ética, responsável e deseja preservar o planeta para as futuras gerações; a segunda se preocupa apenas em destruir, em nome da riqueza, onde o infinito é o limite. Não precisa nem dizer onde tal forma de pensar, sentir e agir nos levará, não é mesmo? Às trevas e ao desespero... A escolha é de quem? Nossa! Que uma futura oportunidade possa fazer do iniciante na pesquisa científica um candidato a farol da Humanidade; pois, o mundo jamais será o mesmo após a contribuição de cada um, de forma consciente, crítica e responsável.
Quero deixar muito claro o seguinte: não qualquer contribuição, mas a que quer ver o ser humano como parte integrante da natureza. Somos os senhores? Sim, somos os senhores das trevas! Já é alguma coisa, desde que alguém acenda uma vela...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 11 de fevereiro de 2012

FRASES "REALISTAS"

Sábado, 11 de fevereiro de 2012
FRASES "REALISTAS"
Os místicos são os maiores mestres da criação de mitos...
A vaidade de um crente não tem limite; pois acreditar que um deus o elegeu para receber uma graça é o cúmulo da arrogância...
O nada, nada é — sem o ser que pergunta por ele...
Deuses "existem" porque são invisíveis e criados pela imaginação...
No paraíso pode-se fazer tudo o que não se pode fazer aqui no plano terreno. Eis o poder da imaginação...
A maioria dos seres humanos já está no inferno; pois está na prisão de "fogo" da sua imaginação, criadora de crendices — mas acredita que será "salva"...
Se um ser humano é capaz de amar o que está além do próprio umbigo, então ainda tenho esperança de encontrar a minha fada madrinha...
O demônio, comparado à humanidade, é um belo anjo... Ainda bem que não acredito em ambos!
Multiplicai-vos, baratas e escorpiões — pois o mundo será de vocês!
Buscar o que se desconhece é a entrada do labirinto...
Quem percebe a própria arrogância está a caminho da humildade...
A humanidade é o demônio em carne e osso...
O louco pensa que a sua loucura é a própria realidade — assim como o crente fanático não percebe que a sua loucura não é a realidade...
O neoliberal acredita tanto na liberdade do mercado que já ficou escravo do deus mercado!
Muitos acreditam em Deus; todavia, por segurança, não abrem mão da psiquiatria e das suas receitas farmacológicas!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O QUE É A JUSTIÇA?

Terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O QUE É A JUSTIÇA?
O que é a Justiça? Alguém sabe o que é ela? Duvido! Há tantas respostas quanto os interesses em jogo para uns — para outros, a Justiça é relativa; ou seja, depende do contexto histórico, cultural, econômico, social e político de um povo, de uma civilização, etc. Para outros tantos, a Justiça existe e é objetiva; portanto, existe como algo essencial na própria estrutura do Universo. Alguns, como Platão, por exemplo, pensam que a Justiça existe num mundo à parte, como uma espécie de paradigma ou modelo para este mundo das sombras e aparências — ou seja, o nosso mundo...
A meu ver, a Justiça não existe neste mundo... A começar pelos símbolos da justiça, tão belos como imagens e conceitos e muito feios na prática. Quais são os símbolos? Uma mulher com uma venda nos olhos (em tese, representa a imparcialidade e a neutralidade) e um outro símbolo é representado por uma balança em equilíbrio (em teoria, representa a igualdade dos homens perante as leis). De fato, o primeiro símbolo representa aqueles que não querem ver as "injustiças"; o segundo, um desequilíbrio da Justiça, pois na realidade os pratos da balança deveriam estar em desnível! São bonitos, muito bonitos, mas são só ideais, nada mais... Mormente na maioria dos países onde a Justiça é esta: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”! “Sabe com quem você está falando”? Pois é!
A "Justiça" é a lei do mais forte — seja na natureza, seja na "sociedade dos homens racionais". No primeiro caso não é necessário entrar em detalhes; no segundo, é a força das armas e da tecnologia militar com o seu poder de destruição. Sem contar a velhacaria da mídia, quase sempre a favor da "justiça" de belas palavras e a manipulação descarada a favor de uma democracia de fachada.
Procurar Justiça neste mundo é tão ingênuo quanto acreditar no "bom velhinho", o senhor Papai Noel. E acreditar que ela possa existir num outro mundo é viver de esperança — a anestesia dos pobres e dos crentes no além-túmulo.
No Brasil, por exemplo, a senhora com a venda nos olhos simbolizando a Justiça — com raras exceções — representa a cegueira de quem não quer ver as constantes injustiças cometidas contra os mais necessitados e humildes; por outro lado, demonstra que a Justiça é quase sempre feita a favor dos ricos, que pagam excelentes advogados, enquanto os pobres desconhecem os seus direitos e quase sempre dependem de um defensor público; quando conseguem encontrar um, ainda ficam agradecendo como se fosse um favor pessoal e não um "direito". Eu poderia dilatar este assunto para todas as demais esferas humanas, da política à economia, mas não há necessidade. A balança? Pesa sempre do lado do "direito" da "direita".
O que fazer? Viver de esperança e continuar lutando para que o homem seja bípede e racional. Quem sabe um dia... Até agora, apenas trocamos as clavas das cavernas pelas bombas, que fazem a Justiça não com o bom senso, mas com ameaças e a força bruta do poderio militar. Os símbolos da "Justiça" neste mundo deveriam ser: o dinheiro, os tanques, os canhões e as bombas atômicas! Amém!
Pobre planetinha Terra e os seus ingênuos habitantes, a maioria ainda acredita em comédias... Eu? Estou na arquibancada...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O QUE É A VERDADE?

Terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O QUE É A VERDADE?
O que é a "verdade"? Eis uma pergunta que existe desde a mais tenra aurora da Filosofia. Muitos já morreram e tantos outros já mataram em nome de uma suposta "verdade". Penso que, quando alguém diz que fulano de tal quer ser o dono da verdade, há um equívoco de interpretação conceitual. Aliás, a Filosofia deveria se preocupar em fazer uma terapia da linguagem.
Um dos maiores filósofos do século XX, o austríaco Wittgenstein, já nos alertava para tal fato. Ele dizia que muitos problemas filosóficos são pseudoproblemas que podem ser resolvidos ou dissolvidos apenas com uma boa análise da linguagem e da gramática. Concordo com ele...
Para o nosso texto aqui, vou tentar distinguir o conceito de "verdade" do conceito de "verdadeiro". A meu ver, muitos erros e equívocos da História da Filosofia poderiam ser evitados se tivéssemos prestado mais atenção na diferença entre eles. Por exemplo, quando digo que um quadrado tem quatro ângulos, posso afirmar, categoricamente, que daqui a milhões de anos (se houver seres humanos) tal verdade será reafirmada. É uma verdade necessária e universal. É uma verdade lógica, não depende de interpretação — a não ser num ceticismo radical, que costuma argumentar que um gênio maligno poderia nos enganar, nos mostrando um quadrado com quatro ângulos quando, na "verdade", ele teria cinco lados. Penso que a maioria das pessoas não defenderia uma tese tão absurda como a supracitada, não é mesmo? Em outras palavras, a lógica e a matemática nos dão uma verdade peremptória. A verdade, então, é um ente de razão — uma razão inventada pelos seres humanos, pois eu não defendo a tese de que a matemática faça parte da própria estrutura do Universo. Mas isto é uma outra discussão...
A "verdade" só pode ser lógica, matemática e, portanto, abstrata, universal e necessária. Ela é atemporal e definitiva. Eis o grande problema: o que eu vou fazer com tal "verdade"? Resolver problemas lógicos e matemáticos! Mas a vida se resume em problemas de tal natureza? Não. A vida não é congelada e estática. A vida é dinâmica, é movimento, é um processo que não pode ser enquadrado dentro de esquemas lógicos rígidos. A vida existe num espaço, num tempo; a vida é muito mais do que a invenção da lógica — a vida é ontológica.
A "verdade", então, por estar num mundo que contém o ser humano, não pode ir além daquilo que é o "verdadeiro". O conceito de algo verdadeiro é limitado; é temporal e finito. O verdadeiro, neste sentido, é humano; e o que é humano é sempre provisório. Muitas teorias científicas hoje são verdadeiras; mas, daqui a alguns anos, décadas ou séculos, continuarão a ser? Não. Mostrar-se-ão falsas. Novos modelos, paradigmas, conceitos, experimentos, mudanças culturais e históricas nos mostrarão o quão humildes e limitados são os seres humanos.
O "verdadeiro" é a única "verdade" em um mundo que vai muito além de uma lógica que confunde o "mapa com o território". O verdadeiro lida com o movimento, portanto, com a vida no sentido mais amplo da palavra. A "verdade" é a morte da vida; o verdadeiro é a essência da vida... A primeira é a inércia; a segunda é o dinamismo e a eterna transformação.
Quem sabe se os filósofos antigos tivessem prestado mais atenção ao filósofo Heráclito e menos a Parmênides e Aristóteles, não conceberíamos a vida de uma forma completamente diferente? A metafísica antiga é um amor não pela sabedoria, mas um amor pela morte. Por quê? Porque sempre valorizou o imóvel, o estático — ou seja, o imutável — como o fundamento daquilo que muda. Em outras palavras, como pode a essência (o imutável) ser a causa da aparência, do que muda? Mudemos isto: a aparência (o dinamismo) é o verdadeiro; a essência (o estático) é "verdade".
Qual é a "conclusão"? Penso que o verdadeiro é isto: a "verdade" é a morte — o verdadeiro é a vida; a "verdade" é universal — o verdadeiro é singular; a "verdade" é lógica — o verdadeiro é ontológico. A "verdade" é abstrata — o verdadeiro é um mergulho no oceano vital; a "verdade" é a essência morta — o verdadeiro é o mundo enquanto fenômeno existencial... Contraditório? Então preste atenção nisto: a mentira é "verdade". A mentira é mentira. Descubra por você mesmo(a) o que está certo ou errado nas frases acima, pois eu não vou dizer. O motor da vida é a contradição. Basta ver um ser humano agindo: grandes "verdades" e atos que envergonhariam os animais se eles tivessem consciência moral...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O FILÓSOFO!

Segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O FILÓSOFO!
Neste blog refiro-me com frequência à Filosofia e demais áreas correlatas; contudo, é necessário me voltar para o filósofo. Quem é o filósofo? Não desejo escrever sobre a etimologia da palavra Filosofia. Gostaria de refletir sobre o concept de filósofo; todavia, busco algo que vá além dos dicionários e do senso comum.
Um filósofo é quem estuda Filosofia numa faculdade? É alguém que, depois de graduado, torna-se professor nos vários níveis de educação? É aquele que faz um mestrado? Seria quem faz um doutorado com uma tese original? O que significa ser original — principalmente quando buscamos um filósofo na rica História da Filosofia e fazemos uma leitura totalmente diferente ou mesmo uma crítica considerada única e, portanto, "original"? Mas como ser original nos baseando no trabalho de outros filósofos? Pode ser alguém que nunca frequentou um curso formal de Filosofia? No passado era muito comum; afinal, os filósofos antigos não frequentavam faculdades de Filosofia e nem recebiam um diploma. Em última análise, quem está autorizado a conferir um título de filósofo a alguém?
Fico perplexo com a Filosofia; pois, até mesmo para decidir quem deve ser chamado de filósofo, não há consenso. Um psicólogo é quem faz Psicologia; um sociólogo é quem faz Sociologia; um médico é quem faz Medicina — mas por que quem estuda Filosofia numa faculdade não é chamado de filósofo também? Não há consenso nem sobre o que se entende por Filosofia...
O senso comum chama de filósofo quem pensa em coisas estranhas, abstratas e que parecem não ter conexão com a vida cotidiana, com o “mundo real”. É até compreensível; pois dificilmente alguém que não estuda Filosofia problematiza sobre o que é o "mundo real". Há muitos outros profissionais que se referem a quem é formado em Filosofia de uma forma pejorativa. Veem as pessoas da área como aqueles que ficam "filosofando" sobre o sexo dos anjos, que viajam num mundo onde a única realidade são as ideias; pensam que a Filosofia é muito teórica, outros acham-na inútil, etc. Mas, para quem pensa que inútil é tudo aquilo que não seja dinheiro e bens materiais, então para o filósofo não tem muita importância. Há filósofos complacentes com esse tipo de mentalidade tosca e infantil.
A meu ver, o filósofo é um apaixonado pelos pontos de interrogação, exclamação e as reticências. É a pessoa que faz perguntas simples, mas de uma complexidade profunda sobre a vida, o mundo, a natureza, a história, a política, a ética, a cultura, a beleza, a justiça, a ciência, a religião, o conhecimento — ou seja, sobre o conjunto de tudo o que existe, mas não sem antes perguntar sobre o que deve ser entendido por existência. A Filosofia é muito complexa — e, como há muitas doutrinas filosóficas, ela mais parece uma Torre de Babel.
O filósofo é um amante da sabedoria, da angústia e do desespero; gosta do abismo e da escuridão — e a sua arma é a luz da Razão, da inteligência e da reflexão. A angústia e o desespero vêm por causa da natureza da Filosofia. Uma pessoa que passou incólume pela Filosofia pode ser um excelente citador de filósofos, pode ser um grande erudito; mas, não mergulhou profundamente nos principais problemas humanos e, portanto, existenciais. O filósofo estuda muito e, quanto mais estuda, descobre que não desvelou quase nada. A diferença é que ele sabe que sabe muito pouco, por isso quer saber mais. O filósofo é também um desvelador das máscaras ideológicas e alienantes; mas, isso só é possível quando ele não está alienado na defesa de doutrinas filosóficas que defendem uma classe social em detrimento da Humanidade...
Um filósofo é uma dinamite de ideias: faz uma pergunta aqui, ali e acolá; ensaia algumas respostas, mas nunca fica satisfeito com elas. Por outro lado, os questionamentos filosóficos parecem abstratos; mas, não se enganem, quem já encontrou um grande filósofo no seu caminho será marcado por ele definitivamente — num plano bem concreto, pois a pessoa muda a sua maneira de pensar, sentir e agir.
O filósofo incomoda; é alvo de inveja, maledicências, perseguições e ciúmes. As pessoas o respeitam, de uma forma ou de outra; mas, não é incomum a desqualificação moral, mormente quando ele não está presente. O filósofo é considerado perigoso e semeador de discórdias; porque quem faz muitas perguntas abala as certezas dos donos do poder e das massas ignaras. Como a maioria das pessoas prefere ser guiada, visto ter uma "mentalidade de rebanho", o filósofo não é bem visto. Ele é respeitado, mas quase sempre isolado. Não é fácil conviver com um filósofo; e, mais difícil ainda é a convivência dele com a maioria das pessoas. A impressão que se tem é que são habitantes de planetas diferentes.
Uma das rejeições que o filósofo mais sofre é a acusação de ateísmo. Mas ele sempre pergunta: “A qual deus(es) você se refere”? Pronto! A confusão está armada! Para o filósofo é apenas mais uma pergunta; todavia, para os crentes, em geral, isto é um absurdo. E, normalmente, o que um filósofo compreende como ateísmo é completamente diferente do que supõem os crentes. Em outras palavras, eles não falam a mesma língua. Por quê? Porque o filósofo busca compreender a totalidade da cultura humana; e, neste sentido, os homens já acreditaram e acreditam em milhares de deuses. Quem tem razão? O filósofo quer saber também... Ele parece um habitante de um outro planeta, porque faz deste mundo um lugar estranho, desconhecido e inóspito... Ele sempre pensa que algo lhe escapa...
Por ser um questionador radical — no sentido de ir à raiz dos problemas —, o filósofo é tido como alguém metido a saber mais do que os outros quando, na verdade, ele não tem respostas prontas, e as respostas tornam-se novos problemas. Mais: ele quer saber até o que uma pessoa entende por "problema". No é de admirar, portanto, que ele seja considerado um "doido", um "aloprado" e outros adjetivos pejorativos. O que ele faz diante dessas acusações? Pergunta: “O que é ser doido”? “O que é ser aloprado”? “Ser normal é quem vive como gado”?
O filósofo se distancia do mundo — não tanto fisicamente, mas intelectualmente. É uma distância estratégica para melhor se aproximar! A meu ver, o filósofo deve ter um compromisso com a vida nas suas várias dimensões: a reflexão filosófica não pode ficar restrita à Academia. A práxis é a palavra de ordem. Ele deve ter paciência para trocar ideias e participar dos problemas da sociedade sempre que possível. Afinal, a capacidade de elucidar conceitos e contribuir com algumas sugestões fazem parte da reflexão filosófica. Bom, eu entendo assim...
O filósofo brinca com os conceitos como uma criança se diverte com os brinquedos; ele se parece com uma criança ao fazer tantas perguntas — o que os distingue é que a criança aceita a resposta de um adulto, inocentemente, como se fosse uma verdade peremptória (definitiva); o filósofo, por sua vez, faz perguntas, mas não há ingenuidade nelas. Há o desejo de se aprofundar, de ir além!
Um filósofo busca o óbvio incessantemente, porque sabe que o "óbvio" não é tão óbvio. O óbvio é evidente para os tolos. Para o filósofo, o óbvio não tem obviedade. O que é obviedade? Se alguém descobrir, estou muito interessado — mesmo que eu nunca tenha me considerado um filósofo, apesar de eu gostar muito de fazer umas “perguntinhas ingênuas”, mas que já implodiram e explodiram muitos dogmas em vários campos do conhecimento, das ideologias e das crenças supersticiosas. Eu não quero muito, desejo apenas um pouco de sabedoria...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 16 de outubro de 2011

O CAPITALISMO É "CAPETALISTA"!

Domingo, 16 de outubro de 2011
O CAPITALISMO É "CAPETALISTA"!
Eu sempre fui um crítico do sistema capitalista, e em todos os anos que estive (e ainda estou numa sala de aula), os alunos riam muito quando eu chamava o sistema capitalista de "capetalista" — sim, é o próprio diabo, de carne e osso, que destrói tudo: transforma objetos e pessoas em simples mercadorias descartáveis, pois os objetos não têm valor de uso, mas de troca. Ainda hoje alguns ex-alunos, ao me encontrarem, brincam a respeito do que eu dizia.
Gostaria de escrever um pouco sobre este assunto; pois sempre disse também que não se deve enfrentar o inimigo quando ele está mais forte, porque a derrota é quase certa... A meu ver, o inimigo, de tanto ganhar, já não tem tanta força. E a internet — grande ironia, instrumento para o avanço do capital globalizado —, desta feita, também serve de ponte para a voz do povo. Ela é a voz de um mundo sem fronteiras. Pois é...
Estamos vendo os jornais e demais mídias, perplexos, noticiarem as manifestações que varrem o planeta contra o sistema capitalista. O interessante é que tais protestos começaram justamente nos países mais beneficiados pela riqueza capitalista. Há protestos em vários países do Oriente Médio e da África também; entretanto, a meu ver, por motivos diferentes. Os primeiros querem a "saída" do capitalismo (tomara); os segundos desejam a entrada na "liberdade democrática" e nas promessas do Reino dos Céus na Terra feitas pela propaganda capitalista. Estão um pouco atrasados, não? Parece-me já ter ficado claro que o sistema capitalista atual é o "Reino do Inferno" para quase todas as pessoas no mundo. Ele é muito bom para uma minoria — a tal minoria que distribui desgraças pelo mundo em busca de dinheiro, onde o infinito é o limite, e ainda quer que o povo pague a conta. Tudo muito engraçado, não?!! O que está em jogo não é só o sistema capitalista, mas a sobrevivência do nosso ex-lindo planeta azul. A nossa casa — até mesmo a casa dos defensores do capital!! Se eles não têm responsabilidade...
Quando os grandes conglomerados financeiros e industriais se tornam maiores que os Estados, os acontecimentos que ora presenciamos não poderiam ser diferentes. Os profetas da propaganda capitalista, defensores de que o deus mercado regula tudo, por que agora querem que os Estados paguem a conta com o dinheiro do povo? De novo? Todas as outras crises não foram suficientes para que as marionetes do capital (os politiqueiros de plantão) aprendessem a lição? O povo produz tudo, consome menos do que deveria (muitos não têm um prato de comida), tem serviços públicos geralmente muito ruins; mas que, entretanto, se não fizer nada, pode ficar numa situação muito pior.
Nos momentos de crise o capital avança e faz o Estado mostrar a sua verdadeira face: a de que sempre foi uma extensão dos interesses capitalistas. A maioria dos políticos foi e ainda serão agentes vestidos com as máscaras do interesse público; mas, na verdade, estão a serviço do capital. Vou dizer mais uma vez: não existe capital sem o suporte ontológico do Estado. As pessoas pensam que a esfera da produção (economia) é separada da esfera pública (política), mas isto é pura ilusão. São unha e carne. São a mesma coisa. Até mesmo no chamado "socialismo científico".
Vou dizer pela milésima vez: não há salvação deste planeta no atual modo de produção, pois estas crises vieram para ficar. Elas são estruturais. Os trabalhadores do mundo inteiro correm o risco de perder os parcos direitos trabalhistas que ainda têm. Não podemos e nem devemos pagar esta conta. Os jogadores deste imenso cassino global que paguem a fatura, ora. O povo ainda vai descobrir que só ele tem a força. E não me refiro à violência — de um modo pacífico, ficando em casa sem produzir durante 15 dias... Talvez, assim, as elites reacionárias vão aprender a nos respeitar.
A tecnologia tem que estar a serviço do povo e não pode ser instrumento da exploração e do desemprego das massas. Os pobres já estão acostumados à miséria e à esperança no Paraíso; todavia, parece que aqueles que estavam acostumados à riqueza no mundo material começaram a sentir na pele o que o "Terceiro Mundo" já sente há muito.
A saída? O ideal seria o bom senso, mas nunca vi o capital abrir mão do lucro! O dilema? O capital sem fronteiras e Estados nacionais. Em última análise, será que o capital está buscando uma forma de implantar um Estado único? Afinal, quem segura o capital? Que a voz do povo seja a voz não de deus, mas do próprio povo. Infelizmente, a maioria daqueles que falam em nome de Deus são instrumentos do capital também!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 2 de outubro de 2011

FILOSOFIA DA MENTE: O MATERIALISMO ELIMINATIVO

Domingo, 2 de outubro de 2011
FILOSOFIA DA MENTE: O MATERIALISMO ELIMINATIVO
Eu sou um neófito em Filosofia, apesar de estudá-la há uns trinta anos. Gosto de vários temas filosóficos, e um deles é a Filosofia da Mente. Vou tentar desenvolver brevemente uma das muitas teorias da mente — afinal, sou apenas um "curioso no tema". Eu pretendo estudar mais sobre o assunto e, de vez em quando, colocar algum texto neste blog. Hoje vou escrever um texto bem básico sobre o “materialismo eliminativo”. Esta teoria ganhou força a partir da década de 80 com o casal Paul e Patrícia Churchland. Não conheço quase nada sobre eles.
O materialismo eliminativo dá ênfase à neurociência. Os defensores desta teoria preconizam que, à medida que a neurociência progredir, a psicologia tenderá a desaparecer do cenário de explicação dos fenômenos mentais. Por exemplo, os sonhos — tão caros às várias correntes psicológicas — serão "explicados" apenas como processos puramente bioquímicos no cérebro.
Desejos íntimos dos sonhos? Fenômenos bioquímicos; portanto, de natureza física, material, nada mais. Evidentemente que outros processos subjetivos mentais também entrarão numa era primitiva, segundo o "materialismo eliminativo". Consequência: o próprio conceito de mente sumirá como num passe de mágica.
Diante de algumas leituras e de reflexões bem preliminares sobre o assunto, eu não poderia deixar de mencionar algumas considerações que chegam a ser bem caricaturais. O que será da profissão de psicólogo? Pior: o que será dos padres e dos pastores que adoram exorcizar demônios que supostamente tomam os corpos das vítimas? Sumirão todos os capetas? Em vez de palavras de ordem aos demônios em nome de Jesus, bastarão alguns comprimidos receitados por psiquiatras?
Sinceramente, não sei se o materialismo eliminativo conseguirá descobrir, através do mapeamento e do conhecimento do cérebro, a solução de todas as disfunções biológicas cerebrais; penso que é um reducionismo muito grande; entretanto, alguns sofrimentos mentais não podem esperar anos e mais anos pelas diversas correntes psicoterápicas. Neste sentido, os medicamentos são muito bem-vindos. Aliás, grande parte das doenças mentais já são bastante amenizadas com os medicamentos disponíveis atualmente. Doenças como o Toc, por exemplo, que trazem enormes sofrimentos aos seus portadores, são tratadas com sucesso pelos psiquiatras. Mas não sei até que ponto seremos simples zumbis... Alguém está feliz? Por quê? Porque encheu a pança de comprimidos que, por sua vez, deram uma retificada no cérebro... Penso que, se assim for, sentiremos saudades daquelas angústias e crises existenciais!
Algumas perguntas que não querem se calar: por que entra a história de vida do indivíduo em tal teoria? E as relações sociais, econômicas, culturais e políticas, não contam? Apenas terapias genéticas resolverão todos os problemas "psicológicos" de um ser humano? São os pensamentos desarmônicos que causam as disfunções biológicas ou são as disfunções biológicas que causam os pensamentos desarmônicos?
A meu ver, o ser humano tem um longo caminho pela frente. De minha parte, quero ser feliz neste mundo; mas, não quero ser um robô feliz sem saber o porquê sou feliz... Por outro lado, como explicar os filósofos estoicos e o total domínio das emoções que eles desenvolviam, pois naquela época não havia antidepressivos? E os iogues indianos, por acaso, tomam fluoxetina? Pois é... A quem interessa a ideia de que não temos escolhas?
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O FENÔMENO RELIGIOSO E A ALIENAÇÃO DO MUNDO!

Sexta-feira, 9 de setembro de 2011
O FENÔMENO RELIGIOSO E A ALIENAÇÃO DO MUNDO!
Estou refletindo há muito sobre o problema do fenômeno religioso e a alienação como um dilema que está relacionado ao modo de produção (economia), político (legitimidade do poder e do uso da força), cultural (saber e ideologia) e social (relações que os homens estabelecem entre si para a produção e reprodução da sua subsistência material). Vejo tantas pessoas tentando me convencer a ser uma pessoa espiritualista, como se elas tivessem recebido um download metafísico direto do Mundo das Ideias platônico. Sinceramente, a violência contra a Lógica deveria ser punida com rigor! A punição? A leitura de Karl Marx, Sartre, Nietzsche, David Hume, Feuerbach, Krishnamurti, Michel Onfray, Marcel Conche, Epicuro, Sexto Empírico, Jean Meslier, entre outros grandes filósofos lúcidos!
Além de apelarem para o plano espiritual e de inverterem a ordem do mundo, essas pessoas pensam que tais problemas são questões morais que dependem de uma mudança de mentalidade espiritual, etc. Eu não creio que as coisas mudarão dessa forma. A meu ver, o modo de produção não é apenas uma questão de economia — é uma questão ontológica. Por que ontológica? Porque é o fundamento, a base, a essência que faz o ser humano ser um ser humano, e não qualquer outra coisa. Eis o nosso dilema...
Somos o que fazemos e como fazemos. Se o homem se encontra alienado naquilo que é fundamental (o modo de produção), o que podemos esperar? Uma intervenção divina? A ajuda de espíritos ou almas evoluídas? Isto é a tal inversão do mundo que eu sempre critiquei. É uma ideologia perigosa porque transfere a felicidade para um outro plano; ou seja, o além. Eu não sei se existe o além-túmulo. O único mundo que conheço é este: o mundo material. O problema é que essa ideologia é uma maravilha para quem explora a mão de obra alheia. Por quê? Porque Jesus disse: "O meu reino não é deste mundo". Se o reino dele não era deste mundo, e o Cristianismo é uma religião que domina o Ocidente, o que podemos esperar? Felicidade para os poderosos neste mundo e promessas vazias para os pobres num outro plano, "bem longe"...
Quem vence na vida foi abençoado por Deus; quem não vence pode esperar a felicidade no Reino dos Céus!! Quem vence na vida mereceu; quem não vence pode esperar que o seu dia chegará, mesmo que o país esteja mergulhado numa profunda recessão econômica! E o que é um problema que pertence apenas e tão somente a este mundo passa para um mundo que supostamente é transcendente. Eu quero ser feliz aqui e agora. E, se houver um outro mundo, quero ser feliz lá também.
O Brasil é um país com uma profunda tradição cristã; mas, compartilhar o pão fica só no discurso. Migalhas, nada mais! Até se veem carros com adesivos: "Foi Deus quem me deu". Já não é a economia "humana, demasiada humana" (obrigado, Nietzsche) quem gera empregos e renda — mas é uma bênção divina a quem supostamente merece mais do que os outros "filhos de Deus". Fico pensando o porquê essas bênçãos não chegam à África, onde a maioria das pessoas nem está pensando em carros, mas apenas num prato de comida... Pois é!
Eu queria ter a capacidade de analisar o discurso das pessoas e acreditar. Mas eu não analiso apenas palavras — observo comportamentos. É claro que o Brasil está bem melhor hoje do que há 20 anos; mas, daí a acreditar que estamos no paraíso? Este país é um paraíso para uma minoria. Estes, sim, não têm o que reclamar. O que estou me referindo sobre o Brasil serve para a maioria da população mundial.
Gostaria de pegar um economista liberal pelas mãos e levá-lo a algum lugar no Brasil, talvez muito parecido com a Etiópia. Eles enxergam muitos números, veem seres humanos como "despesas". Mas não preciso de números para ver que este país ainda está engatinhando rumo à democracia formal e abstrata — imagine a estrada para uma democracia substancial, concreta... A miséria está por todos os lados; mas, para quem não quer enxergar, a miséria é tão invisível quanto um gari por quem passamos ao lado e não damos bom-dia. Eles são invisíveis, mesmo tendo um "corpo físico". Engraçado, acabei de me lembrar do Boris Casoy! Isto é incrível!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 7 de agosto de 2011

O QUE É A LIBERDADE?

Domingo, 7 de agosto de 2011
O QUE É A LIBERDADE?
A palavra liberdade é de uma beleza singular. Sempre que eu penso nela, lembro-me dos pássaros voando num belo céu azul; das crianças brincando na areia e fazendo algazarras com a inocência e pureza que lhes são peculiares; dos cachorros e dos animais em geral "reproduzindo" as respectivas espécies sem culpa e vergonha; enfim, lembro-me da natureza com todas as suas belezas e horrores!!
Todavia, no parágrafo acima, a maior parte dos exemplos foi tirada da observação humana a respeito da natureza. As crianças não são apenas parte da natureza — elas aprendem regras, valores e normas; por isso, são também seres culturais. Se fosse possível deixar as crianças à vontade, provavelmente cresceriam e se desenvolveriam sem culpas, remorsos e arrependimentos. Elas seriam "livres". Será? Eis o dilema humano. Encontramos no ser humano uma cisão, uma ruptura, um distanciamento da natureza. Ao criarmos uma moral, uma ética e as leis, somos "forçados" a agir de acordo com os costumes e o aparato jurídico da sociedade em que estamos inseridos. Como, então, o homem pode se referir à liberdade? O que é a liberdade?
Há tantos conceitos de liberdade quanto o número de pessoas capazes de inventá-los e reinventá-los. Não tenho a pretensão de ter a última palavra sobre o assunto; mas, vou tentar definir um conceito que me "agrada". A liberdade é a capacidade de o homem ser o senhor das situações dentro das suas possibilidades e limites. E, quando me refiro à liberdade, estou me reportando a escolhas. O conceito de liberdade, uma teoria sobre a liberdade é tão fácil... O difícil é colocá-lo em prática; pois não existe liberdade apenas num plano intelectual, porque são as atitudes, os comportamentos e as ações humanas que vão conferir significado ao conceito, e não o contrário.
Muitos filósofos se debruçaram sobre o assunto; entre eles, cito Kant e Sartre. O primeiro preconizava que pôr um limite às paixões e aos desejos humanos através da razão é ser livre, pois o homem não é apenas natureza, mas também cultura. O homem livre, portanto, é aquele capaz de se impor limites, transcender os imperativos naturais; pois a razão é patrimônio universal; logo, devemos tratar o homem sempre como um fim em si mesmo, e não como um meio. Kant dizia que devemos dizer a verdade em quaisquer situações, etc. Evidentemente Kant escreveu muito mais a respeito da liberdade no seu livro Crítica da Razão Prática. Mas não é minha intenção aprofundar neste assunto. Não vou escrever sobre o imperativo categórico kantiano. Fica o registro, neste texto, para futuras pesquisas dos interessados.
Sartre é o filósofo da liberdade por excelência. Não só por ter escrito muito sobre o assunto, mas por ter agido, segundo relatos que li, de acordo com a liberdade que preconizava. Aliás, Sartre fazia apologia de uma liberdade absoluta. Ficou famosa a sua frase: "A existência precede a essência". Para Sartre, o homem não tem a essência da liberdade! Sartre inverte os conceitos de essência e existência porque ele fica "livre" da ideia de Deus. Para o filósofo existencialista francês, primeiro o homem existe no mundo, depois se define conforme as suas ações. Sartre não separa a teoria da prática. Ao escolher (agir), o homem realiza a sua liberdade e os seus projetos. O homem não é mais do que aquilo que ele faz. Sartre foi um dos ícones do Existencialismo, corrente filosófica contemporânea de meados do século XX.
A meu ver, não é fácil ser livre. A liberdade humana carrega um "fardo de aço" de responsabilidade. Ser livre, teoricamente, é muito fácil. O difícil é realizar a liberdade em ato. Ser livre não é só a ausência de um obstáculo físico — ficar preso numa cadeia, por exemplo. Penso que a maioria das pessoas está presa, mesmo em uma suposta liberdade de "ir e vir".
Como ficar livre dos desejos mesquinhos, das crenças e superstições infundadas, do medo da morte, da culpa, do remorso e do arrependimento? Como ser livre numa época em que queremos ter o último carro do ano (não tenho carro e ando de ônibus, não sei dirigir e nem sei se vou aprender um dia), dos celulares, televisores, computadores, roupas de grife, relógios caros? Como ser livre do desejo de posse do companheiro(a)? Como ser livre dos meus próprios fantasmas psicológicos e emocionais? Como ser livre dos deuses que criamos — e esquecemos que fomos nós quem os inventamos? Como ser livre da propaganda consumista que nos escraviza a todos? Bom, eu poderia citar vários outros exemplos, inclusive os relacionados à depressão. Entretanto, este texto precisa ter um fim! Pois é...
Penso que, antes de qualquer coisa, devemos ser livres ao menos para ter a paciência de refletir sobre a liberdade; pois as pessoas procuram tantas distrações que morrem de medo de mergulhar na própria "alma". De minha parte, preciso refletir muito sobre a tal liberdade. Se eu conseguir ficar livre de muitos preconceitos, já me sentirei um vitorioso. Dentro do possível, sou livre da maioria das crenças, desejos e superstições que atemorizam a maioria dos seres humanos. Se a razão e a força de vontade não podem tudo, eu, felizmente, só posso contar com elas... Não me sinto livre para fazer tudo o que desejo, mas sou livre para não fazer tudo o que desejo! Paradoxal? O homem é um ser paradoxal por excelência, ora!!! Não temos desculpas; mas sempre as inventamos para não termos que escolher — afinal, dói tanto a angústia da liberdade, não é? Imagine a situação de Sócrates...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO