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quinta-feira, 14 de abril de 2011

O QUE É A REALIDADE NATURAL E PSICOLÓGICA?

Quinta-feira, 14 de abril de 2011
O QUE É A REALIDADE NATURAL E PSICOLÓGICA?
O que é a realidade? Seria muita pretensão, por parte de um ser humano finito e limitado, tentar definir a natureza do real. Entretanto, não custa fazer uma pequena reflexão sobre o tema. Este texto baseia-se numa cosmovisão oriental do mundo, principalmente na leitura do pensador indiano Krishnamurti; todavia, é uma reflexão pessoal minha — portanto, é apenas uma pequena contribuição para um tema profundo e fascinante. Estou "engatinhando" nesta floresta densa e escura... Bom, comecemos...
O que é a realidade? É movimento incessante. A vida é movimento, fluidez, dinamismo: é como se fosse um rio que, ao deparar-se com um obstáculo, o contorna e continua. Assim são os pensamentos. O conflito vem quando queremos ser diferentes do que somos. Isso explica a metafísica grega antiga e o nosso desejo de estabilizar e enquadrar as coisas num conceito! Se tivéssemos seguido Heráclito, talvez a forma de vermos o mundo seria totalmente diferente. Queremos segurança. Não nos conformamos com o movimento. Não queremos perder. Queremos apego. Queremos controlar tudo. E a vida é dinâmica, particular, concreta. Por isso, não podemos achar que as ideias e os conceitos — ou seja, os símbolos — sejam mais importantes que o real. O real é muito mais rico e complexo do que supõe a nossa vã filosofia. O que é a crença? Um apego e um desejo de tornar o que é essencialmente movimento e impermanência em algo estático e permanente. Desejo de segurança — nada mais que isso. Desejamos fazer um monte de coisas, mas não percebemos que é fuga. Fugimos o tempo todo de nós mesmos.
Não queremos esse confronto. Não queremos saber que somos a inveja, os ciúmes, o medo, a insegurança, o ódio, o amor, a raiva, o desespero, a felicidade e a infelicidade; enfim, somos tudo isso. Compreende-se o porquê essa história de inconsciente não se sustentar. O inconsciente nada mais é do que memória e lembrança. Para que preciso dividir a mente? Não há separação. Existe, sim, uma ilusão de um "eu". Se o "eu" fosse separado de mim, bastaria não me identificar com os meus supostos pensamentos e sentimentos. Assim, ficaria livre das neuroses e psicoses de todos os tipos. Mas, quando acontece qualquer coisa, todo o meu ser sofre ou se alegra. Não há separação mente-corpo. Sócrates, Platão e Descartes foram os responsáveis por essa forma de pensar; ou seja, separar uma suposta alma do corpo.
O "eu" é justamente essa organização e capacidade de articular as coisas. Só que, ao fazer isso, ele é diferente de mim? Claro que não. Ele não passa de passado e lembrança. Se penso, falo e ajo no mundo, é porque antes eu tenho isso como memória e lembrança. Caso contrário, como poderia reconhecer o que não conheço? Tanto é assim que, se tenho uma experiência, ela vira memória e lembrança. Mais um "eu". Ao querer repetir, ficarei desapontado, porque nunca mais terei a mesma experiência. O prazer que tive ontem ou a dor nunca mais serão iguais. Sempre que queremos fazer o mesmo, advém a dor. O prazer contém a dor. Não são opostos. Fazem parte de uma mesma escala, porém em graus diferentes. Esta frase ilustrará o que quero dizer: “Era feliz e não sabia”. Por quê? Porque só se pode ser feliz em ato. Quando penso em repetir a mesma experiência, não conseguirei. Tudo não passará de memória.
Cada experiência é única, pois a vida é dinâmica. São os apegos que nos fazem sofrer. Se olhasse para todas as coisas como se fosse a primeira vez que as estivesse vendo, não teria memória e lembrança; logo, o novo surgiria. Outra: dizemos que temos medo do desconhecido. Falso. Temos medo de perder o conhecido. Se não conheço, como posso temer? É a suposta segurança que tenho quem me faz ter medo de perdê-la. Se aprendêssemos a morrer todos os dias — simbolicamente —, para as coisas do mundo, então teríamos uma outra relação com a existência. Como se pode ver, estamos muito longe disso. Eu sei que isso é verdadeiro, mas o meu centro não quer ser o conjunto de tudo.
Se existisse um "eu" separado de nós e que não se identificasse com os nossos pensamentos e sentimentos, logo não teríamos neuroses e todo tipo de doenças psicológicas e emocionais. Bastaria estarmos separados. Isso acontece? Não! Todo o meu ser sofre. É a interação mente-corpo que dissera antes... Isso não significa abrir mão do mundo. O mundo está aí para ser usufruído. A natureza é bela e nos oferece tudo o que precisamos. Usufruir, sim; possuir, não. Os animais usufruem — ou alguém teria coragem de dizer que um animal rouba alguma coisa da natureza? O engraçado é o ser humano dizer que os animais são irracionais! Nós somos tão racionais que "saqueamos" a natureza para acumularmos bens e sofrimentos! Afinal, desde quando escravos de bens materiais são felizes?
Podemos ter uma vida plena e feliz. Não a temos por causa desse desgraçado do "eu" — gerador de uma falsa segurança psicológica e que, na verdade, gera todo tipo de apego e posse. E apego é sinônimo de sofrimento. Olhe o sistema vigente de acumulação de capital. Não dá para separar as coisas. Tudo está interligado. Nós e o universo somos um. Somos a própria existência. A existência é neutra; portanto, nada tem a ver com um Deus pessoal separado do universo. Aliás, na Bíblia, Jesus disse: "Eu e o Pai somos um". Pois é...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 23 de março de 2011

Educação: Filosofia e Sociologia no Ensino Médio

Quarta-feira, 23 de março de 2011
Educação: Filosofia e Sociologia no Ensino Médio
Fiquei indignado ao ler um texto desses especialistas de araque, filosofastros do ar-condicionado, a infeliz opinião de diminuir aulas de Filosofia, Sociologia, Arte e Educação Física. Mais? Afinal, Filosofia e Sociologia só têm uma aula semanal!! Cada um tem o direito de dizer o que quiser; todavia, devemos ter compaixão daqueles que não conseguem enxergar para além do próprio umbigo...
Mais uma vez vem essa ladainha de procurar o problema na moral e na força de vontade dos professores — os atuais bodes expiatórios do sistema. O problema não é moral, como costumam pensar muitos imbecis; a raiz do problema é ontológica. Quando digo que é ontológica, é porque a ontologia vai além da economia ou o modo de produção atual. A necessidade fundamental do ser humano é a sua subsistência material. O problema é ontológico porque sem produção e reprodução da vida material não há sociedade humana; mas isso não significa que a única alternativa que temos seja a exploração e o lucro desenfreado. Podemos fazer diferente. Tudo muito simples, quando se estuda as coisas em profundidade. A ideologia reacionária deste sistema perverso está fazendo "festa" na cabeça dos "especialistas de gabinete". Talvez as pessoas não percebam isso porque não sabem que a ideologia e a alienação são almas gêmeas — são verso e reverso da mesma moeda. Em outras palavras, ao não perceber a ideologia, a pessoa está alienada; e não percebe a alienação por causa da ideologia. Esta inverte a ordem do mundo; aquela transfere a sua consciência e a pessoa passa a ser comandada de fora. O alienado não é capaz de pensar e compreender a realidade em todas as suas dimensões: política, econômica, social, cultural e histórica.
As únicas disciplinas que podem ajudar a ampliar a visão de mundo, de um ponto de vista bem amplo, são a Filosofia e a Sociologia. Justamente as que muitos querem ver fora da escola. Hoje alguém preconiza diminuir as aulas; amanhã, vão preconizar que elas não servem para nada! Tenho pena dos nossos jovens...
Muitas pessoas têm a doce ilusão de que há uma total liberdade nas nossas escolhas!! Cada um faz o que quer? Tem certeza? Eu não pedi para ninguém fazer uma lavagem cerebral na minha cabeça quando eu era criança, me impondo valores, crendices e superstições religiosas; eu não pedi para ninguém me dizer opiniões que nem elas sabem que são apenas opiniões; enfim, dá para escrever um livro a esse respeito.
O mais "interessante" é isto: alguém acreditar que a educação é uma coisa e consumismo é outra. A educação está fora da sociedade? A escola não está no sistema? A escola, por acaso, não reproduz também os valores capitalistas? A escola não preconiza a disputa, a concorrência — inclusive entre os professores? O próprio ensino não é vendido? O que são as escolas particulares? São gratuitas? Estudar numa escola particular do ensino infantil ao médio não é status, enquanto a escola pública é sucateada? Menos as federais; porque lá, os cursos de elite, como Medicina, por exemplo, são para os ricos, não é mesmo? É...
Ser uma espécie de voz, de eco no deserto, é duro... Tento demonstrar que as duas disciplinas são essenciais para a compreensão da realidade em todas as suas dimensões. A educação é apenas parte dessa compreensão. Todavia, uma educação que abre mão da Filosofia e da Sociologia, com certeza, será empobrecida. Quantos acreditam que as aulas de Matemática, Física, Português, Biologia, entre outras, são mais importantes? Mas não são. Os jovens, e também a maioria dos adultos, precisam dessas disciplinas como uma pessoa que está morrendo necessita do ar. Não adianta as pessoas serem excelentes engenheiros(as), médicos(as), advogados(as), administradores(as) de empresas se elas não têm noções de cidadania, de raciocínio lógico (são vítimas das falácias e sofismas), ética e valores magnânimos que as façam ser seres humanos no sentido mais nobre desse conceito. Elas precisam ser mais do que consumidores. Necessitam saber distinguir quem é o sujeito e quem é mercadoria numa relação de consumo; visto que, atualmente, sujeito e objeto se confundem. Já não há seres humanos, apenas mercadorias descartáveis. Fica claro o porquê dessa antipatia gratuita contra a Filosofia e a Sociologia. Afinal, robôs não pensam, apenas executam, de acordo com a sua programação, o seguinte mantra: “Comprem”, pois essa é a única maneira de serem felizes!! As mercadorias valem mais do que a dignidade e o caráter... O importante é a embalagem!! Conteúdo mental? Nada disso. Os donos do sistema pensam por nós... Pensam para ganhar dinheiro, pois são escravos do próprio egoísmo.
O consumo deve ser sadio. A reflexão sobre quando, como e o porquê comprar deve fortalecer a nossa vontade, e não instigar o nosso condicionamento produzido pela fábrica de propagandas ilusórias. E o vazio existencial? Será preenchido com novas "comprinhas", em dez vezes sem juros, no cartão de crédito. Mas crédito não é o que entra na nossa conta? Na verdade, é um cartão de débito!!!
É urgente termos uma alternativa para a sobrevivência humana neste planeta. Este modo de produção perverso que destrói a natureza; que retira recursos naturais do planeta como se eles fossem infinitos; que acumula riquezas materiais como se as pessoas fossem levá-las para o túmulo; que preconiza a concorrência em detrimento da solidariedade e da cooperação... O que será dos nossos filhos e netos? Porque, a continuar assim, não teremos bisnetos.
A escolha é nossa. A natureza não precisa de nós. Assim como matamos as formigas, o mesmo será feito conosco: seremos varridos do "mapa". Se não for pela natureza, será por uma guerra atômica. Pobre, rico homem! Tão capaz de construir coisas belas e tão incapaz de controlar a sua própria ganância de poder e de destruição...
Eu disse também que não há seres humanos fora da sociedade e da cultura. Somos bichos com um verniz miserável de cultura. Entretanto, não fazemos uso da nossa racionalidade; porque, se fizéssemos, não seríamos presas fáceis de uma ideologia tão cruel com a natureza, a maioria dos seres humanos e com todo ser que vive... ainda...
Ainda bem que a natureza não precisa de nós. E ela fará o que tem de ser feito se nós não modificarmos a nossa forma de pensar, sentir e agir. Não sei se estarei aqui para ver isso acontecer, mas não posso pensar só em mi. Tenho filhas, quero ter netos, quem sabe bisnetos. Será possível isso? Com essa educação em nível planetário, que acha feio tudo o que não é novo e descartável, onde tudo se torna obsoleto da noite para o dia, as coisas só tendem a piorar. Não vai demorar e vamos começar a comer pedaços dos nossos celulares, computadores, carros, etc.; porque, a continuar assim, não haverá uma árvore em pé; não haverá um único rio; não haverá água potável e muito menos comida. Tudo será contaminado por essa sede de riqueza que eu não consigo compreender. Tanta ganância para quê? E depois as pessoas dizem acreditar em "Deus". Não acreditam em “Deus”, acreditam nos pequenos deuses que dão sentido à vida delas: celulares, mansões, sítios, fazendas, ações nas bolsas de valores, carros do ano, etc. Depois não reclamem!
Quero deixar claro que não faço apologia do socialismo ou comunismo, tal qual alguns regimes que já foram implantados no século XX. Babá estatal? Para quê e para quem? Não compactuo com ditaduras, sejam de "direita ou de esquerda". Sei que é preciso termos uma alternativa, mas não tenho a receita pronta. A única certeza que eu tenho é esta: o atual modo de produção colocará um fim à odisseia humana no planeta Terra...
A Filosofia e a Sociologia podem fazer muito pouco; porque concorrer com alienados, com a mídia e as propagandas, não é fácil. Mas pelo menos as pessoas não podem alegar que não foram alertadas. Eu tenho feito isso há 14 anos. A minha voz é um pequeno eco no deserto, mas ela vai continuar. Se não para mudar as pessoas, pelo menos direi algumas verdades que farão muitos "seres humanos racionais" sentir vergonha da sua ganância e sede de poder. Se somos mortais e temos tanta sede, imagine se fôssemos imortais?!! Acho graça!
"Rezemos", irmãos e irmãs, para os nossos pequenos deuses!! Amém!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ATEÍSMO E EXISTÊNCIA HUMANA!

Domingo, 20 de fevereiro de 2011
ATEÍSMO E EXISTÊNCIA HUMANA!
Deus, para mim, é uma questão existencial; não gnosiológica — ou seja, não tem nada a ver com conhecimento racional sobre Deus; visto que, a meu ver, a razão é do tamanho da dimensão humana. O resto é sonho do delírio humano... Não acredito em nenhum conceito de Deus. Eu digo isso o tempo todo, mas as pessoas fazem de conta que não leram; ou, se leram, preferem dizer o contrário do que afirmei. É a velha intolerância e preconceito daqueles que odeiam o mundo no discurso; entretanto, adoram o conforto do mundo... E a "mesada vem todos os meses"...
Quase sempre volto a este assunto; porque, infelizmente, por ignorância ou má-fé, muitos preferem distorcer o conceito de ateísmo. Desde quando o ateísmo é a negação de um Deus? Como posso negar a existência de Deus se não sei se existe tal ser? Se existe um Deus, como posso negá-lo? Como se pode negar a inexistência se não se pode negar o nada? Eu nego as crenças humanas em seres sobrenaturais; todavia, não invento uma crença que diz que deuses não existem. Afinal, "ausência de crença não é crença na ausência." Crenças, cada cultura inventa as suas, nada mais. O mais engraçado disso tudo é que a maioria das pessoas não sabe que também é ateia. Quem nunca viu um cristão questionar os deuses de outras sociedades e culturas? Tal atitude não é ateísmo com relação aos deuses alheios? E outras culturas, por acaso, não negam o Deus cristão? Estamos dispostos a colocar "Zeus" na conta de “historinha da carochinha”; mas, quando alguém faz o mesmo com os deuses e santos em que acreditam, a maioria perde a calma, em vez de analisar racionalmente tal possibilidade. A verdade nua e crua: todos somos ateus!!
Se as crenças em deus(es) fossem verdadeiras, teríamos apenas uma crença, não é mesmo? Uma única e, portanto, verdadeira para todos os habitantes da Terra. Mas é isso que vemos? No! Em nome das crenças nunca se viu tantas mortes e guerras. Por quê? Porque Deus é amor!!! Imagine se não fosse... Penso que o ateísmo — negação das crenças, dos conceitos limitados por parte de pessoas humanas a respeito de um ser divino ou seres divinos — o livra da culpa, do medo do inferno, da esperança de ser salvo. Dá-se mais valor à vida, porque é uma só; de fazer o bem pelo prazer de ajudar, não para ganhar o paraíso; de inventar os próprios valores, já que não existem valores predeterminados; de ser humano em todos os sentidos e não renegar os desejos mais ocultos; de estar em harmonia com a natureza e de saber que se faz parte dela; de aceitar os fenômenos naturais e mudar o que é possível; de saber que o que não posso explicar racionalmente não preciso inventar um ser imaginário, etc. Viver e ser feliz, porque a vida é única e bela. Si houver um Deus, ótimo, a vida continua; se não houver, excelente; não saberei que morri...
Em primeiro lugar, quero dizer que sou um humanista. Baseio minha vida em valores estritamente naturais. Não acredito em seres sobrenaturais: deuses, fadas, duendes, demônios, anjos, arcanjos, serafins, capetas, diabos, anjos caídos, anjos que subiram, unicórnios, elementais, astrologia e seus signos, poder dos cristais, macumbas, espíritos das trevas, espíritos de luz, almas encarnadas e nem desencarnadas, fogo do inferno e em nenhuma religião e seus supostos salvadores ou messias.
Acredito na finitude da minha razão, nos limites das minhas impressões sensoriais e na recusa radical de dar asas à minha imaginação, inventando deuses e tornando-me prisioneiro dos seus caprichos e ameaças. Não se preocupem comigo. Quando morrer estarei debaixo da terra. Mas quero fazer, nesta vida curta e finita, o que muitos só fazem no discurso. Para terminar: todas as minhas convicções são baseadas nas ciências e na Filosofia. Até que se prove o contrário, elas são as luzes da minha vida e do meu caminhar finito, mas solidário, fraterno e humano!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 29 de janeiro de 2011

CRÍTICA AO RACIONALISMO CARTESIANO!

Sábado, 29 de janeiro de 2011
CRÍTICA AO RACIONALISMO CARTESIANO!
Neste texto, gostaria de fazer uma crítica ao racionalismo cartesiano e a uma suposta linguagem privada que, infelizmente, ainda encontra defensores...
Descartes é um racionalista. Ele, depois de colocar tudo em dúvida, chega à conclusão de que existe; porém, como res cogitans, como alma, como pensamento, como consciência, como "eu" — ou o nome que se queira atribuir às piruetas e acrobacias lógicas dele. O “Penso, logo existo” é isto: existe apenas e tão-somente enquanto algo que está separado do corpo físico. É como se a alma, o espírito, existisse fazendo presepada por aí, tal qual um fantasma. Não tem nenhuma correlação com o mundo material, carnal, corporal.
Quando ele percebeu que existia como um fantasma apenas, o que ele fez? Recorreu a Deus. Para quê? Para que Deus assegurasse a existência do mundo e a do próprio corpo de Descartes. Ora, para Descartes existiam ideias inatas que não dependiam de nenhuma experiência. Uma delas é a da perfeição divina e a sua infinitude. Só que ele está apenas num plano lógico, racional, idealista.
Ele inverteu tudo. O que eu questiono? Ele não poderia pensar sem um corpo físico; sem aprender uma linguagem; sem viver em sociedade — porque não há um "eu" que possa existir sem o outro —, sem intersubjetividade, sem relações sociais de produção; porque ninguém pensa de barriga vazia, certo?
Não é muito difícil refutar tal tese. Para isso, vejamos um pouco o empirismo. Qual é o lema principal do empirismo? "Nada existe na mente que antes não tenha passado pelos sentidos". Descartes desconfia dos sentidos, ora. Mas ele dependeu, para formular o cogito, ergo sum, justamente daquilo que ele negava: o corpo físico. Mais do que isso eu não posso ir. É preciso mergulhar nisso. Descartes e o raciocínio lógico são apaixonantes — tal qual Hegel também o é —; entretanto, ideias lógicas são apenas ideias. É uma inversão do mundo. Para mim, ele não provou coisa nenhuma — nada —; apenas viajou em devaneios a priori e entrou na gaiola solipsista!
Nada em Filosofia é óbvio. Se fosse, ela já teria acabado há tempos. Se ela existe desde o século VI a.C., é porque as diversas correntes filosóficas partem de questionamentos e premissas diferentes. Uma Filosofia perfeita apenas num plano lógico não serve para mim. A Filosofia só tem valor para mim se tiver relação com o mundo dos fenômenos e deve ser engajada nas diversas dimensões da vida política, econômica, social e cultural. É por isso que a tradição idealista de Platão, Descartes, Hegel, entre outros, para mim, não serve para nada.
O conhecimento deve ser práxis. Relação do sujeito teórico com a prática e relação da prática com o sujeito teórico. Uma aperfeiçoando a outra. Mas o sujeito só pode ser sujeito dentro de uma sociedade; pois não existe sociedade sem sujeito e vice-versa. Intersubjetividade humana no mundo natural, fenomenal. Aqui e agora; não no além-mundo e na esperança que se sustenta num tempo futuro. E tenho dito!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O HOMEM: TRANSCENDÊNCIA NA IMANÊNCIA



O HOMEM: TRANSCENDÊNCIA NA IMANÊNCIA
A natureza, a meu ver, de forma absolutamente aleatória e contingente, tornou possível a existência humana. A existência do mundo e do ser humano não é, até onde se sabe, algo necessário. Diante do exposto, gostaria de refletir sobre a transcendência e a imanência humana, pois o homem é o único ser transcendente na imanência.
O interessante é que a transcendência humana acontece, mesmo para aqueles que têm uma concepção de mundo materialista, porque, para estes, aquilo que transcende ou vai além não é uma alma imortal, que tem num tempo futuro a esperança de dar um adeus ao mundo imanente e, portanto, material, mas uma transcendência do intelecto na mais pura imanência: a relação corpo-mente como fenômeno natural e finito. A morte de um é necessariamente a supressão do outro e vice-versa.
Em outras palavras, é a transcendência no tempo e no espaço, logo em tudo o que é mundano e que “permanece” enquanto muda. A “impermanência” é a única “permanência” em tudo que é transitório e efêmero. Mera coincidência com o grande filósofo Heráclito? O homem, que é feito da mesma “substância” do mundo e que, neste sentido, compartilha átomos com o universo, é consciente do que foi, pelo passado; do que é, pelo presente; e do que pode ser, pelo tempo futuro, portanto, pela imaginação, que nada mais é que a consciência antecipando o que não existe, em pleno tempo presente, o tempo futuro. A linguagem humana é a representação do tempo...
O homem, enquanto transcendência na imanência, torna-se alienado, ou seja, perde o contato consigo mesmo e tenta ser tudo o que não é: infinito, imortal, eterno. Em outras palavras, ao tentar ser infinito, imortal e eterno, o homem encontra-se com aquilo que mais teme: a própria morte. Afinal, o que é o infinito? A negação da finitude e deste mundo... O que é a imortalidade? A negação da transcendência intelectual em prol de uma dualidade suprafísica, numa palavra, a crença numa alma estranha ao corpo e que o habita pensando na “mansão das almas” e na sua suposta volta um dia... O que é a eternidade? A ausência do tempo e da mudança, logo, a morte da própria vida como a conhecemos... A única que conhecemos... O que é a vida? A própria existência em movimento contínuo, criando-se e recriando-se num dinamismo simples e complexo!
O que seria o mundo e o homem sem o tempo e o espaço? Nada? Não, pois o que é o nada sem o ser humano que pergunta pelo NADA? Não tenho resposta, alguém se habilita? Só sei que o ser transcendente na imanência (o homem) é pura contingência...
Enquanto vivermos, cabe a cada um de nós darmos significado à vida; não deixemos àqueles que abrem mão deste mundo, em prol de um suposto paraíso, dizer o que é melhor para nós, pois eles só sabem o que é melhor para suas contas bancárias... Alienaram-se deste e neste mundo e inventaram o sobrenatural para preencherem o vazio existencial que os perturba. Estão mortos em vida, pois abriram mão deste mundo e preferiram um futuro antecipado pela imaginação: a senhora que escraviza o transcendente finito em prol do transcendente imaginário, ou seja, tudo o que não é humano, mundano, material, natural e finito. Pois é...
O homem, ser em estado de derrelição no mundo desde o nascimento, encontra nos pais um amparo temporário, todavia deve buscar por si mesmo o sentido da vida sem a esperança de uma escatologia sobrenatural. O homem deve ser o meio e o fim do próprio homem. Meio, porque não vive sem o outro, e fim, porque só pode recorrer e compartilhar experiências em todas as dimensões humanas...
Texto: Marco Aurélio Machado

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

VOCABULÁRIO DAS ELITES E DAS MASSAS

Quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Vocabulário das elites e das massas
Diferenças entre o vocabulário das elites e das massas
Infelizmente, não é incomum constatarmos a diferença entre o vocabulário das classes dominantes e a linguagem das classes mais humildes. Gostaria de fazer uma reflexão básica, elementar sobre tal assunto que, a meu ver, é de importância nuclear para quem tem um vocabulário rico e, portanto, domina — e a pobreza do vocabulário das massas, que são dominadas. Vejamos o porquê a linguagem é tão importante.
Em primeiro lugar, por que será que tantos intelectuais defendem a ideia de que devemos respeitar a linguagem extremamente empobrecida das camadas mais humildes da população? Eles alegam que essas camadas se comunicam e que isso é o mais importante. Dizer, por exemplo, “nois foi”, “nois vai”, “a gente vamos”, e outras pérolas tão comuns, são consideradas uma parte cultural muito importante e que todos os tipos de comunicação devem ser respeitados, e não apenas o padrão culto.
A quem interessa que o vocabulário das massas seja empobrecido? Por que essa “tolerância”? Por que os intelectuais que defendem essas teses não as colocam em prática no cotidiano, e, portanto, não falam “errado”? Essas são as perguntas que eu sempre fiz quando me deparo com “especialistas” de outras áreas que estudam a linguagem. Nunca me convenci de que por trás dessas “teses” não existissem ideologias a serviço da classe dominante. Se a palavra, a linguagem, o vocabulário distinguem o homem do animal; se só o homem é capaz de se situar no tempo pelo uso dos signos e dos símbolos — por que a defesa e a tolerância de uma linguagem que não se distancia do tempo e do espaço, por ser reduzida em sua gama de sinônimos, convencem os “especialistas”?
Eu discordo. Um vocabulário pobre deixará as massas não apenas desprovidas de recursos materiais, mas, sobretudo, de recursos intelectuais. As massas, sem os recursos linguísticos que as camadas mais ricas da população possuem, serão dominadas e exploradas, tanto de um ponto de vista material como espiritual. Não vejo e ouço os ricos e a classe média alta não terem cuidado com o vernáculo. Por que será? Por que os EUA dominam o mundo, inclusive, pela língua inglesa? Por que os ricos e a classe média alta aprendem outros idiomas? Por que todas as profissões técnicas e acadêmicas têm um vocabulário bastante especializado e profundamente técnico? Quantas pessoas refletiram sobre isso? Por que a maioria das pessoas procura menosprezar a linguagem filosófica? Não será por ser ela uma das dinamites que detonarão esse discurso ideológico? Não será por que ela quer fazer uma terapia profunda sobre o significado das palavras e se preocupar com o rigor dos discursos? Pois é... Domina-se também pela violência "inocente" das palavras; troca-se o uso da força, tão comum na nossa história, pelas palavras e frases bonitas. As massas, inclusive, se encantam com pessoas que falam bonito, desde que não sejam discursos muito longos...
O que me deixa mais perplexo é a tolerância de tantos professores de Português, que embarcam nessa ideologia nefasta. Um vocabulário rico por parte das elites é elogiado pelas massas; mas, quando alguém de uma comunidade humilde enriquece o seu vocabulário e torna-se, por isso, capaz de ampliar a sua maneira de pensar, sentir e agir — inclusive ajudando a mudar a realidade social, cultural e política de onde ela vive —, os colegas e amigos costumam julgá-la alguém diferente e “metido à besta”. Ora, enriquecer o vocabulário das comunidades carentes e tolerar o mínimo possível que as pessoas se expressem de forma "incorreta", mesmo não sendo um padrão culto, seria o mínimo que poderíamos exigir. Não por ser “feio”, mas por causa do efeito perverso de dominação implícito nesse processo. As novelas e o telejornalismo poderiam ser grandes parceiros nessa luta; mas, eles estão preocupados com isso? Duvido! E basta um pouquinho de reflexão e de bom senso para desvelarmos o que está oculto pela ideologia dominante. Num certo sentido, os que dominam são dominados também; porque, apesar da riqueza do vocabulário, há pobreza de reflexão. E o que seria do capitalismo se a reflexão fosse algo corriqueiro? A sua própria ruína; pois, comprar seria um ato saudável por pura necessidade, e não porque as compras fossem influenciadas pelas propagandas de artigos supérfluos e pela moda do momento. Ter sempre muitos bens ajuda a aparência, mas esvazia a essência...
Evidentemente que as aulas de Filosofia, Sociologia, História e Português são essenciais para que começássemos a mudar tal realidade. Uma linguagem rica, mas sem pedantismo, é um caminho crucial para que os nossos jovens carentes pudessem ser ricos pelo menos intelectualmente. A riqueza do vocabulário verbal e escrito, com certeza, é um dos recursos para a superação da pobreza em suas várias dimensões. E, principalmente, a Filosofia deve estar atenta em explicitar os pressupostos da exploração conduzida pela linguagem empobrecida e denunciar, inclusive, os especialistas que estão a serviço da dominação e que muitas vezes não se dão conta da própria alienação!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O QUE É A AMIZADE?



Terça-feira, 23 de novembro de 2010
O QUE É A AMIZADE?
A palavra amizade é de uma beleza ímpar, singular. Muitas vezes repetida e quão poucas vezes colocada em prática. Mencionamos tal palavra ad nauseam; entretanto, quantas pessoas sabem o significado filosófico da amizade? Em outras palavras, qual é a essência da amizade? O que faz a amizade ser amizade e não um mero coleguismo?
Vou tentar definir a amizade, mas não tenho a intenção de esgotar o assunto — mormente num pequeno texto como é a pretensão deste. Defino a amizade como um sentimento nobre e altruísta de companheirismo, lealdade, sinceridade, carinho e solidariedade nas mais variadas situações da vida. Ser amigo é estar junto, mesmo estando longe — ou seja, é ter o amigo no pensamento —; é compartilhar segredos e confidências; é ficar alegre com as vitórias e triste com as derrotas; é ser sincero quando perguntado, mas respeitar a vontade do outro quando ele prefere o silêncio; é compreender que o amigo é humano e pode nos ferir, mesmo sem querer; é ter a certeza de que uma amizade não acaba, a não ser com a morte física das duas pessoas, pois enquanto uma estiver viva, o outro existirá nas lembranças...
A amizade é um sentimento raro; por isso, bendita seja a pessoa que encontrou um verdadeiro amigo. Quase sempre encontramos na nossa odisseia terrestre várias pessoas com quem convivemos e compartilhamos trocas afetivas. Todavia, o tempo se encarrega de mostrar se houve uma amizade ou um simples coleguismo. Na maioria das vezes, os desencontros são mais frequentes, principalmente porque não podemos dissociar a amizade de um contexto político, social, econômico e cultural.
A amizade só pode existir quando consideramos o outro como se fosse um fim em si mesmo, e não um meio para interesses mesquinhos e egoístas. Parafraseando uma frase do cantor e compositor Milton Nascimento: “Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves”...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO


terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CETICISMO PIRRÔNICO!

Terça-feira, 2 de novembro de 2010
O CETICISMO PIRRÔNICO!
Quando nos referimos ao ceticismo, geralmente pensamos que o cético é aquele que duvida de tudo e, tal qual Descartes, coloca em dúvida a existência do mundo exterior e do próprio corpo. Evidentemente que com um ceticismo tão radical chegaríamos ao solipsismo — ou seja, a crença de que só posso ter acesso à minha mente e que tudo em volta não passa de situações na minha consciência. Vou preconizar neste espaço um outro tipo de ceticismo: o ceticismo pirrônico. E a minha intenção não é me referir à História do Ceticismo, já que há várias concepções sobre o ceticismo. Pirro de Élis (360 a.C. a 270 a.C.), filósofo grego que nasceu na cidade de Élis, é considerado o pai do ceticismo pirrônico ou pirronismo. Entretanto, conhecemos mais sobre o pirronismo através do médico e filósofo cético Sexto Empírico, que viveu entre os séculos II e III da nossa era.
Um cético pirrônico acredita nas leis naturais; nos instintos; nas leis e costumes humanos e na ciência — desde que não seja uma tentativa de ir além dos fenômenos, ou seja, daquilo que me aparece. Sexto Empírico era médico. E o ceticismo pirrônico tem uma relação com o empirismo, desde que seja de acordo com o que eu disse acima.
Percebemos uma certa regularidade na natureza; temos uma inclinação instintiva para matar a fome, dormir, reproduzir a espécie; sempre que vemos uma cicatriz, podemos deduzir que houve um ferimento naquele local; seguimos as leis e tradições ou podemos propor outras — mas sem achar que atingimos a essência ou a causa primeira do real. Não se deve confundir o ceticismo pirrônico com outras formas de ceticismo. Percebemos de uma forma natural, eis o ceticismo pirrônico. Não sabemos qual é a natureza de nada, apenas daquilo que nos aparece; ou seja, o fenômeno. Ex: um cético pirrônico não lhe dirá que o mel é doce por natureza, apenas que lhe aparece como tal. Ele lida com o mundo dos fenômenos, nada mais. Qual a natureza do fenômeno? Ninguém sabe, ora!
Se o cético lida com o fenômeno e a experiência que ele tem com o mundo, não busca a essência de coisa alguma, pois isso seria próprio das filosofias dogmáticas. Quem disse que o cético pirrônico abre mão do mundo dos fenômenos e do que lhe aparece? Não sabe qual é a causa do mundo e a sua verdadeira essência. Ele não faz metafísica; entretanto, quando alguém insiste, demonstra que não há como escolher entre duas teses filosóficas, pois elas se equivalem. Se uma doutrina filosófica afirma que algo é, o cético pirrônico demonstra que "não é"; se a doutrina adversária afirma que algo "não é", ele demonstra "que é". Diante dessas divergências, o cético pirrônico apenas usufrui do fenômeno sem colocá-lo em dúvida. Nada mais falso, portanto, a ideia de que o ceticismo pirrônico é contraditório. Pelo contrário, o cético se reconcilia com a vida comum dos homens. Insere-se no mundo dos fenômenos e se contenta com os seus limites...
Sabemos muito pouco e, quando o cético pirrônico analisa as várias correntes filosóficas, percebe que elas são contraditórias. Sempre há bons argumentos entre as várias doutrinas filosóficas, num conflito ad infinitum. Não podendo saber qual tem razão, o ceticismo pirrônico faz com que suspendamos o juízo (epoché) e nos permite, assim, chegar à ataraxia, ou a imperturbabilidade da alma. No trecho abaixo, fruto de outro texto que escrevi, constatamos a atitude de um cético diante das perguntas metafísicas a respeito das interrogações sobre as leis do universo.
(...) As leis naturais e o mundo deveriam ter sido inventados antes; que, por sua vez, deveriam ser antecedidas por outras leis e outro mundo; que, por sua vez, deveriam ser antecedidas por outras leis e outro mundo... Ad infinitum. Mas, se formos regredir ao infinito, logo de onde saiu este mundo? Da eternidade? E de onde saiu a eternidade?
Diante das questões supracitadas, evidentemente o cético voltaria a se deliciar com o mundo dos fenômenos, nada mais!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 23 de outubro de 2010

O QUE É O FUTURO?

Sábado, 23 de outubro de 2010
O QUE É O FUTURO?
O que é o futuro? Não conheço este tempo. Mas ele existe pela imaginação. Quem vive de imaginação não tem tempo para saborear o único tempo que existe: o presente.
Que futuro? As pessoas vivem 24 horas por dia. Cada minuto deve ser aproveitado da melhor forma possível. Não podemos antecipar pela imaginação — o futuro — o que possivelmente acontecerá ou não. Isto é uma fonte de ansiedade e de angústia. A pessoa não vive o presente e fica o tempo todo pensando no futuro. Quando o "futuro" chega, ele será o futuro? Não. Será o presente — e, talvez, completamente diferente do que fora planejado.
Um usuário de drogas ficará esperando o futuro para tentar parar pela força de vontade? Buscará um tratamento no futuro? Quando? Vai esperar chegar no fundo do poço? Não. A decisão de parar é aqui e agora. Um dia eu vou parar? Quando isto dará certo? Vivamos os problemas de hoje, hoje. Os de amanhã, amanhã; e, assim por diante. Pensar no futuro não é bom para a saúde mental; pelo contrário, é fonte de muito sofrimento antecipado.
Vou dar um exemplo simples: os AA (Alcoólicos Anônimos). Eles não pensam no futuro. Evitam o primeiro gole nas próximas 24 horas. No dia seguinte, renovam o compromisso. Por acaso eles não ficam anos sem beber? Se fizessem o compromisso de que um dia iriam parar, o que aconteceria? E se decidissem que parariam para sempre? Para sempre é muito "tempo". É todo o "futuro". Dificilmente uma atitude assim daria certo...
O passado gera a culpa e o futuro gera a preocupação. Dois tempos que não existem, mas que são a desgraça da maioria das pessoas. O passado já passou. O futuro não chegou e, quando chegar, será o presente. Infelizmente, no entanto, vivemos o passado pela nossa memória e lembranças, e o futuro pela imaginação. E o único tempo que existe (o presente) nós o gastamos remoendo o passado e projetando o futuro. Resultado: tome sofrimento.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 2 de outubro de 2010

IDENTIDADE EM MOVIMENTO!

Sábado, 2 de outubro de 2010
IDENTIDADE EM MOVIMENTO!

Eu? Quem é o eu? Ele existe? Se existe, tem uma identidade imutável? É uma alma? Uma alma que, supostamente, existiria em uma outra dimensão espiritual? Será? Duvido.
Eu tenho muitas dúvidas. Talvez não seja por acaso que eu goste tanto do ponto de interrogação (?). Não consigo conceber um suposto "eu" separado do conjunto dos meus pensamentos — não sei como alguém pode explicar um "eu" pensando e ser diferente dos próprios pensamentos. Como pode um "eu" pensar se ele não é também pensamento? Como pode algo que é dinâmico e está em constante movimento ser uma entidade central e imóvel? Como se pode ver, as perguntas não param. A ideia de um "eu" imutável, que pensa sem ser pensado, é absurda e contraditória.
Penso que a situação supracitada faz nascer o medo e a superstição. Inventamos crenças e criamos deuses aos montes para que possamos nos sentir seguros. Construímos as nossas gaiolas, trancamo-las por dentro e jogamos a chave fora.
A Filosofia é, a meu ver, a única chave que temos para abrirmos a gaiola e voarmos. Entretanto, o que pode ser a solução pode também ser o receio de enfrentar o nosso pior inimigo: as algemas fabricadas pela nossa estupidez e ignorância. Viver no mundo das trevas é o mesmo que odiar as perguntas e aceitar explicações tolas e infantis — principalmente por parte daqueles que também estão no abismo, mas não sabem que estão. Estes são as piores companhias; pois, cegos de "nascença", não podem saber o que é a luz do sol. O conceito de sol, por mais belo que seja, se for dito por um cego de nascença, não terá o mesmo valor comparado aos olhos de uma criança inocente que percebe o sol como um fato.
O grande dilema humano é tentar explicar o mundo. Compreende muito mal esta realidade material, mas quer explicá-la por algo que compreende menos ainda: um suposto Deus. Prefiro a minha ignorância sobre o assunto. Sei muito pouco e sei que sei muito pouco... Todavia, sei como poucos a arte de fazer perguntas, de me espantar e de me admirar com a minha própria ignorância... Eis o motivo da minha paixão pela Filosofia — a luz da minha vida!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO