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sábado, 14 de setembro de 2013

A MORTE DO TEMPO!

Sábado, 14 de setembro de 2013
A MORTE DO TEMPO!
Uma reflexão sobre a morte de todos os seres vivos da natureza não é um tema muito agradável de abordar, principalmente numa época que cultua e desfruta objetos que, além de não terem vida, são descartáveis antes de poderem ainda ser utilizados por algum tempo.
Apesar de ser extremamente preocupante a situação supracitada, há algo pior. O homem, que já foi definido como animal racional, simbólico, econômico, político, cultural, social, histórico, entre outros conceitos — acredita-se que ninguém tenha a última palavra sobre o assunto; pois, uma definição essencial, metafísica, portanto eterna, pode ser até bela, mas não retrata a época que estamos "vivendo", se é que podemos dizer que tenha algum ser humano vivendo de fato. Os animais vivem, mesmo que não tenham consciência disso; entretanto, por paradoxal que seja, se prestarmos atenção aos demais seres naturais, aprenderemos muito mais com eles do que com a maioria dos seres humanos. Talvez seja por isso que algumas artes marciais foram desenvolvidas por pessoas que observaram, por longos anos, o comportamento do "seres irracionais".
Diante do exposto, vou definir o homem como o prisioneiro do tempo psicológico e o assassino do tempo cronológico; ou seja, o tempo que é marcado pelo espaço — os ponteiros dos relógios provam tal tese... Até quando haverá relógios com ponteiros? Alguém sabe? Eu, como sempre, não sei... Já não basta ao homem ser o assassino de todas as demais espécies da natureza (pode-se perdoar o filósofo francês René Descartes? Afinal, por acaso não foi o dito cujo quem disse que os animais não têm alma?) O interessante é que, segundo ele, o homem tem alma... E desde quando o homem deixou de assassinar o seu semelhante, inclusive em nome de um suposto amor divino?
O homem é, então, o prisioneiro do tempo psicológico e o assassino do tempo cronológico. Prisioneiro, porque "tempo é dinheiro"; porque é "necessário" ter fluência em algumas línguas estrangeiras; porque é "essencial" ter músculos e um corpo padronizado pela ditadura da beleza; porque a felicidade humana é mensurada pela quantidade de bens materiais que se adquire; porque é preciso ter um tempinho para realizar múltiplas experiências sexuais, mesmo que sejam com vários parceiros e durem apenas quinze minutos; porque é fundamental ter um tempo para frequentar as igrejas para Deus abençoar as pessoas com bens materiais e perdoar os pecados pelo desejo de ter desejos estimulados pelo capitalismo; porque é preciso ter alguns minutinhos para tentar garantir uma vaga no paraíso... Mas não é só isso, mas isto: para quem não é espiritualista, há os novos templos e palcos — shoppings, arenas onde se joga futebol, shows de artistas medíocres, mas que são transformados em deuses humanos —, enfim, jogos e mais diversões para "matar" o tempo!!!
Infelizmente, ainda temos que nos referir ao tempo cronológico, que está intimamente relacionado ao tempo psicológico. Para começar, não vai demorar e o atual modo de produção capitalista vai inventar um dia de 48 horas, porque só 24 horas está ficando impraticável!! O sistema precisa produzir num ritmo cada vez mais rápido, pois objetos descartáveis "têm vida útil escassa". "Vivemos" numa época em que a memória está sendo transferida para as máquinas; logo, matamos o passado, as lembranças, as memórias. Pior: como não temos paciência, não toleramos frustrações — porque o importante é não esperar e viver para o futuro em pleno período presente. Somos os assassinos do passado e do presente, mas queremos ressuscitar o que nunca morreu, ou seja, o futuro! Desejamos viver no futuro, justamente o tempo que não existe e nunca existirá, a não ser pela imaginação. Eis o homem!! O assassino do tempo que existiu e que existe agora, e o inventor do futuro!! O inventor do "objeto inexistente"...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

PROFESSOR OU EDUCADOR?

Sexta-feira, 9 de agosto de 2013
PROFESSOR OU EDUCADOR?
Observo, atento, há anos, um processo ideológico ocorrendo na educação por parte dos "pensadores da educação" — os chamados especialistas. Confesso que, quando ouço dizer que alguém é especialista numa determinada área, procuro observar com "olhos de lince" tais afirmativas. Nada contra o especialista em si, mas a carga ideológica implícita no conceito...
Parece-me também que, ao chamar alguém de especialista, não nos damos conta da "falácia da autoridade"; ou seja, passa-se a impressão "inocente" de que o especialista aprofundou-se tanto em uma área do conhecimento humano que os "leigos" devem estudá-lo, ouvi-lo, prestar atenção e reproduzir o discurso sem uma análise crítica ampla. Desconfio sempre do que não aparece como poder num primeiro momento; mas, em nome de uma suposta "especialização", em vez de termos estudos sérios, tenhamos uma "autoridade" sobre o assunto. Assim, trocamos estudos científicos aprofundados, baseados na experiência, e generalizamos a ideologia de um determinado grupo como se fosse uma verdade inquestionável, porque a falácia da autoridade passa a ser a verdade. Quem nunca ouviu neste país: “Sabe com quem você está falando”?
Evidentemente que não faço neste texto uma crítica generalizada sobre a especialização em si, mesmo porque em muitos aspectos ela é essencial. Questiono, sim, uma ideologia que se passa por ciência, cujo objetivo é ocultar, e não desvelar, interesses econômicos, sociais, políticos e culturais como se fossem tabus — afinal, são teorias de especialistas na área, uma autoridade!
Diante do supracitado, tenho observado vários colegas de profissão que têm muito orgulho de dizer que são educadores. Participam de vários cursos, leem os grandes "filósofos da educação", encantam-se com as belas palavras encadeadas através de deduções lógicas impecáveis; mas, quase sempre, não se dão conta de que a ideologia violentou a ciência. Principalmente quando esses "especialistas" estão a serviço de algum governo que se preocupa mais com a quantidade do que com a qualidade do ensino.
Penso que é necessário tomar muito cuidado e não confundirmos a figura do professor com a de educador. Por quê? Porque o professor ensina, leciona, tem um compromisso de preparar aulas, corrigir provas, avaliações, testes, trabalhos, exercícios e demais rotinas da profissão. O educador, não; pois, além de tudo o que foi mencionado acima, torna-se uma espécie de pai, mãe, irmão, babá, psicólogo, amigo, disciplinador, referência, enfim, uma espécie de ser mitológico supra-humano. E se o "educador" não fizer isso, a culpa é dele, e não do sistema educacional; ou seja, o "educador" é o bode expiatório ideológico para as mazelas da educação. E quem prepara a "teoria"? O especialista!!
De minha parte, prefiro dizer que sou um professor e um "educador complementar". Afinal, a educação informal, básica deve vir da família. O problema é que a família também está situada no contexto do capitalismo — é mais uma peça desta imensa engrenagem. Contudo, apesar das dificuldades, valores, princípios, regras, normas e virtudes devem começar no seio familiar. Como pode um jovem chegar à escola como se nunca tivesse ouvido um "não" na sua curta existência?
O discurso do talento, do dom, da profissão "nobre", da missão divina já está ultrapassado. O profissional da educação não é uma máquina de ferro e nem é filósofo estoico para fazer um papel que ultrapassa a sua capacidade de ser um ser humano como outro qualquer. Portanto, reflitam sobre este assunto e procurem perceber que o conceito de "educador" é de uma responsabilidade enorme — tão grande que pouquíssimos profissionais têm conseguido carregar sem adoecer... Quem está numa sala de aula sabe disso na prática; afinal, apenas palavras bonitas não mudam a realidade nas suas várias dimensões...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 9 de julho de 2013

ÉTICA NO FACEBOOK!

Terça-feira, 9 de julho de 2013
ÉTICA NO FACEBOOK!
É muito comum nos debates e diálogos filosóficos a ideia de que um filósofo pensa os problemas e possíveis soluções da época em que viveu ou vive. Assim, o que não falta na nossa época é a importância da computação em geral e da internet em particular. Esta traz uma novidade que só o distanciamento no tempo será capaz de analisar: um "poder" jamais visto na História.

Apesar dos acontecimentos políticos e sociais que estão acontecendo no país e da importância da reflexão sobre tal fato histórico inédito, neste texto eu vou escrever a respeito da ética e das prescrições morais no Facebook. Parece-me que a maioria gosta de Filosofia e ainda não sabe disso...
Há um outro dado importante que gostaria de salientar: as frases e textos que aparecem e que dificilmente constam os nomes dos autores das mensagens. Uma espécie de plágio "inocente"? Um espaço para demonstrar a inteligência alheia, mas usado como se fosse da pessoa que posta? Um ambiente paradoxal — distante e próximo ao mesmo tempo? Um consultório psicológico coletivo? Uma farmácia de placebos de autoajuda e terapia virtual? Eis as redes sociais: o Facebook é a moda do momento, assim como o Orkut fora um dia. Até quando? Não sei; ninguém sabe...
A impressão que tenho quando leio frases, textos, mensagens, pequenos trechos de romances, lições e prescrições morais é que a pessoa que as escreve é proprietária de todas as virtudes que preconiza aos leitores. Como nem sempre é possível comparar o discurso com a prática cotidiana das pessoas, ficamos do outro lado da tela admirando, criticando, nos emocionando, rindo, irados, desconfiados; enfim, aliviados ou mais entediados. Todavia, a nova "droga" continua nos viciando — pois, quantas pessoas viram as madrugadas no Facebook?
Entretanto, há situações que chegam a ser hilárias. A pessoa escreve frases e a impressão que nos passa é de que existe uma divisão interna na sua personalidade; pois afirma algo categoricamente a respeito dos mais variados assuntos — principalmente aqueles relacionados ao amor —, contudo, após alguns minutos, a mesma pessoa posta outras frases que contradizem as primeiras, demonstrando o quão o estado emocional dela está em conflito. Pior: na maioria das vezes são frases de outras pessoas e sem os devidos créditos.
Evidentemente que o que escrevi aqui são impressões e interpretações pessoais. Não segui um método científico rigoroso e nem fiz estatísticas. A intenção foi apenas colocar neste texto algumas constatações divertidas e, na medida do possível, tentar compreender o tão rico universo psicológico do ser humano: o ser das contradições!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 7 de junho de 2013

FRASES TÓXICAS!

Sexta-feira, 7 de junho de 2013
FRASES TÓXICAS!
Intoxicar-se com o próprio veneno mental é desejar o sofrimento alheio e morrer em vida...
Viver como um zumbi é o passatempo preferido do alienado...
A ambição em excesso é o passaporte gratuito para o sofrimento; pois quem ganha convive com o receio de perder — e quem perde tem como companhia a culpa...
Procurar a felicidade nas distrações é como fazer comédia em grupo e lidar com a tragédia na solidão.
O assassino dos desejos será o carrasco de si mesmo — e aquele que realiza todos os desejos conviverá com o prazer e a dor até a morte.
A desgraça alheia parece satisfazer imensamente gente que não tem noção da própria desgraça!
A crença na riqueza fácil é a descrença na dignidade de si mesmo.
A ilusão de um prazer contínuo já é o sofrimento que consome a alma do tolo.
Viver é conviver com o tempo; conviver com o tempo é a certeza do aniquilamento de todas as coisas e situações...
A esperança em excesso é a paciência sem limite — e o que não tem limite não tem amor próprio...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O CORPO!

Sexta-feira, 3 de maio de 2013
O CORPO!
O corpo humano é um dos assuntos mais polêmicos e paradoxais com que o homem se depara. Ele é, ao mesmo tempo, cultuado e negado. Cultuado, na nossa época, que padroniza uma espécie de beleza universal — onde músculos misturam-se com silicones, anabolizantes e alimentos "saudáveis" —; e, por outro lado, negado e rejeitado como se fosse um fardo para as correntes de pensamento de cunho religioso e idealista. O corpo, neste sentido, passa a ser o "templo" da alma, do espírito; e, que, como tudo aquilo que existe no espaço e no tempo, está fadado à mudança e ao desaparecimento.
Mas, afinal, temos um corpo ou somos o próprio corpo? O corpo é o responsável pela prisão de uma suposta alma ou espírito que o habita? Em caso de a resposta ser afirmativa, como comprovar a existência de uma alma ou espírito? Constatamos milhares, milhões de corpos humanos nas mais diversas relações: social, econômica, política, cultural; mas, apesar de o homem estar sempre numa determinada situação e condição no mundo, não constatamos uma alma ou espírito o habitando.
Elaboramos crenças, temos fé que o corpo não passa de um recurso para a evolução de algum ser de natureza espiritual, e que só está no plano terreno de passagem. A mensagem é: temos um corpo — e, numa linguagem filosófica, ele é mera aparência; pois a essência, esta sim, é imortal e eterna e vem de uma outra dimensão. A verdade? Apenas o desejo de ser especial e merecer residir num outro reino, em tudo diferente deste mundo de lágrimas, dores, sofrimentos, desesperos e injustiças; contudo, com alguns lampejos de alegrias e prazeres. A rejeição de encarar a finitude e o nascimento aleatório é uma verdade muito dura para ser confrontada. O homem precisa de ficções e ilusões para poder suportar o fardo pesado de um corpo que envelhece, adoece e morre como todos os outros seres viventes da natureza. A ideia de ter um corpo, mas ser uma alma ou espírito, "alivia" a angústia existencial da companheira e ao mesmo tempo inimiga: a morte.
Na falta de uma prova peremptória, fico com a crença de que somos um corpo e que a matéria foi capaz de, no decorrer de milhões de anos, formar desde corpos mais simples aos mais complexos, como é o caso do ser humano. É através do corpo que o homem se relaciona, produz e reproduz a sua existência material, tem experiências sexuais e, portanto, reproduz a sua espécie, escolhe e é determinado pelas circunstâncias também, trabalha e com isso transforma a natureza — produzindo cultura —, dá sentido e significado à sua vida, comete atos e é responsável por eles, seja pela consciência ou pela força das leis.
É pelo corpo que o ser humano está no mundo, ocupando mais do que um lugar no espaço, mas vivendo também a sua dimensão temporal. É o corpo de um bebê nascendo que, geralmente, é fonte de uma das maiores alegrias que o homem pode vivenciar; mas, é o mesmo corpo que não tem garantia de sobreviver neste mundo, pois a existência pode ser tanto longa quanto extremamente breve. E, seja a existência breve ou longa, a alegria do nascimento é substituída pela dor da morte e a certeza do aniquilamento de uma pessoa ou quaisquer seres viventes.
Nunca vi uma alma desvinculada de um corpo. Existe? Não sei. Eu até gostaria que existisse; mas, entre a realidade que percebo e o desejo de que o mundo fosse diferente — e a necessidade de o homem inventar, imaginar e especular a respeito de um mundo metafísico —, nada mais é que um paliativo e a esperança de uma recompensa que possa fazer justiça aos infortúnios de quem "passa" por aqui, pois até mesmo essa passagem é muito improvável. Deste ponto de vista, ser um corpo é um privilégio, dependendo da concepção de cada um. A meu ver, sou um corpo e fico feliz por estar apenas de "passagem" por aqui; pois, a perspectiva da eternidade me gera um tédio maior. Jamais morrer? Isto, sim, é angustiante...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 2 de abril de 2013

O QUE É O PENSAMENTO?


Terça-feira, 2 de abril de 2013
O QUE É O PENSAMENTO?
O homem é um ser que pensa, memoriza, imagina, visualiza, representa, abstrai, recorda, compreende intelectualmente, dentre outros processos criados pelo "pensamento". Usamos a palavra pensamento no cotidiano e dificilmente refletimos sobre o que ela significa. O que é o pensamento? Qual é a origem do pensamento? Qual é a função do pensamento?
O pensamento é algo difícil de ser definido. Ele é algo imaterial e, por isso, não ocupa lugar no espaço; entretanto, ele percebe e reflete sobre o espaço — e, no que se refere ao tempo, o pensamento humano situa o homem nas suas três dimensões: passado, presente e futuro. Tudo o que há no mundo humano como produto cultural, antes de vir à existência, estava presente enquanto ideia, pensamento, na mente do homem. O pensamento distancia o homem dos objetos; ou seja, não há necessidade de haver algo concreto diante do homem para que ele possa saber do que se trata. O homem é capaz de lembrar, recordar, visualizar e imaginar aquilo que não está presente às suas impressões sensoriais.
Mas qual é a origem do pensamento? Penso que não há dúvida que o pensamento começa com as impressões sensoriais e com o aprendizado da linguagem em suas várias dimensões na vida em sociedade. O pensamento está em íntima conexão com a palavra em toda a sua riqueza: escrita, falada, gestual, etc.
A função do pensamento é dar ao homem a capacidade e a competência de usá-lo nas mais diversas circunstâncias e situações da vida. Ele não é bom e nem mau em si; mas é capaz de gerar obras nobres e também causar tragédias inimagináveis — pois, quando recordamos o passado, por mais que pensemos nas catástrofes geradas pelo homem, nunca podemos afirmar peremptoriamente que a Humanidade não será capaz de superar a sua capacidade de causar atrocidades em todos os níveis.
Todavia, é na vida pessoal que o pensamento costuma ser motivo de grandes alegrias, mas também de enormes tristezas e sofrimentos. O homem não é apenas razão enquanto poder de dominar sentimentos, emoções e a imaginação. Uma pessoa que conseguisse fazer uso apenas da sua razão empobreceria a sua condição de ser humano. Por outro lado, alguém totalmente dominado pelas emoções, imaginação e sentimentos seria um escravo de um verdadeiro caos interior.
Evidentemente que o ideal é o equilíbrio dessas esferas que habitam a mente do homem; ou seja, nem a "frieza" racional nem a "fervura" emocional e sentimental. Como cada ser humano conseguirá realizar tal projeto é uma outra "história". O certo é que o pensamento é uma espécie de anjo ou demônio que reside na mente humana. E, enquanto houver vida numa determinada pessoa, haverá paz ou guerra no íntimo de cada um. Eis o que é bendito e maldito no homem: o pensamento e a sua capacidade de construção e de destruição... Cabe ao homem carregar a sua cruz...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO


sexta-feira, 1 de março de 2013

A CARÊNCIA EXISTENCIAL

Sexta-feira, 1 de março de 2013
A CARÊNCIA EXISTENCIAL
O homem é finito; contudo, dificilmente reflete sobre a sua situação no mundo como um ser que carrega no seu âmago uma carência ontológica — e o desejo que ele tem de complementar tal falta com a angústia de uma busca incessante de preenchimento do nada que o habita.
O fato de ele ser finito quase nunca se torna um problema filosófico, visto que a maioria só se dá conta disso quando enfrenta uma crise, uma ruptura radical na monotonia do cotidiano, um fato inesperado que lhe tira o chão até então sólido — a areia movediça e o abismo passam a ser algumas das suas escolhas... Todavia, mesmo diante do mais profundo desespero, quase sempre o homem recorre aos mais diversos paliativos para não ter que enfrentar a realidade de frente: bebidas alcoólicas, drogas, religião, amigos, astrologia, psicólogos e até mesmo supostos videntes do além-túmulo e do "futuro".
Refugiar-se em ilusões e em dogmas sobrenaturais que lhe prometem a infinitude e a eternidade é um "placebo" importante.

Entretanto, encarar a finitude, a consciência dos nossos limites e a certeza de que estamos atolados num tempo e espaço que não escolhemos — e que a vala é o nosso destino — é o grande desafio e a noite negra em que todo ser humano deveria mergulhar. A consciência da finitude faria o homem repensar valores, práticas, regras e normas que não fazem o menor sentido...
Se fôssemos eternos, talvez eu fosse o homem mais ambicioso do mundo; mas, que diferença fará daqui a alguns anos se fui famoso ou anônimo, rico ou pobre, bonito ou feio? Nenhuma. Escolher, porém, uma ética que fará de mim uma pessoa mais digna, mesmo durante o curto período que estarei neste mundo, é, com certeza, uma escolha mais interessante. Não sabemos de outras realidades e dimensões espirituais; mas, ninguém duvida de que alguém morre, é colocado no féretro, e nos demais rituais humanos a respeito desta grande conhecida: a morte e um corpo cremado, enterrado ou jogado em qualquer lugar.
Infelizmente, a imensa maioria dos seres humanos passa pela vida sem fazer uma pergunta sequer sobre a carência humana. Mascaramos as nossas angústias com diletantismos de gosto duvidoso.
Todavia, o difícil é perceber o buraco existencial e as dores deste mundo com dignidade. Neste sentido, um mergulho nas trevas da nossa "alma" pode ser um grande diferencial. Compreender que, apesar da carência, da falta, do vazio, o homem pode distinguir o que é essencial para ele e o que é aparência. A primeira é escolher a liberdade e a autonomia; a segunda é fingir escolher e, assim, alienar a própria consciência — quase sempre com gente estúpida e que vive como um pé de quiabo...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ESPERANÇA E DES(ESPERO)

Sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
ESPERANÇA E DES(ESPERO)
Nas aulas de Filosofia, quando digo aos alunos que a esperança, ao contrário do ditado popular, deve ser a primeira a morrer e não a última, quase sempre vem uma avalanche de questionamentos e rótulos de que o professor de Filosofia é "doido". Estamos tão acostumados à aceitação sem crítica e reflexão dos ditados populares que muitas vezes não percebemos o componente "ideológico" implícito em frases tão "ingênuas". E eu que cheguei a ficar farto do filosofar e, por um momento, queria me perder no senso comum...
É preciso ir além das aparências para perceber o que está oculto e torná-lo explícito. A esperança, tal qual o mito de Sísifo — aquele que foi condenado, eternamente, a subir com uma pedra enorme morro acima e, quando chegava ao topo, a pedra caía e todo o trabalho teria que recomeçar. Penso que podemos fazer uma analogia entre a esperança e este mito grego tão rico de significado.
A esperança, palavra bonita, mas que tomou um sentido cristão, não é tão inocente assim. A esperança está na temporalidade; pior, numa parte do tempo que é impossível viver: o futuro. Sísifo rola a pedra à sua frente e, num raciocínio de semelhança, a esperança está no futuro. Mas o futuro existe? O senso comum diz: "Quem espera sempre alcança"; "A esperança é a última que morre"; mas, isto é verdade? Não estou livre dessas armadilhas, mormente em alguns momentos em que abrimos mão da reflexão; mas quem vive de esperança — ou seja, quem espera do futuro, que é um tempo apenas imaginário — será um forte candidato à depressão e terá a tristeza como companhia.
Penso que é justamente o contrário: quem espera, vai ficar esperando, e alcançará a ansiedade e dará asas à sua imaginação — esta "senhora" angelical e demoníaca que habita a mente humana. O recado da esperança é claro: "viva sempre o futuro e carregue o fardo pesado de viver num tempo que não existe". "Faça sempre o bem aqui e a recompensa virá com a salvação no paraíso". Alguém pode ser realmente "feliz" vivendo desta forma? A pessoa viverá atormentada pelos fantasmas da imaginação e nunca terá certeza se alcançará os seus desejos e objetivos — resultado: sofrimento.
Por incrível que pareça, a palavra "desespero", na nossa cultura, tem uma carga de negatividade enorme, mas poucas pessoas pararam para refletir sobre ela. Desesperar, a meu ver, não é o oposto da esperança apenas, mas significa não esperar por nada que esteja além do âmbito de domínio da pessoa humana. Há uma frase que eu penso ser de Sartre, mas não tenho certeza, que é a seguinte: "Fazer o possível, mas sem esperança". Em outras palavras, devemos agir, porque ao agir, escolhemos; mas se as coisas darão certo ou não, já é outra história. Desespero, então, é não esperar nada do futuro, do comportamento das outras pessoas, das suas pirraças, de toda situação externa à nossa mente. Há situações, ações e coisas que dependem de mim; infelizmente, a maioria delas não está sob o nosso controle.
Desespero, portanto, é viver o presente, é não antecipar o futuro pela imaginação e não se culpar pelo passado. É fácil? Não, não é fácil. Vivemos numa cultura cristã e, desde a mais tenra idade, somos bombardeados com os dogmas cristãos. A palavra desespero para nós é uma espécie de tabu: não deve ser pronunciada. Todavia, se as nossas ações se mostrarem infrutíferas na esperança de conquistar e reconquistar os nossos desejos, para o bem da nossa saúde mental, a palavra de ordem é “desespero” — des(espero). Os desejos são os vilões do sofrimento humano. E desesperar, não esperar, é o mesmo que não desejar. Desejar e conquistar nos dão sempre uma sensação boa, de poder, capacidade e competência; mas não existe desejo satisfeito sem dor.
Estou ciente disso, pois sou humano. Mas “eu” (outra ilusão) sei o preço de cada desejo "satisfeito". E, quando embarco num desejo, estou convicto da dor que me espera. E o sistema capitalista sabe lidar bem com esta fraqueza humana; pois o próprio ser humano é, neste sistema, uma mercadoria temporária da esperança de que alguém o possua — posse esta sempre ilusória... O que fazer? Se sempre abrirmos mão, não viveremos; se sempre dermos vazão à satisfação dos desejos, sofreremos até a morte. Isto se a morte física puser fim ao sofrimento. Para quem acredita que existe uma alma que habita o corpo físico, talvez a morte do corpo físico seja apenas o início dos sofrimentos da alma. Só não me perguntem como uma alma pode sentir dor sem um corpo... Os místicos adoram viajar nesses desejos e nas suas especulações, mas cada um tem o seu dicionário, que nunca tem o mesmo significado! E tome sofrimento...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO!

Quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
REFLEXÃO SOBRE O SER HUMANO!
No cotidiano, nos deparamos com os mais variados conceitos e palavras. Reproduzimo-los como senso comum e, por isso, não paramos para refletir sobre a importância de lançarmos luz naquela que possibilita ao homem ser quem ele é de direito e de fato: a linguagem. Em vários outros textos que escrevi no meu blog, sempre refiro-me a respeito da importância do pensamento, da palavra e do conceito como condição de percepção e compreensão da realidade nas suas várias dimensões. E, portanto, neste texto gostaria de tentar fazer uma conexão, uma ponte entre a linguagem e o ser humano — afinal, é impossível darmos sentido e significado à vida e ao mundo sem a mediação dos pensamentos e das palavras como representações do universo humano.
Todavia, como já dissera em outros textos, o ser humano não existe como algo abstrato; e, assim, pudéssemos nos livrar, como num passe de mágica, da sua situação concreta, existencial e tendo como fardo um corpo que não apenas ocupa um lugar no espaço como os outros objetos, mas percebe tal espaço, convive com outros e estabelece relações sociais de produção e reprodução da sua vida material e tem consciência da sua dimensão temporal. Isto significa que o homem coexiste consigo mesmo e com os seus semelhantes de uma forma contingente no espaço-tempo. É impossível conceber um sem o outro; pois estão intricados, relacionados e, com isto, estabelecemos uma relação de causa e efeito com o mundo.
Evidentemente que tudo o que foi supracitado é belo e faz do ser humano, apesar da sua insignificância diante do Universo, um ser único e de uma certa forma especial. Contudo, paradoxalmente, o ser humano, como ser belo e especial, também é um dos maiores abortos já gerados casualmente, aleatoriamente, pela "mãe" natureza. En outras palavras, um ser capaz de construir e destruir com a mesma eficácia, eficiência, capacidade e "competência".
O pensamento, a palavra, o conceito como representações do mundo, da realidade, fazem do ser humano a única espécie que vive no tempo; e, com isto, relembra o passado, tem consciência do presente e projeta o futuro, antecipando-o pela imaginação. O ser humano "controla" e manipula o seu meio ambiente da forma que lhe convier e quiser.
Todavia, um dos piores defeitos humanos é a arte de enganar o seu semelhante; mentir ou faltar com a verdade. O filósofo alemão Kant já dissera algo muito profundo sobre a importância da verdade e de como o homem deveria ser tratado como um fim em si mesmo, e não um meio. Evidentemente que a mentira é uma das formas de se usar uma pessoa como meio — portanto, a serviço dos interesses pessoais —, e quem é usado fica carente da sua humanidade.
E o que mais me entristece é o ser humano, com toda essa capacidade, fazer um mau uso da palavra — palavra esta que o coloca numa posição de destaque na natureza e na cultura, mas ao mesmo tempo é a mesma que o faz rastejar na lama e ser pior do que os vermes. Os vermes não têm culpa de ser vermes; mas, o homem tem culpa de ser pior do que as víboras. Não sou religioso nem sei se existiu, de fato, um homem na História com o nome de Jesus; contudo, o mais importante foi a frase que a tradição lhe atribui: “O homem é uma raça de víboras”. E digo mais: o ser humano é pior do que as víboras; pois estas não podem escolher — o homem, se não for vítima de nenhuma doença mental grave, pode fazer belas escolhas e, assim, contribuir para colocar a luz da razão e da ética a serviço da humanidade, usando, sempre que possível, a verdade.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

FRASES PARA REFLEXÃO!


Sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
FRASES PARA REFLEXÃO!
A palavra do ser humano deveria valer mais do que a sua assinatura e o número dos documentos.
Ser livre não é apenas o poder de ir e vir, mas agir e assumir o fardo da responsabilidade.
Uma cela de cadeia pode prender o corpo físico, mas não a liberdade de quem não teme as crendices tolas e infantis — afinal, há muitos "presos" que são mais livres que aqueles que não saem dos templos...
Buscar a permanência na impermanência é não saber a distinção entre a lógica formal aristotélica e o dinamismo da realidade — e o movimento dos pensamentos.
"Existir" é fácil; perguntar radicalmente o porquê da existência neste mundo é que é difícil...
Há pessoas que são idosas em idade e ainda são crianças na reflexão.
O ser humano que não mergulhar nas trevas jamais verá um pequeno facho de luz, mesmo estando dentro de um shopping center...
Nunca pergunte a uma criança se ela é feliz, pois a alegria contagiante é a própria essência dela!
Há pessoas que se consideram tão maduras que já ficaram podres e ainda não se deram conta...
Se alguém quiser ser proprietário de um ser humano, mesmo num sentido "amoroso", estará dando o primeiro passo para ser escrava de si mesma.
Um discurso bonito pode iludir e encantar; todavia, é a correspondência entre o que se diz e o que se faz — a responsável pela credibilidade e o respeito entre os homens.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

REFLEXÃO SOBRE A PAIXÃO!

Quinta-feira, 8 de novembro de 2012
REFLEXÃO SOBRE A PAIXÃO!
O ser humano é movido por vários sentimentos e emoções; mas gostaria de destacar neste texto uma das maiores emoções com que o homem lida: a paixão. Eis uma emoção, um sentimento capaz de trazer consequências agradáveis; todavia, na maioria das vezes, resultados e efeitos nefastos...
Mas o que é a paixão? Não vamos, neste espaço, conceituar a paixão de um ponto de vista biológico, fisiológico, e muito menos vamos fazer uma pesquisa sobre a etimologia da palavra. Neste texto vamos definir a paixão "filosoficamente". A paixão é o surto da razão; é a insanidade temporária do bom senso; é a incapacidade de julgar com lucidez uma situação; é a paralisia da tranquilidade e o avanço do instinto e do estado de natureza no ser humano.
A paixão é a ausência absoluta do distanciamento, da reflexão para mensurar, avaliar, ponderar, meditar sobre um curto-circuito de sentimentos e emoções no interior do homem. Ela é o ato descontrolado de uma alma que se tornou escrava da situação, e não a sua senhora.
A História mostra a força das paixões em muitas circunstâncias, e basta aos interessados tal busca ou consulta. Neste texto, gostaria de fazer referência às paixões amorosas. Quem nunca sentiu uma paixão violenta, avassaladora e que consome as nossas noites com insônias? (Mesmo que a pessoa durma um pouco, é muito comum ela sonhar com o "objeto" do desejo intenso e irracional) — quem jamais perdeu a fome ou fez algumas loucuras por causa de uma força tão grande que invade o ser do apaixonado de tal forma que ele perde a noção do tempo e do espaço? Quem não teve a oportunidade de ler, ouvir ou assistir aos crimes mais violentos, frutos de uma raiva ou ódio que encarna a "alma" de uma pessoa de tal maneira que a impressão que se tem é que o indivíduo foi "vítima" de uma possessão e obsessão demoníacas?
As paixões existem nos mais variados níveis — sejam nos esportes, na política, na religião, nas diversas formas culturais —, mas a paixão amorosa é a alegria e a desgraça humana. Alegria, por sermos capazes de transmitir o brilho dos olhos, de gaguejar e tremer diante do ser "amado". E desgraça, porque as tragédias são muito mais frequentes quando não somos correspondidos; e, mesmo quando há reciprocidade, numa grande paixão não há lugar para a reflexão fria e racional, caso contrário, não seríamos mais vítimas desta avalanche de sentimentos, de devaneios imaginários e do instinto bruto habitar em nós. Dizem que os filósofos estoicos lidavam muito bem com as paixões da alma e que tinham domínio sobre elas; contudo, ao menos na época contemporânea, a capacidade de tolerar frustrações está cada vez mais frágil...
Que a luz da Filosofia possa nos ajudar a lidar com a paixão de uma forma mais equilibrada. Se não conseguirmos controlá-la definitivamente, que ao menos possamos diminuir os seus efeitos nefastos e deletérios. Se não pudermos ser os senhores deste furacão chamado "paixão", que a reflexão possa nos mostrar que no caminho há muitos precipícios e escuridão e que, por incrível que possa parecer, a percepção destas dificuldades já é o primeiro passo para voltarmos a ver a luz que liberta. E esta luz tem nome: ponto de interrogação!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO