Página

MAPA DOS VISITANTES DESDE O DIA 29/11/2009

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

QUEM SOU EU?



POESIA: QUEM SOU EU?                            By Marco Aurélio Machado
Quem sou eu? Sou a lucidez e a mais profunda escuridão. Sou forte e sou fraco. As minhas palavras cortam a alma e também cicatrizam as feridas de quem merece. Sou o elogio mais sincero e a crítica mais mordaz. Sou anjo e demônio e ao mesmo tempo sou o equilíbrio entre os dois; sou a mão que acaricia e o abraço mais sincero, mas também sou o desprezo mais cruel e o silêncio mais barulhento.

SOU APENAS HUMANO, ORA!
Quem sou eu? Sou uma bomba atômica ambulante. Sou uma criatura ácida e doce; sou amargo, azedo e ao mesmo tempo afetuoso e carinhoso. Sou o mau humor e concomitantemente o bom humor elevado ao quadrado. Sou a franqueza mais direta e sou o rancor diante das injustiças. Sou a coerência na incoerência e sou a incoerência na coerência. Sou um poço de virtudes e vícios.
SOU APENAS HUMANO, ORA!
Quem sou eu? Sou o canto dos pássaros e o estrondo da bomba atômica; sou a felicidade da vitória e a tristeza da derrota; sou o diamante bruto e o vidro lapidado; sou o sorriso da criança e o choro do adulto; sou a beleza do pôr do sol e o horror do terremoto; sou a calma do lago e a violência de um tsunami; sou a harmonia da alma e a contradição dos instintos; sou a paciência do monge e a violência do vulcão; sou a calma aparente e a pressa essencial; sou a arrogância do humilde calado e a humildade do tagarela que diz o que pensa; sou o desejo mais intenso e a apatia de um cético.
SOU APENAS HUMANO, ORA!
Quem sou eu? Sou a ignorância do sábio e a sabedoria do estúpido; sou o que busca sem saber o que busca e sou o que encontra o que não busca; sou a dor do parto e o alívio do nascimento; sou a dor da morte e o pranto da vida; sou o olhar de uma criança e a carranca do carrasco; sou o ciúme, a inveja, o rancor e o ódio, mas também sou a compreensão, o altruísmo e o amor. Sou a contradição do movimento e a morte da estabilidade; sou o passado da culpa e a ansiedade do futuro.
SOU APENAS HUMANO, ORA!
Quem sou eu? Sou a vagareza da tartaruga e a velocidade do guepardo; sou a astúcia da raposa e a inocência do coelho; sou o desejo da vida e a vontade da morte; sou a saciedade e a fome; sou a loteria da natureza e o acaso da consciência; sou fruto do amor e da animalidade do sexo. Sou um buscador da essência da ignorância, pois a essência da ignorância é o ponto de interrogação! Eu sou o filósofo e o imbecil...

domingo, 9 de setembro de 2012

DIÁLOGO POLÍTICO - O FILÓSOFO E O CANDIDATO A CIDADÃO!

Domingo, 9 de setembro de 2012
DIÁLOGO POLÍTICO — O FILÓSOFO E O CANDIDATO A CIDADÃO!
Candidato a cidadão — Senhor filósofo, eu sempre quis conversar com um sábio e ouvi dizer que um filósofo poderia me ensinar como votar nestas eleições sem o risco de ser enganado. O senhor poderia me ajudar?
Filósofo — Bem, nós poderíamos conversar um pouco sobre o assunto. Em primeiro lugar, um filósofo não é um sábio, mas é um amante da sabedoria. Ele busca a sabedoria, assim como uma pessoa que está morrendo sufocada busca o ar. Em segundo lugar, você estaria disposto a votar em quem eu lhe indicasse?
Candidato a cidadão — Acho que sim. Por que não deveria? Afinal, sendo um filósofo, com certeza o senhor poderia me dizer o nome de dois bons candidatos: um para o Legislativo e o outro para o Executivo.
Filósofo — Mas o que é ser um bom candidato?
Candidato a cidadão — Ora, senhor filósofo, não é possível que não saiba o que é uma coisa boa e muito menos que não tenha noção do que é ser um bom candidato... Em vez de me ajudar, o senhor só sabe fazer perguntas?! Não me leve a mal, mas acho que perdi o meu tempo.
Filósofo — O que é ajuda? O que é uma pergunta? O que é o tempo? Você pode me dizer?
Candidato a cidadão — Ó!! O senhor filósofo é louco, o senhor é completamente aloprado!
Filósofo — Mas você poderia me dizer o que é a loucura?
Candidato a cidadão — Eu já estou perdendo a paciência com o senhor, mas vou responder essa perguntinha imbecil e vou embora daqui antes que eu fique doido também. Esta é fácil, ora! Loucura é o nome que se dá às pessoas que perderam a noção das coisas, que não sabem distinguir o estado de consciência da inconsciência; é uma pessoa que não pode ser responsável pelos seus atos. Enfim, alguém que se encontra num estado mental precário e alienado. Gostou ou quer mais? O senhor está pensando que eu sou bobo? Agora posso ir? Pra mim chega...
Filósofo — Você é livre para ir e vir... E um filósofo não vai tirar todas as suas dúvidas. Pelo contrário, ele pode até gerar mais algumas. Quer mesmo ir embora ou podemos continuar o nosso diálogo? Podemos tentar encontrar as respostas sobre este assunto juntos...
Candidato a cidadão — Senhor filósofo, tenha misericórdia, eu só queria saber como escolher um candidato para o Legislativo e um para o Executivo. Mais nada. A minha cabeça já está doendo por causa das suas perguntas sem fim. Por favor, diga logo como eu devo fazer.
Filósofo — Lembra-se quando eu o perguntei sobre o tempo? Evidentemente que fazer uma reflexão sobre o tempo é bastante difícil; mas, na rica História da Filosofia, alguns filósofos já se debruçaram sobre esse tema fascinante e, se for do seu interesse, procure numa boa biblioteca ou na internet que, com certeza, você achará. Mas voltando ao nosso assunto: a ideia de tempo nos remete à História. No caso, a História de um partido político em geral e a de um indivíduo que coloca o seu nome à disposição de um partido para ser candidato em particular. Penso que não sabemos como será o futuro, e a lógica nos assuntos sobre o comportamento humano não nos autoriza a dizer que o passado será igual ao presente e muito menos ao futuro. Todavia, no que se refere à ética e à política, talvez o passado de um partido ou de um indivíduo possa nos dar alguma pista. O que você acha?
Candidato a cidadão — Mais uma pergunta! Eu quero é ter certeza, pois a dúvida é um verdadeiro pesadelo para mim. Eu acho que vou anular o meu voto. Todo político é desonesto mesmo! Talvez, quem sabe, vender o meu voto... São todos iguais! E eu ainda ganharia um dinheiro extra. O que tem o passado que ver com a política? A maioria absoluta dos políticos é corrupta. Uma vez corrupto, sempre corrupto. Além do mais, não está escrito na testa de ninguém a palavra "honestidade". E mesmo que a pessoa seja honesta, quando chega "lá" tem que entrar no esquema, caso contrário, não faz nada. Eu vou é vender o meu voto mesmo e pronto.
Filósofo — Calma! Vamos analisar a situação mais de perto. De um ponto de vista lógico, não podemos dizer que o passado necessariamente repetir-se-á no futuro. Aqui caímos numa situação complexa; pois, desse prisma, mesmo que um político tenha sido desonesto, não podemos concluir que ele o será no futuro. O mesmo argumento serve para o político honesto; pois o fato de ele ter sido honesto no passado não legitima a inferência de que ele o será no futuro, certo?
Candidato a cidadão — Onde eu estava com a cabeça quando resolvi procurá-lo? Agora as coisas pioraram de vez. Pode explicar melhor?
Filósofo — Claro. Se logicamente é possível tanto um político desonesto ficar honesto e vice-versa, então o silogismo dedutivo não serve para resolver o problema; pois os fatos podem nos contradizer, ou seja, um único político desonesto ficar honesto, ou um único político honesto ficar desonesto. Basta isso para que o nosso silogismo seja falso.
Candidato a cidadão — Que confusão! Mas estou começando a gostar disso. Continue, por favor!
Filósofo — Não temos garantias em nada que é humano. Ser humano é estar aberto para as escolhas. Nós escolhemos dentro dos limites humanos. O ser humano não é como o animal, que já nasce "sabendo" das coisas, instintivamente. Ele é um ser social e cultural. Ele tem que se autoconstruir o tempo todo. Fica claro que a política é uma dimensão muito importante da vida em sociedade. Se todos nós fôssemos programados pelas leis naturais apenas, não precisaríamos da política. E se todos fôssemos éticos, não precisaríamos de leis; logo, o Estado não seria necessário. Concorda?
Candidato a cidadão — Estou tentando acompanhar o seu raciocínio, mas confesso que ainda está muito teórico e eu estou começando a acreditar que os que dizem ser a Filosofia muito abstrata não deixam de ter razão. Para que tanto lenga-lenga para responder uma simples pergunta? Tudo me parece tão óbvio...
Filósofo — O óbvio só é óbvio para os tolos. Se as pessoas tivessem o hábito de fazer reflexões sobre a vida, o mundo, a natureza e a cultura, talvez o mundo humano fosse bem mais rico e feliz. E a política, volto a dizer, é uma dimensão essencial para que possamos viver em sociedade. Ao menos nos próximos séculos — isto é, se os homens não abrirem mão da política e partirem para a selvageria de uma guerra atômica...
Candidato a cidadão — Deus nos livre e guarde, senhor filósofo! Vire essa boca para lá! Credo! O senhor ainda vai demorar muito, hein?!
Filósofo — Deus? Bom, se ele existe, parece que não interfere no mundo; por outro lado, se não existe, nunca saberemos. Então, até que se prove o contrário, só podemos contar com a capacidade humana de resolver os seus problemas. É por isso que a política é laica, leiga, e os seres sobrenaturais devem ser assunto para as religiões, mas na esfera da vida privada. A política é da ordem do público, profano, mundano...
Candidato a cidadão — O senhor não deveria blasfemar! O senhor não teme a palavra de Deus? Deus castiga, viu?
Filósofo — Por quê? Porque estamos buscando a verdade? Se Deus castiga, ele terá muito trabalho para condenar tantos religiosos e políticos que ganham dinheiro explorando pessoas humildes com falsas promessas. Sem contar as guerras santas feitas em nome do amor divino, certo? Não se preocupe com isso agora. Precisamos saber algumas regras para escolher os nossos representantes.
Candidato a cidadão — Tudo bem... Termina hoje ainda? Queria assistir à novela das 9h.
Filósofo — Sim, não vamos demorar. Não há como prever o comportamento humano. Como vimos, o passado não determina necessariamente os nossos atos no futuro; e, quando se trata do poder político, então, a situação é imprevisível. Todavia, não temos muitas escolhas. Numa "democracia" temos direitos e deveres. Se, como você disse antes, não está escrito na testa de uma pessoa ou político a palavra "honestidade", logo só podemos contar com os atos do passado do político. Não há outra alternativa. É importante saber a vida pregressa do candidato(a). Ter um passado "limpo", tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista jurídico. Como tal candidato(a) aborda o cidadão para pedir votos. A meu ver, um "bom candidato" diz exatamente quais são as funções do cargo para o qual ele deseja ser eleito. Por exemplo, o candidato a vereador (Legislativo) não é candidato ao Executivo. Como pode, então, fazer promessas que são da alçada do prefeito? Um vereador não faz obras e nem tem a obrigação de fazer "serviço social". Um vereador deve legislar (fazer leis); fiscalizar os atos do prefeito (Executivo); denunciar possíveis irregularidades na administração pública; fazer emendas ao orçamento municipal — ou seja, pode tentar negociar uma verba para fazer obras em uma determinada região, por exemplo —; e pode ainda fazer parte da oposição ou participar da base de apoio do prefeito, e ser um canal de comunicação entre o prefeito e o povo. É pouco? Pelo contrário, é muita coisa.
Candidato a cidadão — O que o senhor disse é muito importante, sem dúvida, mas ainda não disse como identificar um bom candidato...
Filósofo — Eu já disse sobre o passado do candidato. É muito importante procurar se informar a esse respeito. Contudo, há informações que não podem faltar. Por exemplo: o candidato solicita o seu título de eleitor para anotar? Se faz isso, então é bom desconfiar. Isto é ilegal e também uma tentativa de controlar o voto do eleitor. Um "bom" candidato não faz promessas absurdas e levianas, não doa cestas básicas, dentaduras, cimento, tijolos e outros favores. Não promete empregos. Isto não é da alçada de um candidato. E torna a eleição profundamente desigual, pois o poder econômico é para os ricos. Evidentemente que, para cada comprador de votos, há um vendedor. E quem é o vendedor de votos? O próprio eleitor. Neste sentido, onde está a diferença entre comprador e vendedor de votos? A meu ver, não há distinção entre os dois: ambos são desonestos. Existe uma relação de cliente: comercial ou de favor. O político é o retrato da sociedade — afinal, ele também faz parte dela, não é mesmo? — e tal relação custa muito caro para o eleitor, porque esse dinheiro sairá de algum lugar. Que lugar? Fica aí uma sugestão para uma posterior reflexão. Pensar dói um pouco, mas liberta...
Candidato a cidadão — É... Realmente, eleição para escolher os nossos representantes é uma coisa muito séria. Eu nunca tinha pensado em todas essas coisas...
Filósofo — Vamos fazer uma pequena digressão agora? Eu me lembro de cada palavra sua quando fiz uma pergunta sobre a loucura. Todavia, vou dizer o mínimo. É o filósofo realmente um louco como você disse? Quem parece não ter consciência, de não ser o responsável pelos próprios atos; de estar num estado de inconsciência, e que confunde o sonho com a realidade é, por acaso, o filósofo? A maioria das pessoas vive num estado de entorpecimento, de alienação, que chega a dar pena. E são essas criaturas que normalmente chamam o filósofo de louco. Quem é o verdadeiro louco? Podemos concluir que é aquele que vegeta no mundo, que não apenas desrespeita o seu voto, mas que vende o maior tesouro que um ser pode ter: a sua consciência! O que eu disse sobre o Legislativo serve também para o Executivo. Isto não é uma conclusão; ao contrário, é o ponto de partida para um debate, uma discussão para todos os candidatos a cidadão. Bom voto nas próximas eleições!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 4 de agosto de 2012

O PODER POLÍTICO!

Sábado, 4 de agosto de 2012
O PODER POLÍTICO!
O poder é um verdadeiro maná dos deuses para o homem. Ele está nas palavras, na hierarquia das classes sociais, na economia, na cultura, na ideologia, nos meios de comunicação, na religião, na ciência, na técnica, na tecnologia; mas, principalmente, na política. O poder político é o fundamento de todos os outros poderes; porque ele tem a "legitimidade", o monopólio da força, e as suas consequências mais nefastas e desastrosas. O poder é onipresente: está em toda parte. Onde houver duas pessoas conversando, haverá, sem dúvida, relação de poder. O homem deseja o poder como o "demônio" deseja almas para um "passeio" no inferno.”
Pouquíssimos homens (e mulheres) desejam o poder como um meio. O poder como meio é para promover o bem comum dos cidadãos e cidadãs. Existe o poder como um fim em si mesmo para a promoção do bem comum? A meu ver, não. Por quê? Porque o poder como meio é um instrumento de ideais nobres e altruístas. O poder mesquinho, egoísta, bajulador, ambicioso e perverso não é um meio, mas é um fim em si mesmo. O poder pelo poder é, em última análise, o poder como um fim. E, infelizmente, são os homens e mulheres mais despreparados que normalmente gostam do poder como um fim. O poder pelo poder significa privilégios para uma minoria e a desgraça da maioria — geralmente com o consentimento da própria maioria...
Se o cidadão comum soubesse a importância do poder político, não daria o seu voto sem conhecer profundamente o candidato ao poder. O homem que ainda não conseguiu domar os seus instintos mais primitivos não deveria desejar o poder. Todavia, ele o deseja justamente porque há uma ambição desmedida e o ódio pela reflexão racional. Aliás, Platão já preconizava mais ou menos isto: para ele, o governante que ainda não dominou a ganância, o egoísmo, a ambição — numa palavra, o homem que não tem autodomínio e sabedoria — não poderia nunca ser governante. Para governar os outros, antes é preciso governar a si próprio.
E quem disse que alguém chega ao autodomínio e à sabedoria sem sacrifícios? E quem deseja o poder pelo poder — ou seja, o poder como um fim em si mesmo — quer atalhos para prazeres e privilégios pessoais. O poder político como meio exige, ao contrário, desprendimento, espírito de sacrifício, generosidade. Ele tem o dever de estar a serviço do povo.
O poder político é tão importante que alguns governantes do mundo têm o poder de acabar com a fome e a miséria no mundo, assim como têm o poder de fazer uma guerra atômica e mandar este planeta pelos ares. O poder político pode resolver os conflitos por meio da diplomacia ou da força militar. Quando a razão se despede, a força bruta das armas faz a alegria dos poderosos de plantão. Eis o poder político despido das belas palavras...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O MISTÉRIO!

Quarta-feira, 4 de julho de 2012
O MISTÉRIO!
A palavra mistério é, sem dúvida, uma das mais pronunciadas no mundo. Há vários exemplos na vida cotidiana sobre o conceito de mistério; mas, gostaria de me deter no seu sentido metafísico — e a contradição entre a dúvida ou a certeza daquilo que existe e o suposto inexistente...
Desde a primeira vez que ouvi tal palavra, ela sempre ocupou ao menos um pouco a minha mente. Ao me interessar cada vez mais pela Filosofia em geral e pela metafísica em particular, evidentemente que a capacidade de pensar e repensar o conceito de mistério também foi crescendo. Numa palavra, ao refletir sobre um assunto supostamente tão espinhoso, agora tenho sérias dúvidas sobre a possibilidade de alguém tentar sair pela tangente quando é questionado até as últimas consequências sobre assuntos metafísicos relacionados ao "mistério". E penso ser este um problema de paradoxo da linguagem, de contradição lógica, como tantos outros que poderíamos citar, mas que não vou colocar aqui.
É muito comum a discussão e o debate entre as pessoas de fé e aquelas mais ligadas à Filosofia e à Ciência. E não é segredo para ninguém que muitas pessoas religiosas também gostam de Ciência e tentam, na medida do possível, fazer uma conexão, uma ponte entre essas "adversárias". Afinal, contar com o apoio da Ciência seria muito bom. Entretanto, será possível alguém se referir ao mistério sem cair numa grande contradição?
Mas, afinal de contas, o que é o mistério? Algo que ninguém pode saber, que é incognoscível para sempre à percepção e ao conhecimento humano, dirão uns — algo totalmente desconhecido e que só Deus sabe, dirão outros. E, provavelmente, muitas outras formas de definição devem existir; mas, fiquemos, para o que nos interessa aqui, apenas com os dois conceitos supracitados.
O problema é o seguinte: se o mistério é misterioso, como pode alguém se referir a ele? Em outras palavras, se não sei o que é o mistério, como posso me referir a algo que não sei o que é? Se sei o que é o mistério, como posso continuar a dizer que é um mistério — ou seja, algo desconhecido e misterioso? Se conheço o mistério, ele ainda é misterioso e desconhecido? Se sei o que é o mistério, ele não é mais o mistério, porque pode ser conhecido; se não sei o que é o mistério, não posso falar sobre ele. Logo, o conceito de mistério não pode ser afirmado e nem negado. É apenas mais uma gaiola metafísica... Mais um paradoxo da linguagem humana!
Para terminar, eis mais um paradoxo para quem adora dizer que tem a palavra divina. Como pode Deus ser misterioso e, ao mesmo tempo, a sua palavra estar na Bíblia ou em outros livros sagrados? Se Deus é um mistério, então é desconhecido e nada se pode falar a respeito dele; se a palavra de Deus está nos livros sagrados, então não existe mistério algum e tudo o que se precisa saber já está escrito — e a Humanidade não pode mais se referir à palavra mistério. Fiquem à vontade para escolher...
Penso que o maior "mistério" é saber quem diz a verdade, pois os religiosos não se entendem... O interessante é que poderíamos, diante de tal contradição, dizer que somos todos agnósticos. Penso, sinceramente, que haveria mais tolerância e humildade diante da nossa imensa ignorância do desconhecido... Alguém dizer que a palavra de Deus está contida nos livros sagrados e, diante de questionamentos insolúveis, afirmar que é um mistério é o mesmo que dizer que um triângulo é um quadrado. Haja pirueta mística!!! Pois é...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sexta-feira, 1 de junho de 2012

EUTANÁSIA

Sexta-feira, 1 de junho de 2012
EUTANÁSIA
Eis um assunto polêmico: a eutanásia. Mas o que é a eutanásia? Não vou consultar dicionários e nem "especialistas" sobre a etimologia do termo. Vou no popular: eutanásia é o direito de morrer com dignidade e com o menor sofrimento possível.
A meu ver, todo ser humano tem esse direito; mas, quase tudo o que é humano tem divergências, e com a eutanásia não poderia ser diferente. A eutanásia é um tema controverso porque envolve juízos de valores éticos, religiosos, sociais e culturais. Todavia, penso que a vida de um indivíduo é da sua responsabilidade e cabe somente a ele julgar se ela vale a pena ser vivida — isto com a pessoa gozando de saúde perfeita, imagine doente e com dores alucinantes?! Sou a favor da eutanásia e talvez continuarei a ser até o "fim"...
Mas por que ser a favor da eutanásia? Respondo com outra pergunta: por que ser a favor do sofrimento? Por que ser a favor das dores insuportáveis de um câncer, por exemplo, que consome o indivíduo? Por motivos religiosos? Não tenho crenças. Por razões éticas? Alguém já descobriu uma verdade ética objetiva e que fosse referência para toda a Humanidade? Penso que não. Por questões culturais? As culturas são relativas e o que é certo para um povo pode não o ser para outras concepções culturais. Enfim, a vida do indivíduo moribundo lhe pertence e só ele pode escolher. Mas e quando a pessoa estiver em coma e não puder optar?
De minha parte, se algum dia ficar em tal situação, quero o seguinte: morrer. Penso que lei humana nenhuma pode estar acima do direito de uma pessoa de querer a morte em circunstâncias tão cruéis. Afinal, por exemplo, se uma pessoa não puder decidir, quem, em tese, poderia? Aquele que não é o proprietário da vida? Se a pessoa tiver deixado a sua opção de uma forma clara, é mais fácil. Caso contrário, como proceder? Quais são as razões que tal pessoa teria? Ela teria preocupação com a minha "partida" ou com o desejo egoísta de não sofrer com a minha morte? Ela estaria pensando na ausência do meu sofrimento ou no bem-estar dela? E se eu tivesse deixado uma fortuna como herança, qual seria a atitude dela? Haveria algum conflito de consciência por desejar um ato e preconizar outro? Quem sabe?
A finitude é para todos; prolongá-la com saúde é uma coisa, com dores insuportáveis ou num estado de coma é outra muito diferente. Em que situação somos mais dignos? Deixar a natureza fazer a sua parte e desligar os aparelhos ou prolongar o sofrimento de todos os envolvidos? Mesmo que a priori fosse por uma boa causa? Pergunto: o que é uma boa causa? A causa de qual interessado? E a causa dos religiosos? A aposta de Pascal, mesmo que não saibam o que ela significa? Os religiosos não deveriam ficar preocupados com a morte do corpo físico; afinal, acreditam que o corpo é deste mundo finito e efêmero, e a alma é uma substância de um "outro reino" — logo, ela é imortal e eterna... Meras apostas, nada mais, infelizmente...
Fica claro que a situação supracitada é apenas uma em centenas de outras possíveis. Numa circunstância limite como o é a eutanásia, quase sempre outros interesses ditam as regras...
PS.: Hoje, dia 01/06/2012, é um dia muito especial para mim. Quis falar um pouco sobre a morte para poder celebrar a vida! Parabéns, filha! Nós te amamos!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 1 de maio de 2012

O TRABALHO!

Terça-feira, 1 de maio de 2012
O TRABALHO!
Um dos maiores filósofos de todos os tempos, ou seja, Karl Marx, deveria estar vivo para presenciar o dia 1º de maio, às 24h reservadas à "comemoração do dia do trabalhador". Será que Marx participaria das festas promovidas pelas centrais sindicais? Tenho minhas dúvidas... O trabalho é a condição ontológica do ser humano.
O homem é o único ser na natureza que trabalha, já que os animais produzem e reproduzem as suas respectivas espécies instintivamente, mecanicamente; em outras palavras, são programados pela mãe natureza. O homem é um ser dual — não porque é corpo e alma, mas por ser parte natureza pelas necessidades naturais que tem de alimento, descanso, reprodução sexual da espécie, sono e a finitude; e parte cultura, pois transcende o determinismo ao transformar o mundo natural pelo trabalho. O trabalho é condição sine qua non para que possamos passar da condição de "bichos naturais" à ascensão "humana". Evidentemente que as palavras bonitas supracitadas referem-se à visão filosófica do trabalho. Enfim, deveria ser assim; mas, o é de fato? Não, não é. Somos, no máximo, animais com lampejos de consciência e "tingidos" com um verniz desbotado de cultura.
Karl Marx, certamente, não ficaria satisfeito com o nível de ideologia e alienação a que chegou a Humanidade. O homem foi capaz de realizações incríveis, chegando ao ponto de criar clones de animais, superar fronteiras no espaço e no tempo através do conhecimento científico aplicado; mas, se por um lado foi competente em descobrir leis e mecanismos para a transformação da natureza, infelizmente não foi o senhor dos seus desejos, egoísmos e ganâncias. O resultado? Em pleno século XXI ainda não passa de uma besta em termos políticos, sociais e econômicos. Incapaz de se colocar no lugar do outro, inventa máquinas, equipamentos e tecnologias de ponta para explorá-lo, e não para promover a cooperação e a solidariedade entre os homens.
As cavernas é que moram em nós, apesar de estarmos no limiar do domínio de casas "inteligentes". As trevas residem em nós, apesar de arrotarmos racionalidade; as máquinas nos dominam, apesar de as colocarmos no "automático"; o homem, de tanto querer escravizar, foi escravizado. Logo, logo seremos ciborgues. E quem não quiser ser ciborgue vai desaparecer enquanto ente biológico. Em vez de bebermos água, talvez beberemos óleo de máquina, ou quem sabe uma carga de eletricidade?!!
Karl Marx, se estivesse por aqui, não poderia estar feliz; afinal, o seu sonho de emancipação humana virou um pesadelo. A História deve acabar com a vitória capitalista. A vitória da derrota — pois a extinção da Humanidade será a prova da incontestável presença da bestialidade em nós. A tecnologia deveria servir para a libertação humana, para que as máquinas estivessem a serviço do homem, e não o contrário. O homem teria direito ao trabalho, trabalhando menos para que o trabalho não faltasse para ninguém. O homem teria tempo para se dedicar à cultura, à família e ao lazer. Faria da reflexão filosófica um prazer e também uma guardiã contra a ideologia e a alienação.
Enfim, o homem descobriria que ele e o trabalho são UM. Com a atual produção capitalista esquizofrênica — o homem está perdendo até o direito de "trabalhar", mesmo que seja explorado. E o que é o homem sem o trabalho? Nada; pois o ser humano torna-se humano pelas relações sociais de produção. Eis a ontologia humana nua e crua: sem relações sociais e o trabalho o homem se desumaniza. Aliás, não é à toa que alguns já estão vendendo órgãos humanos, se prostituindo, porque precisam vender o corpo por alguns minutos. No atual sistema tudo é mercadoria, e não vai demorar o tempo em que os empresários vão vender um "selo" de ética capitalista para tatuar na testa do consumidor — e não faltará alienado para comprar e pagar em até 48 vezes com juros. A tal da "etiqueta" muitos já compraram "no mercado dos bons modos"! Tentativa sofisticada de sair das cavernas? Eis a verdadeira riqueza da pobreza de espírito!
Nada a comemorar no dia do trabalho. Para sabermos a importância do trabalho para o ser humano, bastaria que ficássemos um mês sem trabalhar. Seria cômico, se não fosse trágico, vermos os proprietários dos meios de produção, banqueiros, grandes comerciantes e fazendeiros disputando trabalhadores no tapa. Só tenho compaixão das massas alienadas, que adoram o pão e o circo e a esperança de uma intervenção divina... Elas não sabem a força que têm...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO