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domingo, 20 de fevereiro de 2011

ATEÍSMO E EXISTÊNCIA HUMANA!

Domingo, 20 de fevereiro de 2011
ATEÍSMO E EXISTÊNCIA HUMANA!
Deus, para mim, é uma questão existencial; não gnosiológica — ou seja, não tem nada a ver com conhecimento racional sobre Deus; visto que, a meu ver, a razão é do tamanho da dimensão humana. O resto é sonho do delírio humano... Não acredito em nenhum conceito de Deus. Eu digo isso o tempo todo, mas as pessoas fazem de conta que não leram; ou, se leram, preferem dizer o contrário do que afirmei. É a velha intolerância e preconceito daqueles que odeiam o mundo no discurso; entretanto, adoram o conforto do mundo... E a "mesada vem todos os meses"...
Quase sempre volto a este assunto; porque, infelizmente, por ignorância ou má-fé, muitos preferem distorcer o conceito de ateísmo. Desde quando o ateísmo é a negação de um Deus? Como posso negar a existência de Deus se não sei se existe tal ser? Se existe um Deus, como posso negá-lo? Como se pode negar a inexistência se não se pode negar o nada? Eu nego as crenças humanas em seres sobrenaturais; todavia, não invento uma crença que diz que deuses não existem. Afinal, "ausência de crença não é crença na ausência." Crenças, cada cultura inventa as suas, nada mais. O mais engraçado disso tudo é que a maioria das pessoas não sabe que também é ateia. Quem nunca viu um cristão questionar os deuses de outras sociedades e culturas? Tal atitude não é ateísmo com relação aos deuses alheios? E outras culturas, por acaso, não negam o Deus cristão? Estamos dispostos a colocar "Zeus" na conta de “historinha da carochinha”; mas, quando alguém faz o mesmo com os deuses e santos em que acreditam, a maioria perde a calma, em vez de analisar racionalmente tal possibilidade. A verdade nua e crua: todos somos ateus!!
Se as crenças em deus(es) fossem verdadeiras, teríamos apenas uma crença, não é mesmo? Uma única e, portanto, verdadeira para todos os habitantes da Terra. Mas é isso que vemos? No! Em nome das crenças nunca se viu tantas mortes e guerras. Por quê? Porque Deus é amor!!! Imagine se não fosse... Penso que o ateísmo — negação das crenças, dos conceitos limitados por parte de pessoas humanas a respeito de um ser divino ou seres divinos — o livra da culpa, do medo do inferno, da esperança de ser salvo. Dá-se mais valor à vida, porque é uma só; de fazer o bem pelo prazer de ajudar, não para ganhar o paraíso; de inventar os próprios valores, já que não existem valores predeterminados; de ser humano em todos os sentidos e não renegar os desejos mais ocultos; de estar em harmonia com a natureza e de saber que se faz parte dela; de aceitar os fenômenos naturais e mudar o que é possível; de saber que o que não posso explicar racionalmente não preciso inventar um ser imaginário, etc. Viver e ser feliz, porque a vida é única e bela. Si houver um Deus, ótimo, a vida continua; se não houver, excelente; não saberei que morri...
Em primeiro lugar, quero dizer que sou um humanista. Baseio minha vida em valores estritamente naturais. Não acredito em seres sobrenaturais: deuses, fadas, duendes, demônios, anjos, arcanjos, serafins, capetas, diabos, anjos caídos, anjos que subiram, unicórnios, elementais, astrologia e seus signos, poder dos cristais, macumbas, espíritos das trevas, espíritos de luz, almas encarnadas e nem desencarnadas, fogo do inferno e em nenhuma religião e seus supostos salvadores ou messias.
Acredito na finitude da minha razão, nos limites das minhas impressões sensoriais e na recusa radical de dar asas à minha imaginação, inventando deuses e tornando-me prisioneiro dos seus caprichos e ameaças. Não se preocupem comigo. Quando morrer estarei debaixo da terra. Mas quero fazer, nesta vida curta e finita, o que muitos só fazem no discurso. Para terminar: todas as minhas convicções são baseadas nas ciências e na Filosofia. Até que se prove o contrário, elas são as luzes da minha vida e do meu caminhar finito, mas solidário, fraterno e humano!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 29 de janeiro de 2011

CRÍTICA AO RACIONALISMO CARTESIANO!

Sábado, 29 de janeiro de 2011
CRÍTICA AO RACIONALISMO CARTESIANO!
Neste texto, gostaria de fazer uma crítica ao racionalismo cartesiano e a uma suposta linguagem privada que, infelizmente, ainda encontra defensores...
Descartes é um racionalista. Ele, depois de colocar tudo em dúvida, chega à conclusão de que existe; porém, como res cogitans, como alma, como pensamento, como consciência, como "eu" — ou o nome que se queira atribuir às piruetas e acrobacias lógicas dele. O “Penso, logo existo” é isto: existe apenas e tão-somente enquanto algo que está separado do corpo físico. É como se a alma, o espírito, existisse fazendo presepada por aí, tal qual um fantasma. Não tem nenhuma correlação com o mundo material, carnal, corporal.
Quando ele percebeu que existia como um fantasma apenas, o que ele fez? Recorreu a Deus. Para quê? Para que Deus assegurasse a existência do mundo e a do próprio corpo de Descartes. Ora, para Descartes existiam ideias inatas que não dependiam de nenhuma experiência. Uma delas é a da perfeição divina e a sua infinitude. Só que ele está apenas num plano lógico, racional, idealista.
Ele inverteu tudo. O que eu questiono? Ele não poderia pensar sem um corpo físico; sem aprender uma linguagem; sem viver em sociedade — porque não há um "eu" que possa existir sem o outro —, sem intersubjetividade, sem relações sociais de produção; porque ninguém pensa de barriga vazia, certo?
Não é muito difícil refutar tal tese. Para isso, vejamos um pouco o empirismo. Qual é o lema principal do empirismo? "Nada existe na mente que antes não tenha passado pelos sentidos". Descartes desconfia dos sentidos, ora. Mas ele dependeu, para formular o cogito, ergo sum, justamente daquilo que ele negava: o corpo físico. Mais do que isso eu não posso ir. É preciso mergulhar nisso. Descartes e o raciocínio lógico são apaixonantes — tal qual Hegel também o é —; entretanto, ideias lógicas são apenas ideias. É uma inversão do mundo. Para mim, ele não provou coisa nenhuma — nada —; apenas viajou em devaneios a priori e entrou na gaiola solipsista!
Nada em Filosofia é óbvio. Se fosse, ela já teria acabado há tempos. Se ela existe desde o século VI a.C., é porque as diversas correntes filosóficas partem de questionamentos e premissas diferentes. Uma Filosofia perfeita apenas num plano lógico não serve para mim. A Filosofia só tem valor para mim se tiver relação com o mundo dos fenômenos e deve ser engajada nas diversas dimensões da vida política, econômica, social e cultural. É por isso que a tradição idealista de Platão, Descartes, Hegel, entre outros, para mim, não serve para nada.
O conhecimento deve ser práxis. Relação do sujeito teórico com a prática e relação da prática com o sujeito teórico. Uma aperfeiçoando a outra. Mas o sujeito só pode ser sujeito dentro de uma sociedade; pois não existe sociedade sem sujeito e vice-versa. Intersubjetividade humana no mundo natural, fenomenal. Aqui e agora; não no além-mundo e na esperança que se sustenta num tempo futuro. E tenho dito!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O HOMEM: TRANSCENDÊNCIA NA IMANÊNCIA



O HOMEM: TRANSCENDÊNCIA NA IMANÊNCIA
A natureza, a meu ver, de forma absolutamente aleatória e contingente, tornou possível a existência humana. A existência do mundo e do ser humano não é, até onde se sabe, algo necessário. Diante do exposto, gostaria de refletir sobre a transcendência e a imanência humana, pois o homem é o único ser transcendente na imanência.
O interessante é que a transcendência humana acontece, mesmo para aqueles que têm uma concepção de mundo materialista, porque, para estes, aquilo que transcende ou vai além não é uma alma imortal, que tem num tempo futuro a esperança de dar um adeus ao mundo imanente e, portanto, material, mas uma transcendência do intelecto na mais pura imanência: a relação corpo-mente como fenômeno natural e finito. A morte de um é necessariamente a supressão do outro e vice-versa.
Em outras palavras, é a transcendência no tempo e no espaço, logo em tudo o que é mundano e que “permanece” enquanto muda. A “impermanência” é a única “permanência” em tudo que é transitório e efêmero. Mera coincidência com o grande filósofo Heráclito? O homem, que é feito da mesma “substância” do mundo e que, neste sentido, compartilha átomos com o universo, é consciente do que foi, pelo passado; do que é, pelo presente; e do que pode ser, pelo tempo futuro, portanto, pela imaginação, que nada mais é que a consciência antecipando o que não existe, em pleno tempo presente, o tempo futuro. A linguagem humana é a representação do tempo...
O homem, enquanto transcendência na imanência, torna-se alienado, ou seja, perde o contato consigo mesmo e tenta ser tudo o que não é: infinito, imortal, eterno. Em outras palavras, ao tentar ser infinito, imortal e eterno, o homem encontra-se com aquilo que mais teme: a própria morte. Afinal, o que é o infinito? A negação da finitude e deste mundo... O que é a imortalidade? A negação da transcendência intelectual em prol de uma dualidade suprafísica, numa palavra, a crença numa alma estranha ao corpo e que o habita pensando na “mansão das almas” e na sua suposta volta um dia... O que é a eternidade? A ausência do tempo e da mudança, logo, a morte da própria vida como a conhecemos... A única que conhecemos... O que é a vida? A própria existência em movimento contínuo, criando-se e recriando-se num dinamismo simples e complexo!
O que seria o mundo e o homem sem o tempo e o espaço? Nada? Não, pois o que é o nada sem o ser humano que pergunta pelo NADA? Não tenho resposta, alguém se habilita? Só sei que o ser transcendente na imanência (o homem) é pura contingência...
Enquanto vivermos, cabe a cada um de nós darmos significado à vida; não deixemos àqueles que abrem mão deste mundo, em prol de um suposto paraíso, dizer o que é melhor para nós, pois eles só sabem o que é melhor para suas contas bancárias... Alienaram-se deste e neste mundo e inventaram o sobrenatural para preencherem o vazio existencial que os perturba. Estão mortos em vida, pois abriram mão deste mundo e preferiram um futuro antecipado pela imaginação: a senhora que escraviza o transcendente finito em prol do transcendente imaginário, ou seja, tudo o que não é humano, mundano, material, natural e finito. Pois é...
O homem, ser em estado de derrelição no mundo desde o nascimento, encontra nos pais um amparo temporário, todavia deve buscar por si mesmo o sentido da vida sem a esperança de uma escatologia sobrenatural. O homem deve ser o meio e o fim do próprio homem. Meio, porque não vive sem o outro, e fim, porque só pode recorrer e compartilhar experiências em todas as dimensões humanas...
Texto: Marco Aurélio Machado

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

VOCABULÁRIO DAS ELITES E DAS MASSAS

Quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Vocabulário das elites e das massas
Diferenças entre o vocabulário das elites e das massas
Infelizmente, não é incomum constatarmos a diferença entre o vocabulário das classes dominantes e a linguagem das classes mais humildes. Gostaria de fazer uma reflexão básica, elementar sobre tal assunto que, a meu ver, é de importância nuclear para quem tem um vocabulário rico e, portanto, domina — e a pobreza do vocabulário das massas, que são dominadas. Vejamos o porquê a linguagem é tão importante.
Em primeiro lugar, por que será que tantos intelectuais defendem a ideia de que devemos respeitar a linguagem extremamente empobrecida das camadas mais humildes da população? Eles alegam que essas camadas se comunicam e que isso é o mais importante. Dizer, por exemplo, “nois foi”, “nois vai”, “a gente vamos”, e outras pérolas tão comuns, são consideradas uma parte cultural muito importante e que todos os tipos de comunicação devem ser respeitados, e não apenas o padrão culto.
A quem interessa que o vocabulário das massas seja empobrecido? Por que essa “tolerância”? Por que os intelectuais que defendem essas teses não as colocam em prática no cotidiano, e, portanto, não falam “errado”? Essas são as perguntas que eu sempre fiz quando me deparo com “especialistas” de outras áreas que estudam a linguagem. Nunca me convenci de que por trás dessas “teses” não existissem ideologias a serviço da classe dominante. Se a palavra, a linguagem, o vocabulário distinguem o homem do animal; se só o homem é capaz de se situar no tempo pelo uso dos signos e dos símbolos — por que a defesa e a tolerância de uma linguagem que não se distancia do tempo e do espaço, por ser reduzida em sua gama de sinônimos, convencem os “especialistas”?
Eu discordo. Um vocabulário pobre deixará as massas não apenas desprovidas de recursos materiais, mas, sobretudo, de recursos intelectuais. As massas, sem os recursos linguísticos que as camadas mais ricas da população possuem, serão dominadas e exploradas, tanto de um ponto de vista material como espiritual. Não vejo e ouço os ricos e a classe média alta não terem cuidado com o vernáculo. Por que será? Por que os EUA dominam o mundo, inclusive, pela língua inglesa? Por que os ricos e a classe média alta aprendem outros idiomas? Por que todas as profissões técnicas e acadêmicas têm um vocabulário bastante especializado e profundamente técnico? Quantas pessoas refletiram sobre isso? Por que a maioria das pessoas procura menosprezar a linguagem filosófica? Não será por ser ela uma das dinamites que detonarão esse discurso ideológico? Não será por que ela quer fazer uma terapia profunda sobre o significado das palavras e se preocupar com o rigor dos discursos? Pois é... Domina-se também pela violência "inocente" das palavras; troca-se o uso da força, tão comum na nossa história, pelas palavras e frases bonitas. As massas, inclusive, se encantam com pessoas que falam bonito, desde que não sejam discursos muito longos...
O que me deixa mais perplexo é a tolerância de tantos professores de Português, que embarcam nessa ideologia nefasta. Um vocabulário rico por parte das elites é elogiado pelas massas; mas, quando alguém de uma comunidade humilde enriquece o seu vocabulário e torna-se, por isso, capaz de ampliar a sua maneira de pensar, sentir e agir — inclusive ajudando a mudar a realidade social, cultural e política de onde ela vive —, os colegas e amigos costumam julgá-la alguém diferente e “metido à besta”. Ora, enriquecer o vocabulário das comunidades carentes e tolerar o mínimo possível que as pessoas se expressem de forma "incorreta", mesmo não sendo um padrão culto, seria o mínimo que poderíamos exigir. Não por ser “feio”, mas por causa do efeito perverso de dominação implícito nesse processo. As novelas e o telejornalismo poderiam ser grandes parceiros nessa luta; mas, eles estão preocupados com isso? Duvido! E basta um pouquinho de reflexão e de bom senso para desvelarmos o que está oculto pela ideologia dominante. Num certo sentido, os que dominam são dominados também; porque, apesar da riqueza do vocabulário, há pobreza de reflexão. E o que seria do capitalismo se a reflexão fosse algo corriqueiro? A sua própria ruína; pois, comprar seria um ato saudável por pura necessidade, e não porque as compras fossem influenciadas pelas propagandas de artigos supérfluos e pela moda do momento. Ter sempre muitos bens ajuda a aparência, mas esvazia a essência...
Evidentemente que as aulas de Filosofia, Sociologia, História e Português são essenciais para que começássemos a mudar tal realidade. Uma linguagem rica, mas sem pedantismo, é um caminho crucial para que os nossos jovens carentes pudessem ser ricos pelo menos intelectualmente. A riqueza do vocabulário verbal e escrito, com certeza, é um dos recursos para a superação da pobreza em suas várias dimensões. E, principalmente, a Filosofia deve estar atenta em explicitar os pressupostos da exploração conduzida pela linguagem empobrecida e denunciar, inclusive, os especialistas que estão a serviço da dominação e que muitas vezes não se dão conta da própria alienação!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O QUE É A AMIZADE?



Terça-feira, 23 de novembro de 2010
O QUE É A AMIZADE?
A palavra amizade é de uma beleza ímpar, singular. Muitas vezes repetida e quão poucas vezes colocada em prática. Mencionamos tal palavra ad nauseam; entretanto, quantas pessoas sabem o significado filosófico da amizade? Em outras palavras, qual é a essência da amizade? O que faz a amizade ser amizade e não um mero coleguismo?
Vou tentar definir a amizade, mas não tenho a intenção de esgotar o assunto — mormente num pequeno texto como é a pretensão deste. Defino a amizade como um sentimento nobre e altruísta de companheirismo, lealdade, sinceridade, carinho e solidariedade nas mais variadas situações da vida. Ser amigo é estar junto, mesmo estando longe — ou seja, é ter o amigo no pensamento —; é compartilhar segredos e confidências; é ficar alegre com as vitórias e triste com as derrotas; é ser sincero quando perguntado, mas respeitar a vontade do outro quando ele prefere o silêncio; é compreender que o amigo é humano e pode nos ferir, mesmo sem querer; é ter a certeza de que uma amizade não acaba, a não ser com a morte física das duas pessoas, pois enquanto uma estiver viva, o outro existirá nas lembranças...
A amizade é um sentimento raro; por isso, bendita seja a pessoa que encontrou um verdadeiro amigo. Quase sempre encontramos na nossa odisseia terrestre várias pessoas com quem convivemos e compartilhamos trocas afetivas. Todavia, o tempo se encarrega de mostrar se houve uma amizade ou um simples coleguismo. Na maioria das vezes, os desencontros são mais frequentes, principalmente porque não podemos dissociar a amizade de um contexto político, social, econômico e cultural.
A amizade só pode existir quando consideramos o outro como se fosse um fim em si mesmo, e não um meio para interesses mesquinhos e egoístas. Parafraseando uma frase do cantor e compositor Milton Nascimento: “Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves”...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO


terça-feira, 2 de novembro de 2010

O CETICISMO PIRRÔNICO!

Terça-feira, 2 de novembro de 2010
O CETICISMO PIRRÔNICO!
Quando nos referimos ao ceticismo, geralmente pensamos que o cético é aquele que duvida de tudo e, tal qual Descartes, coloca em dúvida a existência do mundo exterior e do próprio corpo. Evidentemente que com um ceticismo tão radical chegaríamos ao solipsismo — ou seja, a crença de que só posso ter acesso à minha mente e que tudo em volta não passa de situações na minha consciência. Vou preconizar neste espaço um outro tipo de ceticismo: o ceticismo pirrônico. E a minha intenção não é me referir à História do Ceticismo, já que há várias concepções sobre o ceticismo. Pirro de Élis (360 a.C. a 270 a.C.), filósofo grego que nasceu na cidade de Élis, é considerado o pai do ceticismo pirrônico ou pirronismo. Entretanto, conhecemos mais sobre o pirronismo através do médico e filósofo cético Sexto Empírico, que viveu entre os séculos II e III da nossa era.
Um cético pirrônico acredita nas leis naturais; nos instintos; nas leis e costumes humanos e na ciência — desde que não seja uma tentativa de ir além dos fenômenos, ou seja, daquilo que me aparece. Sexto Empírico era médico. E o ceticismo pirrônico tem uma relação com o empirismo, desde que seja de acordo com o que eu disse acima.
Percebemos uma certa regularidade na natureza; temos uma inclinação instintiva para matar a fome, dormir, reproduzir a espécie; sempre que vemos uma cicatriz, podemos deduzir que houve um ferimento naquele local; seguimos as leis e tradições ou podemos propor outras — mas sem achar que atingimos a essência ou a causa primeira do real. Não se deve confundir o ceticismo pirrônico com outras formas de ceticismo. Percebemos de uma forma natural, eis o ceticismo pirrônico. Não sabemos qual é a natureza de nada, apenas daquilo que nos aparece; ou seja, o fenômeno. Ex: um cético pirrônico não lhe dirá que o mel é doce por natureza, apenas que lhe aparece como tal. Ele lida com o mundo dos fenômenos, nada mais. Qual a natureza do fenômeno? Ninguém sabe, ora!
Se o cético lida com o fenômeno e a experiência que ele tem com o mundo, não busca a essência de coisa alguma, pois isso seria próprio das filosofias dogmáticas. Quem disse que o cético pirrônico abre mão do mundo dos fenômenos e do que lhe aparece? Não sabe qual é a causa do mundo e a sua verdadeira essência. Ele não faz metafísica; entretanto, quando alguém insiste, demonstra que não há como escolher entre duas teses filosóficas, pois elas se equivalem. Se uma doutrina filosófica afirma que algo é, o cético pirrônico demonstra que "não é"; se a doutrina adversária afirma que algo "não é", ele demonstra "que é". Diante dessas divergências, o cético pirrônico apenas usufrui do fenômeno sem colocá-lo em dúvida. Nada mais falso, portanto, a ideia de que o ceticismo pirrônico é contraditório. Pelo contrário, o cético se reconcilia com a vida comum dos homens. Insere-se no mundo dos fenômenos e se contenta com os seus limites...
Sabemos muito pouco e, quando o cético pirrônico analisa as várias correntes filosóficas, percebe que elas são contraditórias. Sempre há bons argumentos entre as várias doutrinas filosóficas, num conflito ad infinitum. Não podendo saber qual tem razão, o ceticismo pirrônico faz com que suspendamos o juízo (epoché) e nos permite, assim, chegar à ataraxia, ou a imperturbabilidade da alma. No trecho abaixo, fruto de outro texto que escrevi, constatamos a atitude de um cético diante das perguntas metafísicas a respeito das interrogações sobre as leis do universo.
(...) As leis naturais e o mundo deveriam ter sido inventados antes; que, por sua vez, deveriam ser antecedidas por outras leis e outro mundo; que, por sua vez, deveriam ser antecedidas por outras leis e outro mundo... Ad infinitum. Mas, se formos regredir ao infinito, logo de onde saiu este mundo? Da eternidade? E de onde saiu a eternidade?
Diante das questões supracitadas, evidentemente o cético voltaria a se deliciar com o mundo dos fenômenos, nada mais!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 23 de outubro de 2010

O QUE É O FUTURO?

Sábado, 23 de outubro de 2010
O QUE É O FUTURO?
O que é o futuro? Não conheço este tempo. Mas ele existe pela imaginação. Quem vive de imaginação não tem tempo para saborear o único tempo que existe: o presente.
Que futuro? As pessoas vivem 24 horas por dia. Cada minuto deve ser aproveitado da melhor forma possível. Não podemos antecipar pela imaginação — o futuro — o que possivelmente acontecerá ou não. Isto é uma fonte de ansiedade e de angústia. A pessoa não vive o presente e fica o tempo todo pensando no futuro. Quando o "futuro" chega, ele será o futuro? Não. Será o presente — e, talvez, completamente diferente do que fora planejado.
Um usuário de drogas ficará esperando o futuro para tentar parar pela força de vontade? Buscará um tratamento no futuro? Quando? Vai esperar chegar no fundo do poço? Não. A decisão de parar é aqui e agora. Um dia eu vou parar? Quando isto dará certo? Vivamos os problemas de hoje, hoje. Os de amanhã, amanhã; e, assim por diante. Pensar no futuro não é bom para a saúde mental; pelo contrário, é fonte de muito sofrimento antecipado.
Vou dar um exemplo simples: os AA (Alcoólicos Anônimos). Eles não pensam no futuro. Evitam o primeiro gole nas próximas 24 horas. No dia seguinte, renovam o compromisso. Por acaso eles não ficam anos sem beber? Se fizessem o compromisso de que um dia iriam parar, o que aconteceria? E se decidissem que parariam para sempre? Para sempre é muito "tempo". É todo o "futuro". Dificilmente uma atitude assim daria certo...
O passado gera a culpa e o futuro gera a preocupação. Dois tempos que não existem, mas que são a desgraça da maioria das pessoas. O passado já passou. O futuro não chegou e, quando chegar, será o presente. Infelizmente, no entanto, vivemos o passado pela nossa memória e lembranças, e o futuro pela imaginação. E o único tempo que existe (o presente) nós o gastamos remoendo o passado e projetando o futuro. Resultado: tome sofrimento.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

sábado, 2 de outubro de 2010

IDENTIDADE EM MOVIMENTO!

Sábado, 2 de outubro de 2010
IDENTIDADE EM MOVIMENTO!

Eu? Quem é o eu? Ele existe? Se existe, tem uma identidade imutável? É uma alma? Uma alma que, supostamente, existiria em uma outra dimensão espiritual? Será? Duvido.
Eu tenho muitas dúvidas. Talvez não seja por acaso que eu goste tanto do ponto de interrogação (?). Não consigo conceber um suposto "eu" separado do conjunto dos meus pensamentos — não sei como alguém pode explicar um "eu" pensando e ser diferente dos próprios pensamentos. Como pode um "eu" pensar se ele não é também pensamento? Como pode algo que é dinâmico e está em constante movimento ser uma entidade central e imóvel? Como se pode ver, as perguntas não param. A ideia de um "eu" imutável, que pensa sem ser pensado, é absurda e contraditória.
Penso que a situação supracitada faz nascer o medo e a superstição. Inventamos crenças e criamos deuses aos montes para que possamos nos sentir seguros. Construímos as nossas gaiolas, trancamo-las por dentro e jogamos a chave fora.
A Filosofia é, a meu ver, a única chave que temos para abrirmos a gaiola e voarmos. Entretanto, o que pode ser a solução pode também ser o receio de enfrentar o nosso pior inimigo: as algemas fabricadas pela nossa estupidez e ignorância. Viver no mundo das trevas é o mesmo que odiar as perguntas e aceitar explicações tolas e infantis — principalmente por parte daqueles que também estão no abismo, mas não sabem que estão. Estes são as piores companhias; pois, cegos de "nascença", não podem saber o que é a luz do sol. O conceito de sol, por mais belo que seja, se for dito por um cego de nascença, não terá o mesmo valor comparado aos olhos de uma criança inocente que percebe o sol como um fato.
O grande dilema humano é tentar explicar o mundo. Compreende muito mal esta realidade material, mas quer explicá-la por algo que compreende menos ainda: um suposto Deus. Prefiro a minha ignorância sobre o assunto. Sei muito pouco e sei que sei muito pouco... Todavia, sei como poucos a arte de fazer perguntas, de me espantar e de me admirar com a minha própria ignorância... Eis o motivo da minha paixão pela Filosofia — a luz da minha vida!!!
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

IMPRENSA E DEMOCRACIA NO BRASIL

Quarta-feira, 29 de setembro de 2010
IMPRENSA E DEMOCRACIA NO BRASIL

A palavra democracia é uma das mais pronunciadas no mundo. De ditadores sanguinários, políticos de direita e de esquerda aos meios de comunicação em geral, a palavra democracia é como se fosse o maná dos deuses. Tantas vezes pronunciada e raras ocasiões colocada em prática. Está na moda dizer que a liberdade de imprensa é tudo e que qualquer pessoa pode dizer tudo — desde que seja para bem "informar o público". Informar, sim; mas, a imprensa deve ter partido político? A imprensa pode acusar sem provas? Jornalistas podem ser demitidos por serem isentos? Governantes podem deixar de anunciar numa determinada mídia se a mídia divulgar os fatos?
Infelizmente, no Brasil, mesmo a democracia formal está muito longe de ser uma realidade. Para quem não sabe, na democracia formal há o direito à igualdade num plano abstrato; ou seja, todos são iguais (deveriam ser) perante a lei; liberdade de associação; de "ir e vir"; de ser inocente até que se prove o contrário — pois a Carta Magna (Constituição) nos garante tal "direito".
No Brasil e em muitos países com uma vocação autoritária — tipo "manda quem pode e obedece quem tem juízo" —, a palavra democracia chega a ser motivo de chacota; afinal, a regra quase sempre é esta: para o inimigo a lei, para o amigo o "jeitinho". E estamos nos referindo apenas à democracia formal; pois, se formos mencionar a verdadeira democracia — ou seja, a democracia substancial, que preconiza uma igualdade de fato, e não apenas sujeitos de direito abstrato —, as coisas, então, viram piada de gosto duvidoso! A democracia abstrata não alimenta quem tem fome; não dá educação de qualidade aos pobres; não cuida dos doentes; não coloca a pessoa sob um teto digno; não prepara o indivíduo para a cidadania; não emprega — em compensação, desampara...
É com muita tristeza que vemos, indignados e quase impotentes, uma meia-dúzia de famílias dominarem a mídia no Brasil e ainda estufarem o peito para grasnar uma "democracia" de fachada. Desde quando alguns coronéis que trocaram o chicote pelo black tie podem querer ganhar uma eleição no grito e no poder do dinheiro? Trocar as esporas das botas por uma roupa mais sofisticada muda também a alma de quem tem horror aos pobres? Basta alguém começar a tentar dar um pouco de dignidade ao povo e as elites reacionárias querem colocar mordaças — não apenas nas nossas bocas, mas nos tirarem o direito sagrado de sermos humanos? Já não se contentam em apenas dividir migalhas durante 500 anos?
Deixemos de ser uma republiqueta de bananas e vamos respeitar a vontade do povo, ora! Não é com mentiras, calúnias, infâmias e força bruta que a direita reacionária voltará ao poder. É preciso que este país assuma de vez o seu destino de crescer com autonomia, liberdade e responsabilidade. O Brasil é de todos — não é apenas de meia-dúzia de famílias que faz da onipresente mídia um meio para tentar impor interesses mesquinhos. O Estado brasileiro deve ser um meio para promover o bem comum; não pode, por isso, ter compromisso com quem diz "informar". A mídia não pode estar acima da lei. A lei é para todos e deve ser democrática — principalmente porque os canais de televisão e rádio são concessões estatais, e não poder de grupos privados que só gostam da "democracia" que assegura privilégios à nata da sociedade.
O país está no caminho certo e precisamos apenas colocar a Constituição cidadã em prática. Democratizar este país. E isto inclui cidadania de fato — e a mídia não pode ser contra um Estado que tem no povo a sua referência. A sociedade é a genitora do Estado. Este, então, deve cuidar de todos: desde a pessoa mais humilde à mais rica, ninguém pode querer ser mais "igual" do que os outros.
Avante, Brasil, pois a sua vocação é a luz que ilumina, e não as trevas daqueles que, por terem um microfone, a audição e a imagem onipresente e onipotente, pensam que podem ofuscar a nossa inteligência e o nosso sagrado direito de escolher o caminho que queremos seguir; mesmo que as nossas escolhas se mostrem equivocadas, pois é participando do jogo democrático que aprenderemos o que é a democracia de fato. Assim como ninguém aprende a nadar apenas teoricamente, ninguém saberá o que é a democracia somente através dos discursos dos donos do poder no Brasil. Por quê? Porque eles são treinados para exigir dos outros; todavia, quando se trata de exigência alheia, geralmente a intolerância é a regra: “façam o que eu mando, mas não façam o que eu faço”. Consideram a maioria dos brasileiros cidadãos de segunda classe, para dizer o mínimo... A voz do povo é inviolável e intransferível, não está à venda. Façamos o nosso destino e torçamos para que a mídia possa informar com lucidez e coerência. O bom senso e a tão decantada "informação democrática" agradecem. E que a luz da Filosofia continue atenta para anunciar as tentativas de profissionais que fugiram das aulas de ética.
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O MITO DO LIVRE-ARBÍTRIO RELIGIOSO!



Terça-feira, 14 de setembro de 2010
O MITO DO LIVRE-ARBÍTRIO RELIGIOSO!
O livre-arbítrio é um dos maiores argumentos utilizados pelas pessoas de boa-fé ou má-fé para tentar explicar o mal que acomete os seres humanos. Todavia, uma pequena reflexão pode jogar por terra a tentativa de explicar o que não tem explicação.
A maioria das pessoas, para fazer predominar as suas crenças e opiniões infundadas, parece ter um certo horror à lógica — e muitas querem encarcerar deduções lógicas em prisões dogmáticas. Vejamos mais de perto o tão decantado argumento do livre-arbítrio e as contradições lógicas que insistem em desaprová-lo. Recorrer ao argumento do livre-arbítrio é o mesmo que dizer que somos livres e responsáveis pelos nossos atos e atitudes. Em primeiro lugar, qual é o livre-arbítrio que uma criança de cinco anos tem? E uma criança de dois anos? Um pai responsável seria capaz de colocar uma criança de dois anos num ônibus para viajar para o centro de uma cidade grande? Por acaso os seres humanos, em relação a Deus, não teriam menos de dois anos? Deus, por ser onisciente, já não sabia desde a eternidade o que um dos seus filhos faria? Se sabia, como poderia colocar à prova alguém cuja atitude já estava escrita? Se, por outro lado, Deus não sabia, como pode ser Deus e onisciente? Parece o mito de Adão e Eva. Deus já sabia que Adão e Eva pecariam; se dissermos que não, então duvidaremos também da onisciência, onipotência e onipresença divina; se sabia, não precisava experimentá-los, certo? A Lógica é fria e não podemos colocá-la a serviço do nosso narcisismo divino...
O argumento do livre-arbítrio é totalmente contraditório. Uma criança de dois anos pode escolher não ser vítima de um pedófilo? Pode escolher não cair da sacada de um edifício? Quem poderia olhar por ela? Os pais? Mas os pais são imperfeitos — não são oniscientes, onipotentes e onipresentes. O único "pai" com todos esses atributos é o "pai" divino. Entretanto, é triste constatar que as crianças são vítimas de violências as mais variadas e, infelizmente, ainda não se viu intervenção do único ser que poderia fazer isso. Dizer que Deus deu livre-arbítrio para os seres humanos é mais improvável do que afirmar que um pai responsável deixa um filho de dois anos viajar sozinho. Pior: o primeiro “pai” é Deus; o segundo, um ser humano. Não tem o menor cabimento. Todavia, é nesse tipo de absurdo que as pessoas ingênuas querem nos fazer acreditar. A palavra é providencial: acreditar. Crença não é um fato — é apenas uma crença!
Essas pessoas não conseguem explicar quase nada; mas querem explicar a mente divina através de argumentos pueris, crenças e superstições. É o cúmulo da arrogância.
Eu poderia desenvolver este assunto com muitas e muitas páginas e demonstrar, cabalmente, que, de um ponto de vista lógico, o argumento do livre-arbítrio é fraco e infantil. Mas fico por aqui e espero ter contribuído para que as pessoas possam refletir sobre o assunto sem paixões, devaneios e piruetas acrobáticas que não explicam nada...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A PRIVATIZAÇÃO DO AR

Quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A PRIVATIZAÇÃO DO AR
Nas minhas "viagens" para trabalhar todos os dias, às vezes mergulho fundo em alguns questionamentos que fariam um "louco" se sentir "normal". Vou compartilhar com os poucos visitantes deste espaço uma dessas minhas especulações tenebrosas, dignas de um filme de terror. Parece brincadeira; mas, em se tratando de dinheiro, ganância, ambição e egoísmo, é bom não duvidar. Aliás, se dinheiro fosse comida, muitos capitalistas comeriam só notas de euros.
Não sei como os capitalistas e "empreendedores" ainda não descobriram uma forma de "privatizar" o ar. Sim — porque já arrumaram um jeito de privatizar as terras (parece até que receberam escrituras e registros de loteamentos divinos) e também já são "donos" até do verbo criador do mundo.
Não vai demorar muito e algum grande empresário descobrirá a "fórmula" de filtrar o ar — não para benefício da humanidade, mas para engordar a sua conta bancária. Virá em forma de download, direto da esfera celeste! Quem teria direito de respirar um ar puro e revitalizador? Os ricos e a classe média alta. Aquela que não é proprietária dos meios de produção, assalariada, ou composta por profissionais liberais, mas que tem pose de rica. Há exceções, é claro. A crítica não é uniforme. Pobre, "rica" classe média...
Essas classes pagariam uma senhora taxa por mês, com direito a reajustes anuais. Caso o cliente ficasse inadimplente, o "filtro" seria cortado... Parece brincadeira; mas é preocupante — afinal, a educação, a saúde, a televisão, a internet, a terra, a água, os animais e as plantas já têm donos. Se pagaram a duplicata a Deus é outra discussão. O mais engraçado disso tudo é que muitos empresários agradecem a Deus pelo fato de terem sido "abençoados". Bênção para explorar o que deveria ser de todos? Pois é...
Pobre humanidade. Pobres, ricos exploradores... Todavia, pelo menos um tipo de ar fora privatizado; afinal, os ricos e a classe média alta respiram um ar puro, mormente aos fins de semana e nas férias!! Onde? Nos sítios, chácaras, condomínios fechados, fazendas e outros refúgios naturais.
Seria interessante que o nosso lindo planeta azul pudesse ser um lugar onde não houvesse territórios cercados com arames farpados, muros, câmeras e cercas elétricas; que as malditas crenças (não apenas as religiosas) não dividissem os homens; pois, onde não há reflexão racional, impera a "lei dos instintos". Como seria bom se pudéssemos usufruir os recursos naturais e não sermos "proprietários" de nada. O melhor exemplo de que isso é possível é o ar — elemento essencial à vida de todos, mesmo que seja poluído pelo efeito do "progresso". O "progresso" em direção à morte. A morte de tudo que é belo e natural. Pergunta: os outros elementos também não são, por acaso, fundamentais à vida? Por que, então, foram privatizados? Bendita seja a democratização do ar; pois, o dia em que ele for privatizado, só os ricos e a classe média alta (será?) poderão viver. Tudo muito triste... Antes, só existissem os pássaros...
TEXTO: MARCO AURÉLIO MACHADO